Há 30 anos o Sepultura colocava o Brasil de vez na rota do metal mundial com “Roots”
Há exatamente 30 anos, o Sepultura explodia de vez para o mundo com “Roots“, um disco que tem proporções gigantescas por diversos pontos em sua carreira e para o metal mundial. Lançado em 20 de fevereiro de 1996, o álbum é um marco na história do metal brasileiro, pois traz influências diretas da nossa música e raízes, assim como o seu nome sugere.
Sendo o sexto disco da carreira, o Sepultura já havia começa uma leve mudança em seu álbum anterior, “Chaos A.D“, e isso foi elevado ainda mais por aqui. Era a década de 1990, mudanças sonoras aconteciam no cenário do metal, o grunge já havia alcançado seu auge e um novo som despontava com o nascimento de bandas como o Korn, Deftones e Limp Bizkit, era o nu-metal.
Anthrax, Mötley Crüe, Kiss, Metallica e outros, passavam por mudanças em seu som e o Sepultura resolveu apostar alto e se jogar de vez na revolução de seu som. Trouxeram Ross Robinson, conhecido como “padrinho do nu-metal” por ter apadrinhado e lançado boa parte das grandes bandas do gênero para a produção.
Ao propôr a Ross sua ideia e levar ao chefes da Roadrunner Records, a então gravadora da banda, Max foi desencorajado do seu projeto, chegando a dizerem que seria um “suícidio comercial”. Tirando inspirações do filme At Play in the Fields of the Lord e quis um encontro com uma tribo indígena para capturar sua cultura.
A seguir, trecho retirado do artigo acadêmico científico escrito por Marcio Machado:
Max entrou em contato com Angela Pappiani, jornalista que desenvolve trabalhos com o Núcleo de Cultura Indígena, autora dos livros Povo Verdadeiro (Ikore, 2009) e Entre Dois Mundos (editora Nova Alexandria, 2010). Inicialmente, iriam tentar trabalhar dentro de uma aldeia Caiapó, mas a própria Angela aconselhou que não fosse feito, pois não eram uma tribo muito amistosa ao branco e seu contato seria extremamente difícil. Em seguida se pensou nos Xavantes, e assim foi feito. Embarcaram em um avião para uma reserva na região do Camarana, no Mato Grosso, onde ficariam três dias.
Dentro da tribo, a banda é sua equipe foram recebidos por Cipassé, cacique da aldeia que fez as honras de introdução. Ali houve o choque de cultura, de um lado se tinha os brancos com seus costumes e vestimentas, do outro o indígena, o nativo original do país imerso em sua cultura. Nas palavras do próprio Max Cavalera, desde criança sabemos haver índios no Brasil, mas não temos informação(2013). Quais costumes, o que comem, o que representam suas danças e pinturas, tudo não passa de uma figura exótica vendida sem conteúdo.
Embarcaram todos os membros do Sepultura, Gloria Cavalera, esposa e agente da banda e o próprio Ross Robinson. Para estar ali, o Sepultura deveria fazer parte daquilo tudo, não observar, mas viver toda essa experiência. Comeram o cardápio, participaram das atividades de lazer que consistia em nadar em rios e partidas de futebol, onde de um lado a banda com coturnos a meia canela enfrentavam índios descalços, e dormiram no chão, onde Andreas Kisser, guitarrista da banda disse que sentia insetos embaixo do chão se mexendo. O grupo participou de momentos sérios dentro da aldeia. Os integrantes do Sepultura e sua equipe fizeram parte dos Xavantes, receberam deles próprios as pinturas corporais e artefatos indígenas em seus corpos.
Após a passagem tribal, o Sepultura entrou no estúdio e com uma gama de convidados como Jonathan Davis e David Silveria do Korn, Mike Patton do Faith No More, Carllinhos Brown, cantor e compositor brasileiro e DJ Lethal do Limp Bizkit.
A musicalidade do álbum traz o peso tradicional da banda com um som mais modernos, bebendo de fontes como o primeiro disco do Korn, trazendo momento experimentais como “Lookway“, outros mais “abrasileirados” em “Ratamahatta” e “Attitude” com berimbau característico da capoeira e a faixa “Roots Bloody Roots” que é quase um mantra repetido em sua letra e é figurinha carimbada até hoje nos shows da banda. Além disso, a estadia na tribo xavante resultou na faixa “Itsari“.
O disco foi um verdadeiro sucesso de crítica, chegando a arrancar elogios até mesmo da crítica não especializada do metal, como o Los Angeles Times e o Daily News. Alcançou disco de ouro em países da América do Norte, Europa e Austrália e Reino Unido e a posição 27 na Billboard 200.
Mas “Roots” representaria também um rompimento. Foi o último disco a contar com Max Cavalera na banda, que anunciou sua saída logo após o fim da turnê, se tornando um divisor não somente no som da banda, mas em sua própria história.
Até hoje, 30 anos após seu lançamento, “Roots” divide opiniões, com alguns fãs o amando e outros dizendo que ali já era uma banda diferente e não tão interessante como anteriormente. Mas independente disso, o disco colocou de vez o Brasil na rota do metal mundial e mostrou suas raízes para o mundo e uma forma diferente de fazer o som.
