AC/DC entrega aula de rock n’ roll e espanta sombra da aposentadoria

O velho e bom rock n’ roll está vivo e passa muito bem! Talvez um pouco cansado pelas suas tantas e tantas páginas que já foram escritas, mas ainda na ativa. E isso se traduz em medalhões que seguem mantendo vivo aquele espírito antigo e mostrando que a veia ainda pulsa com sangue explodindo nelas. Foi isso que cerca de 70 mil pessoas puderam presenciar nesta última terça-feira, onde o AC\DC fez o primeiro de três shows no MorumBis, em São Paulo, marcando o retorno da banda ao Brasil em 16 anos.

Com a turnê Power Up, uma das maiores lendas do rock mostrou á um público mesclado entre mais velhos e nova geração o que é tocar guitarra, o que é dominar uma distorção, o que é tocar pesado, e isso durante bons minutos que muitos novinhos por aí não dão conta e não chegam nem perto do que foi apresentado ali nesta noite.

Ao adentrar o estádio, um mar de luzes vermelhas piscando vindas de vários chifrinhos na cabeça dos presentes já causava um impacto visual muito interessante, se misturando ao vermelho das cadeiras e criando um campo bem climático. Pontualmente às 19:30, o The Pretty Reckless subiu ao palco com “Death by Rock and Roll“, mostrando a potente voz rasgada da vocalista Taylor Momsen, acompanhada de Ben Phillips na guitarra, o baixista Mark Damon e o baterista Jamie Perkins (bateria).

Além de sucessos como “Only Love Can Save Me Now“, que sempre estão nas turnês da banda, houve uma estreia ao vivo, a faixa “For I Am Death“, uma semibalada que parece ter caído bem aos presentes. Dito isto, há de se falar que para uma banda relativamente nova, o Pretty Reckless teve uma boa aceitação mesmo com o público mais velho que estava presente. A banda passei por diversos ritmos e passa do metal contemporâneo ao hardrock e o blues, como na “Heaven Knows“.

Ao final, o The Pretty Reckless sai do palco com sensação de dever cumprido, e que dever, estar abrindo para um dos maiores mastodontes do rock n’ roll mundial e de eras, e isso, eles tem feito bem e fizeram um bom aquecimento.

Palco preparado, luzes se apagam e lá vem eles pontualmente às 21 horas. Uma animação surge nos telões e as pessoas sabem o que vem aí! O mar de celulares, típico dos shows atuais vem em ondas e junto, “If You Want Blood (You’ve Got It)” surge com seus primeiros riffs e ali está o AC/DC, após mais de uma década de espera de seus fãs. Na sequência, dale clássico! “Back In Black” surge arrancando uma ovação monstruosa do público e pulos que fizeram o chão tremer.

Por falar em tremer, o som, muito bem equalizado e alto, fazia a bateria de Matt Laug ser “sentida no peito”, pelo menos no setor A do campo. Dito isto, segue o jogo com “Demon Fire” fechando a trinca de abertura, com um Brian Johnson vigoroso e com sua voz em sintonia, esbanjando carisma e sendo a primeira da noite do último disco lançado, “Power Up“.

Em uma roupa verde e uma boina nas cores do Brasil, Angus dá as primeiras notas de “Shot Down in Flames” e pela primeira vez na noite, ele dá seus tradicionais “pulinhos”, que já são o bastante para arrancar mais ovações do público e mostrando que o homem ainda está, muito vivo! O que vem em seguida é pra fazer qualquer fã de rock e ainda mais os da banda gritarem até a garganta ficar rouca, e é exatamente isso que acontece! As primeiras notas de “Thunderstruck” acompanhados do “ra-ah-aha-ha-ha” que é cantado por todos presentes é uma ode ao rock n’ roll e um dos momentos mais eufóricos da noite.

Have a Drink on Me” dá um respiro na galera, que canta o refrão, mas de forma mais contida, mas esse alívio é só momentâneo. Fogo surge na parte de trás do palco, e era chegada a hora de um dos momentos mais aguardados da noite. “Highway to Hell“, um dos maiores clássicos que o AC/DC já lançou em sua carreira, coloca o público em histeria coletiva e o fogo acompanhou cada andamento da faixa. Momento marcante e estrondoso de uma noite grandiosa.

E sem tempo de respirar, o grande sino desce do alto do palco, suas notas ecoam pelo Morumbis, e é a hora de “Hell Bells“, e mais uma vez, um público em polvorosa canta a faixa de ponta a ponta. Brian estampa um largo sorriso no rosto com a reação dos presentes e se mostra feliz ao extremo por estar vivendo esse momento ao se reencontrar com um público que os ama tanto.

Stevie Young, Chris Chaney e Matt Laug que fecha os integrantes do AC/DC, acabaram por não aparecer muito no palco, principalmente Laug que ficou em meio ao breu do fundo do palco, ofuscando a presença marcante do baterista, sendo possível o acompanhar somente pelos telões.

Shoot to Thrill“, “Sin City” e “Jailbreak” são a próxima trinca! Na segunda, Angus tira a gravata do pescoço e a coloca “para trabalhar”, fazendo um solo maluco e inventivo com o adereço, que leva o público a loucura. Aida houve tempo para “High Voltage” e “You Shook Me All Night Long”, essa última obviamente não poderia ficar de fora com seu refrão tão potente. A essa altura, até sinalizadores já tinham aparecido no show, de forma timída se comparada a outros, mas eles estiveram por lá.

A seguir, “Whole Lotta Rosie” e “Let There Be Rock“. Ao final desta última, um momento apoteótico de puro rock n’ roll foi vivido por todos os presentes no MorumBis.

Há algum tempo, circulam vídeos na internet de momentos em que Angus Young parece cansado no palco e de alguma forma, longe de olhares “atrativos” para muitos detratores “em telas”, daqueles que ficam rodando feeds em busca do que falar mal e pedindo por aposentadoria de artistas que obviamente não estão em seu auge, mas ainda assim sobem em um palco para encarar uma plateia de 70 mil pessoas em um país muito distante do seu próprio e mostrar porque é uma lenda de tantos e tantos e tantos anos.

Ao final da música, as luzes recaem sobre Angus e pelos próximos 30 minutos o palco é somente dele. Dele e de sua guitarra, onde ele faz todo tipo de peripécia com o instrumento dentro dos seus conhecimentos, brinca com acordes, riffs conhecidos. E quando você acha que vai acabar, ele se direciona à uma plataforma no centro do palco, que é elevada, em certo momento, ele deita na mesma e faz um giro em 360º sem parar um segundo de tocar, em meio a papel picado e o extâse toma conta daquele estádio, mostrando o que aquele raio no meio do logo da banda significa, o que é o rock n’ roll em sua essência e porque lendas são lendas!

Após todo esse tempo, pensamos em um intervalo de pelo menos dez minutos para o homem retomar o seu fôlego, mas que nada, em menos de 3 as luzes se acendem novamente e eis que lá estão eles novamente para o encore. “T.N.T” explode o MorumBis mais uma vez e o encerramento fica por conta de “For Those About to Rock (We Salute You)“, com canhões explodindo no palco e Brian com uma bandeira do Corinthias nas mãos sendo usada como toalha.

Assim se encerrava o primeiro de três shows que o AC/DC faz no Brasil. A longa espera valeu a pena e os fãs da banda, do rock, vivenciaram uma noite de emoção, experiência e muito barulho. Aula de rock n’ roll entregue com sucesso e um belo chute na bunda da aposentadoria e na boca dos que arrotam ladainhas atrás de uma tela de celular prostrados no sofá sem nunca ter ido a algum show e presenciado algo dessa magnitude.

Fotos The Pretty Reckless: Camila Cara/Live Nation Brasil
Fotos AC/DC: MRossi/Live Nation Brasil

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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