A estreia do Deftones no Brasil: peso, catarse e consagração no Rock in Rio 2001
O Rock in Rio III, realizado entre 12 e 21 de janeiro de 2001, marcou o retorno do festival após uma década de hiato. A chamada Cidade do Rock, montada na Barra da Tijuca, foi concebida para receber centenas de milhares de pessoas por noite, reunindo artistas consagrados e nomes em ascensão da música pesada, alternativa e pop.
Foi nesse cenário que o Deftones subiu ao palco pela primeira vez em território brasileiro. Naquele dia específico, o festival já havia sido tomado por um público numeroso desde as primeiras horas, e a atmosfera foi gradualmente carregada de expectativa. O som pesado que ecoava pelos palcos vizinhos ajudou a preparar o terreno para uma apresentação que seria marcada por densidade sonora, tensão emocional e explosões catárticas.
A banda foi recebida por uma plateia que, embora diversa, demonstrou rápida identificação com o repertório apresentado. Ainda que muitos espectadores estivessem conhecendo o Deftones ao vivo pela primeira vez, as músicas foram cantadas em coro, evidenciando que a conexão já havia sido construída antes mesmo do primeiro acorde, já que naquela época a onda nu-metal já havia passado pelo Brasil e angariado fãs com outras bandas como o Korn, Limp Bizkit e o então recém-surgido Linkin Park.
O Rock in Rio III
A terceira edição do Rock in Rio ficou marcada por diversos motivos. Acontecendo no começo do ano, o festival trouxe naquela edição artistas como o Guns N’ Roses, Red Hot Chili Peppers, Silverchair, Iron Maiden, Oasis e o Deftones, entre outros vários.
Foi até então o maior público que o festival já teve, com nada menos do que 250 mil pessoas presentes. O Rappa era uma das atrações escaladas para uma das noites, mas devido a uma troca de horários em cima da hora, eles se recusaram a tocar, o que levou a sua expulsão. Em protesto outras cinco bandas nacionais se retiraram do evento, sendo elas, Raimundos, Jota Quest, Charlie Brown Jr., Skank e o Cidade Negra. Com isso, O Surto, banda com apenas um único disco na bagagem assumiu a responsabilidade de subir ao palco principal.
A banda Diesel ganhou um concurso e foi a responsável por abrir os trabalhos do Palco Mundo no último dia do festival. O Guns N’ Roses subia em um palco pela primeira vez após um longo hiato e mudanças na sua formação e da formação da sua até então última passagem pelo Brasil, na edição anterior do Rock in Rio, só sobraram Axl Rose e o tecladista Dizzy Reed.
Um dos momentos mais lembrados dessa edição foi quando o cantor Carlinhos Brown levou uma chuva de garragas do público e não conseguiu realizar o seu show após tantos protestos da plateia.
O Iron Maiden, estrela de uma das noites, gravou sua apresentação para o lançamento de um dvd, que marcava o primeiro registro ao vivo desde a volta de Bruce Dickinson.
Um show marcado por intensidade e entrega
Durante a apresentação, foi evidenciada uma das principais características do Deftones: a capacidade de alternar agressividade extrema e momentos etéreos dentro de uma mesma canção. A performance vocal de Chino Moreno foi conduzida entre gritos dilacerados e linhas melódicas introspectivas, enquanto a base instrumental manteve o peso e a precisão que já haviam se tornado marca registrada do grupo.
A reação do público foi descrita, posteriormente, como imediata e intensa. Rodas de mosh foram formadas, braços foram erguidos e refrões foram entoados de forma espontânea. Dessa forma, o que poderia ter sido apenas mais um show de festival foi transformado em um momento de comunhão coletiva, reforçando a fama do Brasil como um dos países mais receptivos ao rock pesado.
Quem era o Deftones naquele momento
Quando desembarcou no Brasil em 2001, o Deftones já carregava uma trajetória sólida. A banda foi formada em Sacramento, Califórnia, no final dos anos 1980, e era composta por Chino Moreno (vocal), Stephen Carpenter (guitarra), Chi Cheng (baixo), Abe Cunningham (bateria) e Frank Delgado (samplers e efeitos).
Desde o início, o grupo foi diferenciado dentro da cena alternativa por não se limitar a rótulos. Embora frequentemente associado ao nu metal, o Deftones incorporava influências de hardcore, shoegaze, metal alternativo e rock experimental, criando uma sonoridade atmosférica e, ao mesmo tempo, brutal.
A construção de uma reputação internacional
Antes da estreia no Brasil, a reputação do Deftones já havia sido construída por meio de álbuns que redefiniram o rock pesado dos anos 1990. O disco de estreia, “Adrenaline” (1995), foi responsável por apresentar a banda ao grande público, enquanto “Around the Fur” (1997) consolidou seu nome com faixas que passaram a frequentar rádios e canais de música ao redor do mundo.
No entanto, foi com “White Pony” (2000) que o grupo alcançou um novo patamar artístico. Lançado poucos meses antes do Rock in Rio, o álbum foi amplamente elogiado pela crítica e apontado como um divisor de águas, no qual a banda se afastou de fórmulas previsíveis e passou a explorar texturas eletrônicas, climas sombrios e estruturas menos convencionais.
Assim, a apresentação no Brasil ocorreu em um momento crucial, quando o Deftones deixava de ser apenas uma promessa do metal alternativo para se firmar como uma banda de vanguarda dentro do gênero.
A recepção brasileira e o início de uma relação duradoura
Após o show no Rock in Rio 2001, foi estabelecida uma relação que se mostraria duradoura entre o Deftones e o público brasileiro. Em entrevistas concedidas nos anos seguintes, membros da banda destacaram a energia dos fãs e a intensidade da resposta recebida naquela primeira visita ao país.
Esse vínculo foi reforçado em retornos posteriores, com shows solo e novas participações em festivais, sempre marcados por casas cheias e recepção calorosa. Desse modo, a estreia em 2001 passou a ser lembrada como o ponto inicial de uma história construída ao longo de décadas.
Um momento que ultrapassou o tempo
Com o passar dos anos, a estreia do Deftones no Brasil deixou de ser apenas um dado cronológico e passou a ocupar um espaço simbólico na memória dos fãs. O show no Rock in Rio 2001 é frequentemente citado como um dos momentos em que o festival reafirmou sua relevância para o rock pesado e, ao mesmo tempo, apresentou ao grande público brasileiro uma banda que se tornaria referência artística.
Assim, mais do que uma simples primeira vez, aquela noite foi consolidada como um marco histórico, no qual som, emoção e contexto se alinharam para transformar uma apresentação em legado.
O grande retorno em outro grande festival
Depois de mais de uma década longe dos palcos brasileiros, o Deftones vai voltar ao país em 2026. A banda sobe ao palco do Lollapalooza no primeiro dia do festival, 20 de março, ao lado de nomes como Sabrina Carpenter, Interpol, Blood Orange e outros. No ano passado, o Deftones lançou seu novo trabalho, o disco “private music” e a resenha você pode conferir aqui.
Setlist Deftones Rock in Rio III
- Engine No. 9
- My Own Summer (Shove It)
- Around the Fur
- Korea
- Feiticeira
- Change (In the House of Flies)
- Root
- Digital Bath
- 7 Words
- Say It Ain’t So
- Headup
