Megadeth lota Espaço Unimed com seu “último show” trazendo clássicos, lançamentos e inéditas
Texto por: Daniela Reigas
Os amantes do thrash metal entraram em alvoroço quando mais um dos “Big Four”, o Megadeth, anunciou seu afastamento dos palcos com a turnê “This Was Our Life” – o motivo seriam algumas condições de saúde de seu emblemático fundador e frontman Dave Mustaine. Para além de celebrar o legado, a turnê promove também o último álbum da carreira, auto-intitulado (mas também chamado pelos fãs de “white album”), lançado no começo do ano. Começando pela América Latina – onde a base de fãs é grande -, o Brasil teve apenas uma data adicionada, na cidade de São Paulo, e não surpreendentemente, teve ingressos esgotados rapidamente.

A conveniência da data, 02/05, sábado de feriado, facilitou para que a maioria dos fãs conseguisse chegar cedo ao Unimed – uns para o Meet & Greet que ocorreria já no final da tarde, outros para garantir algum item de memorabilia da banca de merchandise oficial, outros para simplesmente ficar o mais próximo que pudessem de seus ídolos. Às 21:30h, quem tinha se acomodado, não sairia mais nem por um decreto, e quem não tinha conseguido chegar onde queria não chegaria mais – a apresentação estava prestes a começar. Com a logo da banda norte-americana no plano de fundo, paredões de amplificadores Marshall de ambos os lados e a bateria de bumbo duplo ao centro, bem oldschool, os holofotes apontam a posição do maior rockstar da noite e “Tipping Point”, a primeira single do novo trabalho, abre o set, assim como no disco. Acompanham Mustaine, o baterista Dirk Verbeuren (ex-SOILWORK), o guitarrista Teemu Mäntysaari (ex-WINTERSUN) e o baixista James LoMenzo (BLACK LABEL SOCIETY, LYNCH MOB, outros), retornando ao posto que já havia ocupado em meados dos anos 2000. Os músicos demonstram excelente energia e entusiasmo, e a audiência corresponde; após a porradaria, na parte final mais “suave” da faixa, Mustaine incentiva os fãs a cantarem o refrão dizendo que quer ouvi-los.

Em seguida, uma surpresa especialmente para os paulistanos: a intro maligna de “The Conjuring” arranca gritos de “put@ que pariu!!” da plateia, pois não havia sido tocada na turnê até o momento. Certamente um desafio vocal para Dave, que se esforça para entregar o melhor que pode, afinal, tocar e cantar coisas complexas, aos 64 anos e após ter vencido um câncer de garganta, não é pra qualquer um. Os fãs mal têm tempo de gritar “Megadeth, Megadeth!” pois na sequência, um hit absoluto, “Hangar 18”, faz todos pularem e cantarem o riff, é possível ver também algumas rodas abrindo no meio da pista. Os músicos se movimentam bastante no palco, dando oportunidade para todos testemunharem de perto seus favoritos; Teemu faz bonito executando os icônicos solos com precisão e jogando seus cabelos para o alto, enquanto Dave faz solos mais sujos, com a agressividade que a música pede. Como esperado, a plateia sabe o que gritar acompanhando as batidas de Dirk. Após uma breve pausa para retomarem o fôlego e trocarem de instrumentos, Mustaine finalmente saúda a todos com um simples “Good evening!” (Boa noite) e traz uma dobradinha de algumas das mais “pop” da carreira – em ambas, James e Teemu capricham nos backing vocals do refrão, e os fãs mostram que conhecem bem as letras: primeiro, a melódica “She-Wolf”, depois o monólogo da (sua?) mente perturbada em “Sweating Bullets”. Ironicamente, o frontman aproveita momentos de pausa na segunda faixa para limpar um pouco do suor e arrumar os longos cabelos ruivos. Ao final, elogia as“sonoras e belas” vozes do público e pergunta se todos estão bem. O cantor também quer saber quantos dos presentes estão vendo a banda pela primera vez justamente nessa turnê de despedida e quantos ouviram o último álbum; como a quantidade de mãos levantadas na segunda resposta foi menor que na primeira, ele dá um puxão de orelha sugerindo aos que ainda não o fizeram que ouçam, pois vão gostar.

Assim, segue com “I Don’t Care”, cujas letras parecem estar sendo direcionadas a uma pessoa bem específica na mente de Mustaine, que canta com sangue nos olhos e solta até um “F#ck yes!” no final. Após algumas interações com os fãs das primeiras filas, ele anuncia a próxima, “Dread and the Fugitive Mind”, na qual Teemu tem o centro do palco pra si durante o solo. James, sempre bastante empolgado, puxa o “hey!” da galera nos breaks da música. Já em “Wake Up Dead”, Mustaine prova que não é só um riff master, dominando sua flying V também no solo, durante o qual a galera pula animada. Literalmente emendada por Dirk logo após o último compasso, vem “In My Darkest Hour”– tida por muitos como uma das músicas que os ajudaram a superar uma crise de depressão. Dave agradece novamente aos fãs pela participação e pelo coro de“Ole ole ole, Mustaine, Mustaine!”. Claramente incomodado pelo calor, o cantor abre vários botões de sua camisa branca, arrancando gritos de algumas fãs, e dá a dica de que a próxima também é do álbum “So Far, So Good… So What’! (1988), aqui estamos falando da crua “Hook in Mouth”, que divide um pouco o público, provavelmente sendo mais apreciada apenas pelos fãs ‘raiz’ e pelos viciados em solos velozes de guitarra.

Bastante comunicativo, Dave dá continuidade comentando que o recente álbum foi o primeiro a alcançar o topo do maior ranking geral norte-americano Billboard (o mais perto disso que a banda havia chegado foi a 2a. posição em 1992 com o “Countdown to Extinction”) e ressalta o quão importante e significativa é essa conquista para toda a comunidade da música pesada, pois indica que os Estados Unidos finalmente acordaram para o heavy metal, e quando isso acontece, o resto do mundo acompanha e entende quem é essa tribo. O compositor atribui esse resultado ao trabalho árduo contínuo e ao suporte dos melhores fãs do mundo, sendo obviamente ovacionado. Mostrando que mesmo após todos esses anos, a banda não perdeu sua essência, a enérgica “Let there be Shred”, como o nome indica, traz a fritação e a porradaria que a colocou no patamar de Big Four e faz o Unimed abrir várias rodas simultâneas. Ainda na temática de “músicas que alcançaram topo das paradas”, vem possivelmente a faixa mais conhecida da banda fora do nicho do thrash: “Symphony of Destruction”, e em seguida aquela “música sobre o clima”, como ele brinca, em referência a “Tornado of Souls”, na qual Teemu faz uma interpretação mais livre do solo eternizado por Marty Friedman.Ambas são cantadas em uníssono pela plateia, ao que Dave responde com um “Obrigado” (em português mesmo).

Preparando os espíritos dos fãs mais inteirados sobre o (polêmico) início da banda, vem a paulada “Mechanix”, na qual Mustaine não economiza em bends nem em caretas, e logo mais, chega o momento que durante muitos anos, todos acharam improvável, até mesmo impossível de ser testemunhado ao vivo: ‘Megadeth tocando Metallica’. Ver “Ride the Lightning” sendo executadana releitura de seu co-criador mais de 40 anos depois de seu lançamento foi tão indescritível para tantos ali, que muitos nem conseguiam “agitar”, só mesmo assistir, fazer “hey! hey! hey!” e cantar os refrões, que Mustaine propositalmente deixou a cargo dos fãs. Após alguns minutos de muitos aplausos e assovios, os primeiros a retomar seus postos são Dirk e James; em pé, o baterista usa apenas o pedal do bumbo pra incitar a galera a bater palmas, enquanto o baixista declara seu amor pelos fãs paulistanos e exclama “you are metal!” antes de puxar o inconfundível riff de “Peace Sells”. Ninguém fica parado, especialmente após a paradinha estratégica e o verso “Can you put a price on peace?”, quando vemos o próprio Mustaine pulando e batendo cabeça, e claramente se divertindo enquanto entram DOIS Vic Rattlehead para pentelhar os músicos durante os solos. Até Teemu olha com cara de quem não entendeu nada quando percebe a presença dos dois mascotes, um de cada lado do palco: essa foi a primeira vez na história em que isso aconteceu, fazendo esse show de fato único. Um Vic trajava o terno social preto clássico de homem de negócios, e o outro estreava a versão toda branca do outfit, em alusão à capa do recente disco.

Após incessantes aplausos e gritos, a banda se curva perante os fãs e Mustaine reitera sua gratidão, frisando que São Paulo realmente sabe fazer barulho. Para fechar em grande estilo, não haveria melhor escolha que “Holy Wars… The Punishment Due”, cujas letras infelizmente continuam atuais. A pista se transforma numa grande roda por alguns instantes, e novamente os fãs fazem coro uníssono. Teemu fica responsável pela bela passagem de violão “flamenco” e também alterna nos solos com Mustaine, que ao final de sua seção de shredding, levanta a flying V sobre a cabeça, joga a palheta gasta para algum sortudo da primeira fila e faz uma breve interrupção na música para apresentar os colegas. Sob palmas contínuas, os músicos terminam os versos restantes estendendo um pouco os compassos finais; com um “muito obrigado, Deus abençoe vocês, boa noite!”, Mustaine declara encerrado um dos melhores shows que já fez em solo brasileiro. Enquanto rola o VS de “Shadow of Deth”, os músicos se despedem dos fãs, jogam palhetas, munhequeiras e registram a clássica foto de recordação. Mas antes de retirar totalmente – o que fez dançando ao som de “My Way” na versão de Sid Vicious – o dono da porr@ toda deixa a dica: “voltem pra casa com cuidado, pois queremos vê-los novamente”. Então, quem não teve a oportunidade de fazer parte dessa vez, perdeu sim um grande espetáculo, mas no que depender dele, os brasileiros não ficarão órfãos do Megadeth tão cedo – esperamos que futuramente, mais cidades possam ser contempladas.
Fotos: Mercury Concerts
- Setlist
- Tipping Point
- The Conjuring
- Hangar 18
- She-Wolf
- Sweating Bullets
- I Don’t Care
- Dread and the Fugitive Mind
- Wake Up Dead
- In My Darkest Hour
- Hook in Mouth
- Let There Be Shred
- Symphony of Destruction
- Tornado of Souls
- Mechanix
- Ride the Lightning
- Peace Sells
- Holy Wars… The Punishment Due
