Mao do Garotos Podres detalha o inquerito com música da banda
Recentemente, o Garotos Podres, um dos maiores nomes do punk nacional, foi alvo de um inquérito após sofrer denúncia por conta da letra da música “Papai Noel Velho Batuta“.
Em participação no podcast Amplifica de Rafael Bittencourt, o vocalista da banda, Mao, deu detalhes do inquérito e fez um paralelo com a época da Ditaduta Militar que o Brasil viveu e como eram os censores do regime. Ele diz conforme transcrito pelo Confere Rock:
Acontecia o seguinte: se gravasse alguma coisa, você tinha que submeter a música à apreciação por esse órgão da polícia. No nosso primeiro álbum, tivemos duas músicas censuradas, tá? E havia vários níveis de censura. O nível mais leve — que foi o que nos atingiu, digamos assim — era a proibição de execução pública em rádio e TV, ok? Então, “Johnny” e “Vou Fazer Cocô” foram proibidas de execução pública. Ou seja, a Polícia Federal censurou o cocô. Olha aí, né?
Ele continua:
No nosso segundo álbum, tivemos um problema mais sério com “Batman”. Primeiro, aqui em São Paulo, o Departamento de Censura proibiu a execução pública da música. A gravadora recorreu e, aí, eles aumentaram o rigor: proibiram totalmente, a música não podia nem entrar no disco. O álbum, já pronto, correu o risco de sair riscado, na faca. A gravadora recorreu novamente, e esse recurso foi julgado no dia 4 de outubro de 1988, um dia antes de entrar em vigor a nova Constituição, que acabava com a censura prévia no Brasil. Ou seja, provavelmente os Garotos Podres são os autores da última música censurada no Brasil.
Mao então fala sobre a música alvo do inquérito de 2025:
Em relação ao “Papai Noel”, quando a gente gravou, já pensou: “Vai dar problema”. Porque era “Papai Noel, filho da…”, né? A gente falava “Papai Noel FDP”. Não vou falar, porque é feio. Falar palavrão, tem criança. Então, ao invés de gravar “Papai Noel FDP”, resolvemos gravar “Papai Noel Velho Batuta”, certo? E o pior é que ficou legal, porque não perdeu o sentido. É muito evidente, e é muito interessante, porque tem muita gente que jura de pé junto que a gente tá cantando outra coisa, e não “velho batuta”. Ficou engraçado.
Beleza, foi aprovada. Ou seja, o Departamento de Censura de Diversões Públicas da Polícia Federal, lá no comecinho da Nova República, logo depois da ditadura, aprovou a música.
Na sequência, Mao fala então como foi receber a notificação de que ele e a banda estariam enfrentando um inquérito após denúncia no Ministério Público:
Aí, em 2025, eu estava em casa quando recebi uma mensagem no WhatsApp dizendo que uma autoridade policial queria entrar em contato comigo. Pensei: “Nossa, o que aconteceu? O que eu matei que não lembro? Será que matei alguém e não lembro até agora?”. O que era? Houve uma denúncia contra a banda Garotos Podres, tanto na Polícia Civil quanto no Ministério Público, nos acusando de tudo que você pode imaginar. Só não nos acusaram de ter afundado o Titanic ou provocado a erupção do Vesúvio. O resto, acusaram de tudo.
Entre as inúmeras acusações, nos acusaram de tocar uma música terrível chamada “Papai Noel Velho Batuta”. Eu trouxe até uma cola aqui, ó. Professor trouxe cola. Vou ler um trecho curtinho da denúncia:
“Papai Noel Velho Batuta. Nessa música, apesar de Papai Noel ser uma figura lendária que representa uma cultura mundial cristã, os mesmos, na letra, usam palavras que incentivam a violência, sequestro e morte.”
Ele então continua e fala que houve um interrogatório:
Olha que lindo. Ou seja, ele tá dizendo que a gente incentiva sequestro e morte, que incentiva as pessoas a praticarem crimes. E olha o que descobrimos: que Papai Noel é uma figura lendária cristã. Puxa, eu não sabia. Nunca li a Bíblia, não sabia que tinha Papai Noel lá. Deve ter, né? Eu que sou burro, não sei ler. Primeiro eu fui interrogado. O empresário da banda foi interrogado online. Depois insistiram em interrogar o restante da banda. Eu falei: “Pô, vão interrogar o baterista, que é o mais jovem da banda”. Essa música foi composta e gravada antes de ele nascer.
A autoridade policial ficou questionando essa história de sequestrar Papai Noel. Aí o Negralla, o baterista, falou: “Ô, lindão, isso dá uma boa história, hein? Tem até núcleo de geração de histórias com inteligência artificial. Sequestro do Papai Noel dava um filme”. A autoridade ficou séria, como se ele estivesse sendo acusado de planejar um sequestro real. Tivemos que explicar que Papai Noel não existe, então não dá pra sequestrar.
O guitarrista também foi interrogado. Quando a música foi gravada, ele tinha um ano de idade. Isso tudo tá no inquérito policial. Tá documentado. No inquérito, consta a seguinte pergunta:
“Foi tocada a música ‘Papai Noel Velho Batuta’ e perguntado ao declarante se entende que aquela música, de forma subliminar ou não, insere uma cultura de violência, ao tempo em que se fala na letra ‘vou matar Papai Noel’.”
Quando li isso, fiquei horrorizado. Falei: “Puxa, não sabia”. Fomos descobertos. Usamos mensagens subliminares pra transformar as pessoas em serial killers. Não, cereal killers. Tá vendo como a gente é malvado? Isso é violência. Porque veja bem: nós vivemos o final da ditadura militar, tivemos problemas com censura. A censura era burocrática: você entregava a letra, vinha um parecer — aprovado ou proibido. Mas não isso: inquérito policial, ameaça de processo, condição de investigado.
O vocalista do Garotos Podres então diz achar que vive tempos ainda piores do que anteriormente:
Na minha opinião, em termos de ameaça às liberdades democráticas, estamos vivendo algo pior do que na década de 1980, quando ainda vigorava a legislação da ditadura. Eu acho tenebroso. É o espírito da época. Estamos assistindo ao avanço do “evangelistão”.
Essa moral hipócrita. A mesma pessoa que, há 40 anos, assistia criança dançando na “banheira do Gugu”, hoje clama por censura. O Papai Noel, inclusive, é originalmente pagão. Foi apropriado pelo cristianismo e depois pelo capitalismo. Ficou vermelho por causa da Coca-Cola. É o símbolo máximo do consumo. Presenteia ricos, exclui pobres.
Não somos contra o Natal nem contra o cristianismo. Somos contra a hipocrisia e a desigualdade social. O problema é a ignorância, que transforma pessoas em inquisidores. Um cidadão ignorante se sente no direito de acionar o Estado para perseguir quem mostra uma realidade incômoda.
Se não tomar cuidado, vamos pra fogueira. Ainda corremos risco de processo por causa de um tonto desses. Dá dó, mas também dá preocupação, porque ele representa muita gente.
A entrevista completa pode ser vista abaixo
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