Living Colour enfileira sucessos e covers para público alegre em celebração aos 40 anos de banda no Tokio Marine Hall
Evento, que contou com abertura do Madzilla LV, focou em sucessos dos três primeiros álbuns da banda de Nova Iorque, além de covers e homenagens impactantes em duas horas de show
Fotos: André Tedim
Poucas bandas chegam a 40 anos de carreira ou mais com um forte repertório, legado nos gêneros musicais abordados, qualidade musical positivamente semelhante aos primórdios, uma base de fãs fiel e admiradora e apresentações ainda memoráveis de alto poderio. Estas são características que podem ser facilmente vinculadas e que foram indiscutivelmente provadas pelos nova-iorquinos do Living colour, banda de Funk Metal e Heavy Metal que lotou o Tokio Marine Hall, na Zona Sul de São Paulo, no último dia 27 de fevereiro, em evento que fez parte da turnê “The Best of 40 Years”, sendo a capital paulista a segunda das quatro datas previstas em solo brasileiro. A abertura da noite foi da banda Madzilla LV, enquanto a organização do evento foi da TopLink Music.
Esta foi a oitava passagem da banda em solo brasileiro desde 1992, quando debutou no Hollywood Rock daquele ano. E da mesma forma que naquela época, a qualidade sonora da banda por um todo foi o maior destaque dentro das 21 faixas tocadas da noite, com duas horas de show e a maior parte das faixas abordando os três primeiros discos do quarteto – “Vivid” (1988), “Time’s Up” (1990) e “Stain” (1993). O público fez sua parte e cantou os principais sucessos da banda, além de admirar cada movimento e execução vocal ou instrumental de cada membro da banda.
Além disso, houve também a presença de covers de músicas de grupos de Hip Hop que contaram com a participação do baixista Doug Wimbish nos anos de gravação, um para “Hallelujah”, de Leonard Cohen, como homenagem para Marielle Franco, além de execuções das habituais versões para músicas de Talking Heads, Dawn Penn e Junior Murvin. Houve, também, um momento para solo do baterista Will Calhoun.
Confira abaixo como foi cada apresentação:
MadZilla LV aquece noite com consistência musical e carisma de sobra
Nove meses se passaram desde a última vinda do MadZilla ao Brasil, quando abriram para Tarja Turunen no mesmo Tokio Marine Hall. Desta vez, a banda liderada pelo vocalista e guitarrista equatoriano David Cabezas, que vive em Las Vegas, retornou com uma nova formação, contando com Courtney Lourenço (bateria), Sarah Dugdale (guitarra) e Thomas Palmer (baixo).

Mesmo com um setlist de cinco faixas, abordando os recentes álbuns “Angel Genocide” (2025) e “A Deadly Threat” (2024) e o EP “Vengeance” (2019), a banda conseguiu mostrar o potencial dos membros mais recentes e dos remanescentes em sua sonoridade, pautada no Melodic Thrash Metal com nuances do Heavy Metal, para um público que chegou mais cedo e para aqueles que, aos poucos, chegaram nos setores disponíveis no local.

Junto a isso, o carisma concentrado em David Cabezas, que além das expressões alegres, discursou para o público por diversas vezes na língua portuguesa durante toda a apresentação, demonstrando respeito ao país e afirmando que o público de Rock do Brasil “é a melhor gente do mundo” e até mesmo se propondo a tomar um corote ao final do show, após a citação da bebida por um fã, enquanto o vocalista falava de outras da cultura brasileira. Ele, junto a Sarah, dominaram e executaram muito bem os riffs e solos, alternados ou não, durante todo o show.


Já Courtney mostrou domínio total do repertório, somando linhas, viradas e pedais duplos em diversos ritmos ao longo da apresentação, tocando com uma plenitude louvável para o posto. Da mesma forma, Thomas se mostrou enérgico ao longo da apresentação, tentando interagir com o público na região de seu posto no palco e ajudando a ditar o ritmo das faixas.
Num geral, foi um show que ajudou o MadZilla a atingir um novo público em solo brasileiro. Os que presenciaram a apresentação tiveram recepção positiva desde o início e admiraram a proposta da banda, além de completar bem as interações em geral. Foi um grande passo para o crescimento do grupo que, desde 2018 (ainda como Madzilla), cresce aos poucos dentro do cenário do Metal.
Living Colour faz celebração impecável para público engajado
Foi uma questão de tempo para que as pistas do Tokio Marine Hall ficassem absolutamente cheias, num movimento que cresceu conforme o tempo para o início do show encurtava e o público chegava ao local. A calmaria do início do evento seguiu, porém com o acréscimo da “ansiedade tímida” no tempo da última passagem do som da equipe do Living Colour.

O show começou às 22h03, após os avisos do último sinal, comuns em todos os eventos do Tokio Marine Hall. O apagar das luzes veio com a introdução ao som de “The Imperial March”, um instrumental gravado por John Williams que puxou a entrada do quarteto: Corey Glover (vocal), Will Calhoun (bateria), Doug Wimbish (baixo) e Vernon Reid (guitarra) vieram juntos, gerando a euforia de todos os presentes no local e dando início à celebração quarentenária do grupo a partir do “boa noite” de Corey.
O setlist foi composto por 21 músicas que, além de covers (um deles, um medley), focou nos três primeiros e mais destacados álbuns de estúdio do repertório do Living Colour: “Vivid” (1988), “Time’s Up” (1990) e “Stain” (1993). “Leave It Alone”, do último citado, iniciou de vez o show com todo o groove e peso sonoro, somados ao impacto vocal impecável de Corey, típicos na identidade sonora da banda. Os slaps de Doug, o riff e o solo técnicos de Vernon e as batidas poderosas de Will trouxeram, logo de cara, o cartão de visitas da noite mágica.


Se o público já havia cantado relativamente a faixa anterior, a situação melhorou com “Middle Man”, sua letra sobre autenticidade e equilíbrio pessoal amplamente cantada e acompanhada da condução absurda da banda por um todo. O clima se manteve com “Memories Can’t Wait”, cover do Talking Heads presente no álbum “Vivid”, que puxou a sonoridade ainda mais para o Funk Metal típico do Living Colour e com mais linhas poderosas dos instrumentistas, “vívidas” como o nome do álbum propõe e que só ficam mais lentas na parte final da faixa.
A partir de “Ignorance Is Bliss”, era possível ver Doug e Vernon mais soltos no palco, assim como Corey interagiu mais com seus parceiros de banda, cedendo o microfone para que o baixista desse um rápido grito em certo momento da música que, em geral, foi de um ritmo constante para momentos mais intensos, cujo instrumental geral era tão perfeito quanto o vocal e que contou com outro solo absurdo da parte de Vernon Reid. “Go Away”, iniciado dentro das batidas do cowbell de Will, trouxe um ritmo mais pautado para um predomínio Heavy Metal com riff grave, porém transitado aos momentos Funk liderados pelas linhas de baixo e pelos solos de guitarra.

“Funny Vibe”, assim como na faixa de estúdio, começou com um Heavy Metal mais clássico e rápido, logo se convertendo para um Funk Metal em pura essência que deu liberdade para os slaps de baixo, solos de guitarra e viradas de bateria poderosos ao longo da faixa, mas sem deixar que a letra, um protesto contra os estereótipos raciais aos negros no contexto dos Estados Unidos dos anos 80 (presentes, infelizmente, até hoje na sociedade), fosse deixada de lado dentro do conjunto da faixa. O público, impressionado com a performance da banda, não deixou de interagir e gritou o nome da faixa em cada momento que Corey Glover apontou o microfone para tais momentos.
O impacto positivo e a recepção da galera fizeram com que Glover descesse para a grade para introduzir “Bi” com uma dinâmica com a palavra “Everybody”, em que o vocalista falava e o público repetia na sequência. Isso se repetiu por algumas vezes antes do início da música, de modo que Corey conseguisse ir no lado direito, no meio e no lado esquerdo do pit de fotógrafos. A música, uma abordagem sobre a bissexualidade, contou com ótimas linhas de baixo e os trechos de distorção no refrão, além de outro ótimo solo de Vernon.

O cover de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, teve um adicional especial na noite. Vernon Reid, em seu primeiro discurso, antes da música em questão, relembrou e dedicou a faixa à ex-vereadora, socióloga e ativista Marielle Franco (1979-2018), assassinada há mais de sete anos no Rio de Janeiro, cujo caso teve desfecho dois dias antes do show, com a condenação definitiva dos mandantes e outros envolvidos na obstrução em meio às investigações do caos. Corey Glover fez questão de dar o seu melhor no canto, executando falsetes e outras técnicas que levaram o público à aclamação máxima no final da música.
O potencial vocal de Corey seguiu impecável com a continuidade do show, que se deu com a letra crítica de “Open Letter (to a Landlord)”, cujo refrão foi amplamente acompanhado pelo público em todas as vezes que foi cantado na faixa com ou sem o instrumental. A parte final da faixa, com mais cantos absurdos de Glover, foi o ponto que levou os fãs aos gritos e aplausos ao final, além de uma saudação de Vernon ao vocalista.

A primeira metade do show, então, passou com o solo de bateria de Will Calhoun que, sem demonstrar cansaço em momento algum, fez uma progressão do ritmo ao longo de seu momento de destaque, começando com variações leves e, aos poucos, dentro dos dois minutos iniciais, aumentou o poderio de suas batidas e viradas nas caixas e pratos de seu kit. A segunda parte do solo se deu com o acompanhamento de “Baianá”, dos Barbatuques, enquanto Will criou um ritmo de bateria mais intenso, porém bem ritmado, por cima. O curioso foi ver, no fundo do palco, o acompanhamento e admiração de Corey Glover, atento a cada movimento do baterista.
“This Is The Life” foi outro clássico cantado a partir do retorno dos demais integrantes do Living Colour, após o solo de bateria, contando com uma introdução suave semelhante à versão de estúdio e, logo em seguida, o ritmo leve e a letra reflexiva sobre as decisões da vida predominaram com acompanhamento do público. Vernon Reid voltou a mostrar suas habilidades com outro solo arrebatador no meio da faixa. Em seguida, após outro discurso do guitarrista elogiando o Brasil, veio “Pride”, outra faixa aclamada e cantada a plenos pulmões do início ao fim, completamente envolvidos no ritmo da banda.

Doug Wimbish também teve seu momento de discurso e de destaque musical na noite. Foi o momento para que o baixista liderasse um medley em homenagem aos grupos de Hip Hop no qual teve participações com seu baixo em determinadas músicas. As três tocadas foram “White Lines (Don’t Don’t Do It)”, da parceria de Grandmaster Flash e Melle Mel, “Apache”, versão do Sugarhill Gang para o instrumental da música criada por Jerry Lordan e Bert Weedon, e “The Message”, do lendário grupo Grandmaster Flash and the Furious Five. A sequência foi um deleite aos fãs dos grupos em questão, ou propriamente do Hip Hop, dando para perceber os cantos daqueles que conheciam as letras das músicas em questão.
Logo em seguida, o Medley se converteu em uma pequena introdução em Jazz que logo passou para a execução de “Glamour Boys”, cujos primeiros acordes foram suficientes para transformar a pista do Tokio Marine Hall, de uma vez, em uma pista de dança para parte da galera, que não deixou de cantar outro clássico da banda. Se o potencial vocal do público foi alto nesta, a situação foi ainda mais destacada com “Love Rears Its Ugly Head”, em ritmo mais lento e com muito feeling no instrumental que misturou Funk Rock e Blue Rock, somado com outra demonstração vocal absurda da parte de Corey, que foi bem acompanhada pelos solos absurdos de Vernon.

“Type” retomou um ritmo mais agitado no palco, destacado por batidas mais intensas da caixa de Calhoun, acompanhadas pelas palmas do público na mesma intensidade. Houve, então, uma transição ao final da faixa para a alternância entre Reggae suave e Punk Rock poderoso de “Police and Thieves”, cover de Junior Murvin. Com o final dela, veio a reta final do show.
Os principais sucessos do Living Colour foram guardados como um gran finale esperado. Primeiro veio a agitada “Time’s Up”, iniciada com o tic-tac de um relógio, seguida das linhas poderosas de baixo, uma alternância rítmica de Punk e Funk, solos distorcidos e um vocal impecável do início ao fim. Todavia, foi com a clássica “Cult of Personality” que fãs do Living Colour que o público entraram em sua euforia máxima ao acompanhar todos os versos da letra da faixa a plenos pulmões, além de pular conforme Corey Glover pedia e admirar outro solo épico de Vernon Reid na noite.

O fim do show se deu com a leve e resiliente música “Solace of You”, tão comemorada e cantada como a anterior e que ecoou até mesmo fora do Tokio Marine Hall, ouvida pelo lado de fora enquanto corria para não perder os minutos finais de funcionamento da estação de trem com a certeza de o público presente amou cada momento possível deste show de celebração, a ver o clima alegre em cada rosto pelo qual observei ao sair da pista premium.
A apresentação no Tokio Marine Hall foi mais uma para entrar no rol dos melhores shows do Living Colour no Brasil desde 1992, ano de sua primeira passagem no país. Isso valeu pela sinergia com os fãs, as demonstrações de carinho e de conhecimento da cultura e história locais e, claro, por uma competência e qualidade impecáveis na parte instrumental e sonora da banda e do local, de modo a imergir ainda mais no recorte de sucessos dos primeiros álbuns da banda. E por tanto amarem o Brasil, a expectativa por um retorno da banda se torna um fator com máxima certeza. E que ótimo será quando eles voltarem!



Confira os setlists da noite abaixo:
MadZilla LV:
- A Deadly Threat
- Vengeance
- Forevermore
- Warfare Within
- Destiny’s Eyes
Living Colour:
Intro: The Imperial March (música de John Williams)
- Leave It Alone
- Middle Man
- Memories Can’t Wait
- Ignorance Is Bliss
- Go Away
- Funny Vibe
- Bi
- Hallelujah (cover de Leonard Cohen)
- Open Letter (to a Landlord)
- Solo de Bateria + Baianá (Snippet de música do grupo Barbatuques)
- This Is The Life
- Pride
- White Lines (Don’t Don’t Do It) / Apache / The Message (Medley com covers de Grandmaster Flash and Melle Mel, The Sugarhill Gang e Grandmaster Flash and the Furious Five)
- You Don’t Love Me (No, No, No) (cover de Dawn Penn)
- Glamour Boys
- Love Rears Its Ugly Head
- Type
- Police and Thieves (cover de Junior Murvin)
- Time’s Up
- Cult of Personality
- Solace of You
