Mr. Bungle faz “segunda-feira insana” no Cine Jóia com repertório recente, covers e surpresas de Mike Patton
Texto: Tiago Silva
Fotos: 30e/Ian Rassari
A segunda-feira costuma ser um dia odiado por muitos, por conta da retomada da rotina de trabalho, estudos e outras atividades obrigatórias, após os dias de descanso no final de semana. Um ponto que, no entanto, não é tão explorado, é a forma como se encerra um dia assim. Ao menos na última segunda-feira (26), no Cine Jóia, casa de shows localizada no Centro de São Paulo, o público que lotou o local soube encerrar seu dia presenciando uma experiência positivamente insana apresentada no palco, seja pela abertura, seja pelas lendas que tocaram no show principal.
Isso ocorreu porque o Mr. Bungle, um dos diversos projetos musicais de Mike Patton e que também conta com Trey Spruance, Trevor Dunn, Dave Lombardo (ex-Slayer e Testament) e Scott Ian (Anthrax), se apresentou com um sideshow em meio à turnê sul-americana que faz como uma das aberturas para o Avenged Sevenfold, inclusive com shows na Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba, no dia 28, e no Allianz Parque, no próximo dia 31 de janeiro. Este foi o início da segunda passagem do Bungle em solo brasileiro, pouco mais de três anos após a primeira passagem na primeira edição do Knotfest Brasil. Para o show no Cine Jóia, a abertura ficou com o TEST, dupla paulistana de Grindcore Experimental, Death Metal e Crust Punk.
Para Mike Patton, especificamente, poderia ser quase que como mais um dia normal no Brasil, uma vez que, além de ter vindo com outros projetos musicais em diversas oportunidades, o vocalista também tem forte ligação com o país por conta das amizades com diversos artistas daqui, tanto do Rock e Heavy Metal, como da Música Popular Brasileira. No entanto, ele conseguiu encabeçar uma noite altamente divertida para o público com a presença de palco e diversos elementos que acompanharam o poderio musical de seus colegas: discursos na língua portuguesa, interações com o público e com os demais membros do Bungle, variações vocais com base nas faixas, uso pontual de sintetizadores, cantar com um microfone semelhante aos de carros de polícia e, simplesmente, acrescentar palavrões em português em covers como os de “Refuse/Resist”, do Sepultura, e em todo o refrão de “All by Myself”, de Eric Carmen.
Junto a isso, foi mais uma oportunidade de o público ver o poderio técnico de Trey Spruance e Trevor Dunn, membros que estão na banda desde sua fundação, assim como o de Dave Lombardo e Scott Ian, que entraram no retorno da banda, em 2019, e ajudaram a moldar uma nova sonoridade com elementos de Thrash Metal, Crossover Thrash e Hardcore Punk para o quinto e mais recente álbum do Mr. Bungle, “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo” (2020), cujas faixas foram a maioria no setlist.
Outros fatores em destaque vieram da pista: o público, que lotou desde a abertura visceral do Test e aplaudiu a apresentação da dupla brasileira, também interagiu e muito ao longo da apresentação do Mr. Bungle, seja pelos moshs de pouco espaço na parte frontal da pista, seja pelos coros em determinadas faixas da banda californiana e principalmente pelos balanços de dedos do meio na última faixa, a pedido de Mike Patton.
TEST SE ENCARREGA DO ESQUENTA DA NOITE
João Kombi (guitarra e vocal) e Thiago Barata (bateria) abriram a noite com a experiência insana de seu projeto, uma aposta que tudo indicou ser uma escolha dos próprios membros do Mr. Bungle. Escolha essa que foi muito acertada, pensando no histórico experimental que o projeto de Mike Patton teve nos anos 90, com o duo paulistano apresentando uma sonoridade mais pesada que o Bungle, com Grindcore, Death Metal, Crust Punk e afins.


Kombi e Barata tocaram por pouco mais de 40 minutos, a partir das 19h47, tocando principalmente as faixas do mais recente projeto do duo, o álbum “Sem Esperanças”, em parceria com outra dupla, o Deaf Kids.
A banda oscilava, propositalmente, entre momentos mais próximos a uma música ambiente, seja pelas leves batidas de Barata, seja, com acordes leves de João e outros elementos gravados; e os ritmos mais viscerais possíveis, com riffs, palhetadas e guturais insanamente rápidos e, principalmente, ritmos, viradas e blast beats tão poderosos quanto e que fariam muitos bateristas renomados do Death Metal e Grindcore ficarem de queixo caído. A iluminação, vinda do chão do palco para e focada nos integrantes, foi um fator que, desde o início criou um ambiente obscuro e, quando preciso, frenético, para acompanhar o ritmo da banda.


Por diversos momentos de transição de faixa ou pausas propositais do duo, o público incentivou e ovacionou muito a dupla paulistana. Quem já os conhecia pôde apreciar um grande ato e um grande feito da banda, em abrir para o Mr. Bungle. Ao mesmo tempo, muitos dos que não os conheciam e tiveram o primeiro contato ao vivo – me encaixo nesse grupo – foram extremamente impactados com o que viram e, com certeza, foram atrás de mais do que a dupla já produziu em quase 16 anos de existência.
Mr. Bungle prova que a estranheza tem beleza
O Cine Jóia estava relativamente cheio no final do show de abertura e, ao longo do período de ajustes finais para o show principal, lotou de vez e fez jus ao sold out anunciado previamente pela organização.
Os preparos até levaram a um pequeno atraso de 13 minutos, fator que gerou pequenos murmurinhos pela pista, todavia necessário para garantir o funcionamento de tudo no palco – algo que realmente foi garantido, como se percebeu ao longo do show.

Certo é que, às 21h13, Mike Patton (vocal e sintetizadores), Trey Spruance (guitarra), Trevor Dunn (baixo e backing vocal), Scott Ian (guitarra e backing vocal) e Dave Lombardo (bateria) subiram as escadas em meio à introdução de “Also sprach Zarathustra, op. 30”, na versão da orquestra inglesa Portsmouth Sinfonia. Como era de se esperar, o início do show não foi a todo vapor: Lombardo pegou um bongô. Ele e os demais membros, sentados ou não, tocaram o Bolero “Tuyo”, faixa de Rodrigo Amarante (Los Hermanos) que foi a introdução da série da Netflix “Narcos”. Mike Patton cantou em Espanhol e sacramentou o primeiro “ato calmo” do show.
Terminada a faixa inicial, os integrantes do Mr. Bungle se posicionaram e iniciaram o ato mais insano que uma segunda-feira poderia pedir, com um setlist encabeçado pelas faixas do último álbum lançado pela banda, “The Raging Wrath of the Easter Bunny Demo” (2020), que mudou a sonoridade experimental mais “leve” do Mr. Bungle para uma miscelânea de Thrash Metal, Crossover Thrash, Death Metal e Hardcore Punk. Houve, além disso, mais sete covers e duas faixas do repertório dos anos 1990.

“Grizzly Adams”, veio como a segunda faixa, onde Patton aproveitou do início mais ambientado e antes da entrada das guitarras introdutoras para executar perfeitamente o khoomei ou canto difônico, uma técnica de voz originária da Mongólia. A explosão de público e banda veio em seguida, com “Anarchy Up Your Anus” e um riff bem cadenciado por Trey Spruance e Scott Ian, em meio às narrações gravadas da atriz Rhea Perlman, distorcidas pelo kit de Mike, e os pulos de alguns fãs mais eufóricos. No entanto, tudo veio a ficar mais insano quando o ritmo se acelerou a partir de outro riff poderoso e, dessa forma, boa parte da galera presente na parte frontal da pista achou espaços onde não tinha para dar início aos moshes naquela região e que eram reabertos em diversas faixas.
Mike Patton já se mostrou solto no palco ao pular, fazer poses diversas e interagir com seus amigos e colegas de banda, algo que prosseguiu em “Bungle Grind” em todos os ritmos propostos pela banda na faixa em questão, bem executados por todos. O frontman, inclusive, fez jus novamente ao apelido de “Senhor das Mil Vozes” com as variações vocais que apresentou, seja pelos guturais pontuais, seja por cantar de forma mais estridente ou leve, conforme necessário. Trey Spruance, inclusive, soltou o primeiro de seus solos nesta música, mostrando muita técnica e velocidade.

O ritmo ficou mais leve com a chegada de “I’m Not In Love”, cover da banda britânica de Art Rock 10cc, onde Mike novamente mostrou seus dons líricos e até brincou ao cochichar os versos “Big Boys don’t Cry”. “Eracist” retomou o clima agitado do público, agora em uma sonoridade mais Hardcore Punk, somados aos coros no refrão, repetindo o nome da música. Patton, extrovertido e atencioso ao mesmo tempo, por muitas vezes observou seus colegas de banda tocando e até mesmo admirou outro grande solo de Trey.
“Spreading The Thighs of Death” veio com uma aula de riff no modelo Crossover Thrash que, na sequência, se converteu para algo mais acelerado. A técnica da banda por um todo foi novamente um destaque, seja com a condução das guitarras de Spruance e Scott Ian, seja pelo groove de Trevor e, junto a isso, o ritmo constante e poderoso de Dave Lombardo, principalmente com as pequenas viradas em meio aos solos de Trey. Mike cantou de forma enérgica, voltou a brincar no palco com interações e caminhadas circulares e, no mais inusitado, chegou a dar uma risada maléfica no meio da faixa. Ficou com Lombardo a responsabilidade de puxar o encerramento da faixa com um pedal duplo poderoso.


“Retrovertigo”, do álbum “California” (1999) foi tocada logo em seguida, mesmo que somente até pouco depois do primeiro refrão. Ainda assim, foi o suficiente para que os fãs de longa data do Mr. Bungle pudessem cantar a faixa a plenos pulmões, principalmente no refrão. A banda logo puxou um cover rápido de “State Oppression”, dos italianos do Raw Power, com direito a mais um coro forte da plateia no refrão que também leva o nome da faixa.
Mike Patton fez a primeira saudação ao público ao falar, em português, um “oi, tudo bem?”. Foi o suporte necessário para um breve ajuste dos roadies que permitiu o som prosseguir com o combo “Hypocrites / Habla Español o muere”, com partes insanas de Thrash Metal e Crossover Thrash e até mesmo um trecho da canção folclórica mexicana “La Cucaracha”. Junto a isso, ao invés do “Español” típico da música, Mike, assim como fez no Knotfest de 2022, converteu para “Speak Portuguese or Die” e, numa última vez antes do encerramento da faixa, um sonoro “Fala português ou morra, p0#$a!”, que até mesmo levou o público a repetir os termos “P0#$a, c@r4%#o”, algo que ele, de brincadeira, se recusou a fazer no momento e que, todavia, executou no fim do show.

“Glutton for Punishment” foi, muito provavelmente, um dos momentos mais técnicos de toda a banda, em todos os momentos da faixa, no show. Vocal poderoso e trechos de Mike usando um microfone push to talk parecido com os de carros de polícia dos EUA, riffs dedicados – algo que se via nas expressões de Trey e Scott -, pedal duplo rufando em diversos momentos da faixa e solos absurdos de Spruance. A insanidade também era vista na pista, com a continuidade dos moshes na parte da frente e muitas cabeças bangueando ao longo da pista. O clima ficou ainda mais intenso (positivamente) com “USA”, cover da banda The Exploited e surpresa do setlist, com muitos gritos no refrão repetido “F*ck the USA”.
A faixa seguinte foi “Raping Your Mind”, comemorada a partir do riff introdutório e que deu um gás na roda frontal de fãs. Nela, além de mais solos de guitarra rápidos, técnicos e com algumas linhas distorcidas de Trey Spruance, Mike foi além do que já fazia no palco: o vocalista chegou a usar os dois microfones em alguns gritos, tocou um apito duas vezes e, no final, aproximou a captação em um despertador de cabeceira. O clima se acalmou com mais um cover suave da banda, dessa vez com “Hopelessly Devoted to You”, de John Farrar.

Patton abriu um discurso mais longo, justificando um descanso para Dave Lombardo em tom de brincadeira. Nele, o frontman do Mr. Bungle fez questão de agradecer o duo Test, com direito a expressões de admiração, e ao público, citando anteriormente os macumbeiros ou devotos de Umbanda, que Mike tem carinho e cujo aparato estético já foi usado, como homenagem à religião e como crítica aos fãs tradicionais de Rock, em shows do Faith No More, como no SWU de 2011. Scott Ian também falou ao microfone, a pedido de Mike, perguntando ao público se gostavam de Sepultura e afirmando que também gosta, além de gerar um coro do público com o nome da banda brasileira.
O cover esperado, no entanto, ficou para a reta final. O que veio após os discursos foi a única faixa do primeiro álbum do Mr. Bungle no show, “My Ass on Fire”, cujo início experimental foi suficiente para gerar uma euforia dos fãs mais consolidados da banda e das músicas deste álbum em questão. O que não se esperava era que a banda voltaria a emendar um cover de “Funkytown”, do grupo Lipps Inc, no meio da faixa, algo que levou o público a se divertir com a faixa e com a variação vocal de Mike, que ora fazia vozes mais graves no push to talk, ora as mais agudas no microfone convencional.

Ao final do momento divertido, Mike percebeu um coro misto entre “Bungle”, em alusão à sua banda, e “Sevenfold”, vindo de uma parcela do público que percebeu ou soube da presença dos membros do Avenged Sevenfold no mezanino do Cine Jóia. Patton logo interveio nos coros, pedindo silêncio, para fazer uma brincadeira: “Vocês estão no show errado, c@$@|#0! Os Avenged Sevenfold estão tocando em outro lugar!”. Nisso, há vaias do público, porém também em tom brincalhão, como quisessem mostrar que queriam estar no show do Mr. Bungle. Mike, para encerrar a situação, interveio com um “Não façam isso! Eles são nossos amigos” e os fãs voltaram a rir. A situação, apesar de parecer uma vaia ofensiva para a banda que fará shows em Curitiba e São Paulo na turnê “Life Is But a Dream”, não passou de uma brincadeira generalizada (ou ao menos da maioria que assim fez). E o frontman do Bungle entendeu bem a situação.
O show seguiu com “Sudden Death”, última faixa da noite a representar o álbum de 2020. A faixa começou com um longo trecho de riff, acompanhado pelas linhas de bateria de Lombardo que contaram com pedais duplos muito rápidos. A transição de ritmo trouxe novamente um Crossover Thrash absurdo que mostrou o melhor de cada integrante novamente.

A reta final do show chegou com o que foi o momento mais agitado da noite: o cover de Sepultura. O esperado, por conta dos shows passados na América Latina, era “Territory”. No entanto, a banda trouxe “Refuse/Resist” e desencadeou, além do coro da letra ao longo de toda a faixa uma euforia que se destacou, novamente, na parte da frente da pista, com um mosh que, por conta do ânimo acentuado do público, não conseguiu se desenvolver nem como um bate-cabeça, nem com pulos, gerando um empurra-empurra caótico que, ainda assim, não pareceu atrapalhar quem estava ali e em volta. Da mesma forma, era possível ver pessoas animadas em outras regiões da pista, balançando os cabelos ou simplesmente cantando junto com Mike e admirando a execução da faixa por Dave, Scott, Trevor e Trey.
Os agradecimentos de Mike, na língua portuguesa, vieram com o anúncio de que a música seguinte seria a última. E foi justamente um cover de “All By Myself”, de Eric Carmen, cuja versão original foi curiosamente tocada na playlist pré-show e cantada pelo público. Só que, com o Mr. Bungle, especificamente vindo de Mike Patton, a situação foi divertidamente diferente.
Tudo ia conforme normalmente na letra, conforme o público esperava. Quando chegou no refrão, Mike Patton esperou a virada de bateria de Lombardo para, simplesmente erguer o dedo do meio, balançar e transformar os versos “All by myself / Don’t wanna be / All by my myself / Anymore” em “Tomar no c* / Vai a tomar / Tomar no c* / Se f*deu!”. A situação levou o público a rir muito, sem saber se cantava do mesmo jeito ou se seguia a letra original. No entanto, o vocalista fez questão de organizar a situação para o segundo refrão, pedindo para que todos levantassem o dedo do meio o mais alto possível para balançar no ritmo da faixa.
E assim foi feito: um coro um pouco mais tímido, porém com um mar de dedos do meio acompanhando Patton para encerrar, da forma mais divertida possível, um show que transformou positivamente a segunda-feira de todos os presentes no Cine Jóia que, ao saírem ao som de “Learn English”, do Humanoids, tocando nas caixas de som, muito provavelmente já esperavam por mais uma vinda do Mr. Bungle para o Brasil após os shows da turnê com o Avenged ou, até mesmo, algum retorno inesperado de Mike Patton com outros projetos. E mesmo que esse retorno ainda não seja garantido, a certeza é de que este show do Mr. Bungle agrega na disputa para a segunda-feira mais insana de 2026.
Confira o setlist do Mr. Bungle abaixo:
Intro: Also sprach Zarathustra, op. 30 (música de Richard Strauss na releitura de Portsmouth Sinfonia)
- Tuyo (cover de Rodrigo Amarante)
- Grizzly Adams
- Anarchy Up Your Anus
- Bungle Grind
- I’m Not in Love (cover de 10cc)
- Eracist
- Spreading the Thighs of Death
- Retrovertigo (parcial)
- State Oppression (cover de Raw Power)
- Hypocrites / Habla español o muere (convertido para as frases “Speak Portuguese or Die” e “Fala português ou morre”
- Glutton for Punishment
- USA (cover de The Exploited)
- Raping Your Mind
- Hopelessly Devoted to You (cover de John Farrar)
- My Ass Is on Fire / Funkytown (autoral do álbum de estreia e cover de Lipps Inc, respectivamente)
- Sudden Death
- Refuse/Resist (cover de Sepultura)
- All by Myself (cover de Eric Carmen com refrão convertido para “Tomar no c*)
Outro: Learn English (música de Humanoids)
