O que Rodolfo Abrantes acha de tão impressionante nos anos 90

Os anos 1990 foi para muitos uma das melhores décadas em termos de criação artísticas, tanto na música como no cinema. Nas telonas explodiram grandes clássicos como Forrest Gump, O Rei Leão, A Outra História Américana, Pânico, Space Jam e outros vários.

Na música, especificamente dentro do rock/metal, novos gêneros e movimentos viram a luz do dia. Foi o caso do nu-metal e do grunge, que abarcou bandas de diferentes levadas, mas com uma sonoridade que não se encaixavam em algo convencional e de rótulo fácil. Daí nasceram nomes que se tornaram grandes potências mundiais como o Nirvana, Alice in Chains, Korn, Slipknot, Rage Against the Machine, entre outras tantas.

No Brasil, uma das mais importantes bandas surgidas nessa década foi o Raimundos. Em entrevista recente a Rádio 89, o seu ex-vocalista, Rodolfo Abrantes falou sobre como enxerga os anos 1990 algo especial. Ele diz, conforme transcrito pelo Confere Rock:

Para mim, os anos 90 foram geniais. Tem uma galera muito saudosista com os anos 70. Os anos 80 foram aquele negócio meio engraçado, meio brega, mas tinham bastante coisa legal. Mas eu acho que os anos 90 tiveram uma peculiaridade.

Eu atribuo isso, por exemplo, aos esportes de prancha — snowboard, surf, skate. Essa galera que praticava esse tipo de esporte era muito eclética com o som que ouvia. O cara ouvia hip hop, ouvia metal, ouvia hardcore, ouvia reggae… ouvia tudo misturado. E, de repente, você começa a ver esses crossovers, né? Você começa a ver bandas como o Suicidal misturando hip hop com hardcore. Depois, o Rage Against the Machine trazendo uma leitura disso. Beastie Boys sempre misturando coisas.

Nos festivais, você podia colocar Beastie Boys com Pantera, Red Hot Chili Peppers, Rage Against the Machine e Nirvana — e nenhuma banda tinha nada a ver com a outra, mas agradava todo mundo.

Rodolfo ainda ressalta outro ponto bastante peculiar da década, como cada banda tinha uma identidade de onde estava vindo:

Outra coisa muito interessante dos anos 90 era a questão do regionalismo. A gente fala muito disso no Brasil, mas isso estava acontecendo no mundo todo. O rock feito em Seattle ganhou até nome: virou grunge, que era um rock daquela região. O rock da Califórnia tinha cara de Califórnia. O som de Nova York tinha cara de Nova York.

E, paralelamente a isso, sem ninguém combinar nada, no Brasil era a mesma coisa: Planet Hemp era Rio de Janeiro puro; Racionais MC’s, São Paulo puro; Chico Science era Recife puro; Raimundos era Nordeste, apesar de ser de Brasília; Pato Fu era Minas; Skank era Minas. Tinha muito disso: você carregar suas raízes com o som que estava acostumado a ouvir de fora.

Aí veio a MTV, em 1990. Esses veículos colocavam bandas novas para a galera ouvir. Cara, os anos 90 foram sem igual. Para mim, foram sem igual.

Rodolfo ainda ressalta como naquela década, havia um jogo de “se arriscar”, de fazer o diferente sem saber o que viria como resposta:

Muito interessante. E a galera arriscava, né? Você via essa questão de experimentar misturas de estilos. Sempre saía algo legal. Não era tanto sobre cópia. Hoje tem muita cópia. A galera quer fazer um track que dê certo, que bombe. Então, se uma coisa dá certo, todo mundo vai atrás. Nos anos 90, não. Estava todo mundo no seu laboratório criando coisas loucas — e eram geniais.

Além do Raimundos, Rodolfo Abrantes fez parte do Rodox, que recentemente anunciou o seu retorno as atividades e já tem uma extensa lista de shows agendados pelo Brasil.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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