Resenha: Fallujah – “Xenotaph” (2025)

Em um extremo do death metal, bandas competem para ser o mais brutais, grotescas e implacáveis possível — uma vocação nobre por si só. No outro, o gênero se torna cada vez mais sofisticado, técnico e progressivo, conduzido por grupos como o Fallujah, que perseguem a perfeição sonora e composicional. “Xenotaph”, lançado pela Nuclear Blast e distribuído pela Shinigami Records, porém, nasce justamente da interseção entre o extremo e o elegante: um álbum que consolida ainda mais a reputação do quarteto da Bay Area como virtuoses eruditos, capazes de equilibrar brutalidade e beleza em proporções equivalentes.

Depois de atingir um ápice criativo com “Empyrean” em 2023, o Fallujah dá mais alguns passos ousados em seu sexto trabalho. Produzido com o tipo de minúcia que separa os gigantes dos meramente competentes — especialmente no território do tech-death —, “Xenotaph” se aproxima mais das ambições recentes do Allegaeon e do Rivers of Nihil do que de qualquer registro puramente técnico lançado nos últimos anos. É o som de uma banda mergulhada nas próprias imaginações vibrantes, criando algo ao mesmo tempo deslumbrante e desconcertante.

A magia se revela desde o início. Após uma introdução elegante, adornada por vocais limpos quase angelicais, “In Stars We Drown” explode com um vigor death metal dos anos 90, altivo e imponente. Os vocais limpos continuam entrelaçados pela faixa, mas os guturais abissais de Kyle Schaefer mantêm tudo ancorado no extremo, enquanto Scott Carstairs atravessa paisagens quase djent e passagens de serenidade cristalina antes de desembocar em um solo incandescente. O Fallujah continua tão incisivo quanto era em 2011, quando “The Harvest Wombs” chamou atenção pela primeira vez, mas agora a intrincada arquitetura das composições e o olhar decididamente progressivo brilham como nunca. Em três minutos, o grupo cobre todas as bases — um impacto imediato, com melodias que grudam na memória.

Essa abordagem faz do Fallujah uma banda mais acessível, sem abrir mão da complexidade vertiginosa que sempre os definiu. Faixas como “Kaleidoscopic Waves” e “Labyrinth of Stone” operam com a mesma lógica expansiva, mas em escalas mais grandiosas. Esta última se apoia fortemente em texturas jazzísticas e mudanças enigmáticas de humor e andamento, características que sempre destacaram o grupo dentro do tech-death. Tudo, porém, funciona em benefício do conjunto — uma performance coletiva tão precisa que chega a ser milagrosa. O mesmo vale para “The Crystalline Veil”, essencialmente um épico prog metal com tinturas death, elevado sobretudo pelo uso magistral da dinâmica quieto/alto e pelos vocais limpos que irrompem de brechas inesperadas na agressão.

Há também um véu de melancolia pairando sobre o álbum, outro traço que separa o Fallujah de tantos pares. Em “Step Through the Portal and Breathe”, as camadas densas de riffs avançam e recuam como marés, abrindo espaço para clarões melódicos enquanto versos poéticos e enigmáticos — “Time has left its mark / In a true disconnection of the head and the heart” — adicionam uma dimensão cerebral à música. O encerramento, com a faixa-título, é o ponto alto: sete minutos de deslumbramento técnico mesclado a explosões sinfônicas e uma performance de banda que destrói à moda antiga. Sim, o Fallujah é formado por músicos absurdamente inteligentes, mas aqui emoção e alma borbulham logo abaixo da superfície, essenciais à refinada arte que praticam.

No fim das contas, “Xenotaph” é um tour de force transcendental — uma obra que reafirma o Fallujah como uma das forças mais visionárias e emotivas do death metal moderno.

NOTA: 9

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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