A política acabou com o Shaman? Irmãos Mariutti respondem

Poucos anos atrás, o metal nacional se viu mais uma vez orfão do Shaman. Após o retorno da banda, dessa vez com Alirio Netto, um dos maiores expoentes da música pesada nacional chegou ao fim, dessa vez parecendo definitivo.

Em participação no podcast Futeboteco, os irmãos Luis e Hugo Mariutti foram questionados se sem a política a banda teria continuado. Inicialmente, a dupla foi questionada se sem as falas do baterista Ricardo Confessori, o grupo ainda estaria em atividade. Luis responde, conforme transcrito pelo Confere Rock:

“Olha, cara, eu não sei se não teria acabado, né? Mas, assim, eu tava com a sensação de dever cumprido. Foi uma coisa meio inesperada.”

Hugo então complementa:

“E às vezes as pessoas falam muito que foi por divergência política. A gente sempre soube da posição de cada um e sempre respeitou. Eu e o Luis, por exemplo, nunca discutimos, apesar de pensarmos totalmente diferente. Sempre houve respeito.”

Luis então complementa:

“Só que, cara, no meu entendimento — e isso é importante deixar claro — eu já tava me sentindo cansado. E eu sempre fui um cara que deu muita moral pro Ricardo. Sempre. E eu acho que o mínimo teria sido ele avisar, falar: “Ô, velho, fiz uma merda aí. Usei o Instagram da banda pra xingar”. Mas não foi isso. Ele bloqueou fã no Instagram da banda, começou a sair bloqueando gente, sabe? Então eu só achei que faltou o mínimo de conversa. Eu falei: “Porra, cara, deveria pelo menos ter tido a humildade de dizer: ‘Ó, Luis, fiz uma merda’. Em vez disso, ele fez um pronunciamento lá, sozinho. Aí, naquele dia, eu falei: “Ah, quer saber? Acho melhor deixar o Shaman descansar”. Deixar descansar porque tava uma pressão muito grande em cima da banda, energeticamente falando.

Hugo então fala sobre como a questão afetou a composição da banda:

“E tem um ponto importante nisso tudo: pra você compor com alguém, sentar, trocar energia, é muito difícil fazer isso num ambiente pesado, num ambiente que não tá rolando.”

Luis complemente:

“E outra coisa: quando a gente voltou, qual era o propósito? A formação original. O Ricardo, apesar de tudo, era o batera do Shaman. Só que a gente já não tinha mais o Andre. Então, pra mim, naquele momento, também não fazia mais sentido seguir colocando outra pessoa só pra continuar. Porque as pessoas falam muito: “Ah, faz isso só pra ganhar grana. Coloca um batera aí e continua”. Mas não era isso. A gente sentiu a necessidade de respeitar o que cada um tinha feito pela banda.”

Na sequência, a dupla foi questionada como foi para eles ver alguns posicionamentos mais coservadores dentro do rock/metal nacional, e então Hugo respondeu:

“Cara, quando a gente começou a curtir rock, a deixar o cabelo crescer, ainda tinha muito resquício da ditadura. Cabeludo era parado pela polícia. Cabeludo era vagabundo, marginal. Eu mesmo levei uma geral com 12 anos, dentro de um colégio de freira, numa festa junina. O cara me encostou na parede e começou a cheirar minha mão porque eu tinha cabelo comprido. Um negócio muito louco. Então eu acho totalmente incompatível esse pensamento reacionário com o rock, com a música em geral e com a classe artística. Teatro, artes visuais, tudo isso sempre foi progressista.”

Ele segue:

“E essa mesma galera fala mal de Lei Rouanet. Outro dia postei uma coisa e o cara veio comentar: “Tá mamando na teta da Lei Rouanet”. Aí você pergunta se o cara sabe o que é a Lei Rouanet… não sabe. É inacreditável.”

Quando questionado se ele acha que “sempre ouve pessoas reacionárias no rock”, Luis responde:

“Acho que sempre teve de tudo. O problema é que isso começou a ficar muito explícito. As pessoas passaram a dar um valor exagerado pra política. Será que a política brasileira merece isso tudo? Desde que eu me conheço por gente, o Brasil é a mesma coisa. Sai governo, entra governo, as favelas só crescem, a periferia só cresce. É sempre a mesma história.

O Sarney fez 100 anos, tava todo mundo lá, esquerda e direita se abraçando. É a mesma escola. Isso que me entristece: o Brasil dá importância demais pra isso e esquece de pensar em reforma, em tirar privilégios. Os caras bebem água Perrier, ganham 40, 50 mil, têm assessor pra tudo. Aí depois reclamam que o povo é egoísta. É reflexo, cara.”

E completa:

“Todo mundo quer a mamata. Você vê os caras com relógio de 80, 100 mil reais. É pastor, é político de direita, de esquerda, todo mundo ostentando. Enquanto isso, o povo se ferra.O Mujica era um exemplo. Morreu com o Fusca dele. Então, pera lá.O voto é secreto. A gente não devia ficar levantando bandeira no meio da música, principalmente no rock brasileiro, que já tem pouco espaço. Um cara que vive o rock e apoia discurso autoritário, ditadura, isso não faz o menor sentido.”

A entrevista pode ser vista abaixo

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

One thought on “A política acabou com o Shaman? Irmãos Mariutti respondem

  • janeiro 13, 2026 em 10:39 pm
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    Depois da saída do Andrea Matos virou projeto, essa é a minha opinião. Abraços

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