Por que Michael Kiske deixou o Helloween nos anos 90?

Em 24 de janeiro de 2026, Michael Kiske completa 58 anos. Dono de uma das principais vozes do power metal, foi à frente do Helloween que ele ganhou notoriedade mundial dentro do cenário. Mas ainda nos anos 90, os fãs da banda sofreram o baque da sua saída do posto, deixano uma leva de fãs orfãos de sua voz.

Em um conversa com a Classic Rock anos atrás, Kiske contou como chegou ao microfone do Hellowen, e tudo começou quando Kai Hansen, então cantor da banda, viu que não estava funcionando cantar e tocar, principalmente pelo fato dele próprio não se considerar um cantor:

“Nunca me considerei um cantor. Eu gritava. E não tinha disciplina. Beber e fumar muito não ajuda a cantar bem.”

Hansen então trouxe Michael Kiske para as vozes principais da banda e fala sobre o cantor:

“Michael Kiske era uma personalidade muito forte, mesmo no início. Muito opinativo. Ele não era o tipo de cara para quem você diria: ‘Ei, cante isso’. Se ele não gostasse de algo, diria: ‘Não, isso é besteira, eu não gosto disso’.”

Com o sucesso batendo a porta, uma faixa mostrou que algo não estava certo. “I Want Out” parecia ser o grito da Kai Hansen ao dizer que tinha planos para deixar o Helloween, o que de fato era e se concretizou:

“Foi uma declaração, sim. Não era só querer sair da banda, era algo geral relacionado a tudo o que estava acontecendo: má gestão, outras pessoas nos dizendo onde estar e o que fazer, discussões internas intermináveis… Eu só queria tocar rock. Tinha o Ingo [Schwichtenberg, baterista], o Markus [Grosskopf, baixista] e eu, e depois tinha o Michael e o Michael – o que era estranho considerando como tudo acabou”, diz ele.

“Mas mesmo assim eles discutiam entre si. Eu os vi sentados no ônibus da turnê, discutindo por horas sobre se a gema do ovo é saudável ou não. E eles faziam a mesma coisa com a música. O Weikath dizia: ‘Pessoal, precisamos ser mais como os Beatles’, e eu respondia: ‘Vocês querem que eu toque isso? Não…’ E aí o Kiske dizia: ‘Precisamos ser mais como o Elvis’.”

Foi aí então que os problemas de Kiske começaram dentro do Helloween. A dinâmica da banda mudou e a situação não ficou melhor para Michael:

“O Kai tem a sua própria maneira de encarar a situação. Na minha opinião, ele estava projetando problemas da própria vida no que aconteceu. Sim, houve discussões, mas no geral todos estavam se divertindo. Quando ele saiu, eu nem imaginei que seria um problema tão grande – de tão ingênuo que eu era. Ele fazia parte daquilo, mas era uma parte importante – ele não era a banda, como algumas pessoas gostam de dizer. Mas assim que ele saiu, o clima mudou completamente. Virou um pesadelo.”

A escalada do problemas acabou culminando na saída de Kiske após um fraco lançamento:

“A situação toda estava péssima. Gastamos uma fortuna em um estúdio na Dinamarca, mas não havia inspiração.”

O relacionamento entre Kiske com o guitarrista Michael Weikath havia sido quebrado. Kiske diz:

“Eu queria sair, mas não tive coragem. Eles me demitiram, mas antes disso acontecer, fiz certas declarações para pressioná-los a tomar essa decisão. Tive uma conversa com Roland [Grapow, o eventual substituto de Hansen], dizendo: ‘Acho que depois deste disco vou embora’. Quando você diz coisas assim, o que espera que aconteça?”

Michael Kiske deixou o Helloween em 1993.

Após sua saída, a decepção foi tão grande que Kiske foi arriscar em outros ambientes da música, querendo se distanciar do heavy metal:

“Eu estava irritado. Eu estava magoado. Eu simplesmente não queria ter nada a ver com isso. Mas, por mais que tentasse, não conseguiu escapar da sombra de sua antiga banda. Weikath alegou que seu ex-companheiro de banda havia deliberadamente abandonado o heavy metal enquanto ainda estava na banda – um pecado capital aos olhos dos fãs do Helloween.”

Ele continua:

“Senti-me maltratado. Principalmente pela forma como venderam a situação ao público. Era só a propaganda enganosa que eles criaram para agradar aos fãs. Mas éramos jovens, ninguém nos dizia o que fazer. Não existe um manual de instruções para estar numa banda.”

No período logo após sua saída do Helloween, Michael Kiske foi muito apontado para assumir a vaga deixada por Bruce Dickinson no Iron Maiden, mas o próprio Kiske afirma que isso nunca foi uma opção e nunca houve alguma conversa real sobre essa possibilidade:

“Naquela época, o Hellowen tinha a mesma gestão do Iron Maiden. Estávamos com a Sanctuary Music e Rod Smallwood. Então, havia essa conexão. Eu estava no casamento de Rod, junto com todos do Maiden. Encontrei Bruce algumas vezes no escritório e conversamos. Assisti tênis com ele juntos nos anos 90, quando Boris Becker estava jogando. Eu me lembro disso. Mas nunca houve nenhuma discussão ou conversa sobre isso. A única coisa que descobri mais tarde, muitos anos depois, e não posso afirmar que é verdade, foi que um jornalista — acho que era francês, não lembro — disse ter conversão com Steve Harris e que eu poderia ser um dos três na lista. Não sei se era verdade, mas talvez tenha sido daí que surgiu.”

Michael Kiske então reafirma nunca ter havido nenhuma conversa sobre eles estar no Maiden:

“Nunca houve nenhuma conversa, e eu não acho que tenha havido nenhuma consideração séria porque os britânicos também são muito nacionalistas. Só a ideia de um cantor alemão substituindo Bruce Dickinson no Iron Maiden, não acho que realmente funcionaria. Em teoria, pode ter sido algo que passou pela cabeça de Steve Harris, mas você teria que perguntar a ele. Não sei se é verdade. O entrevistador me disse, mas você não pode acreditar em muitas coisas hoje em dia.

Além disso, nós tocamos com o Iron Maiden em uma turnê de muito sucesso que fizemos em 88 ou 89. Acho que foi a do ‘Seventh Son Of A Seventh Son’. O público estava realmente aceitando o Hellowen, o estilo de música era meio apropriado. Então, alguém que gosta do Maiden não necessariamente odeia Helloween e vice-versa. Talvez seja por isso também que algumas pessoas pensaram que poderia dar certo.”

Mas diferente dos fãs, Kiske explica porque ele acha que mesmo em uma possibilidade dele ter conseguido o papel, não daria certo:

“Eu não me importaria com o Iron Maiden sem Bruce Dickinson, da mesma forma que não me importei com o Judas Priest sem Rob Halford. Uma mudança assim só funcionou para mim com o Van Halen – embora eu ainda prefira a fase com David Lee Roth, porque a sonoridade era um pouco mais atemporal, enquanto a fase do Sammy Hagar soa mais anos 80. É quase como se eles quisessem encontrar um pouco mais os sons dos anos 80 e tudo mais, mas ambos são igualmente ótimos e musicalmente emocionantes. E funcionou. Eu gosto das duas fases.

Mas na maioria das vezes, quando gosto de uma banda, e especialmente quando cresci com uma banda, e o vocalista muda, não me importo. É como se você conectasse o som com o cantor. É sempre uma coisa difícil. Funcionou com o Helloween porque eles não escolheram um imitador para me substituir. Foram atrás de alguém com seu próprio estilo e atitude. A banda precisava de alguém como Andi Deris. Ele é um leão, um Zodíaco, assumiu o controle das coisas e está liderando o grupo até hoje. Era exatamente o que a banda precisava naquela época, pois era muito disfuncional nos meus últimos dois, três anos. Se não tivesse funcionado, não estaríamos conversando hoje. Mas com a maioria das bandas não funciona. É uma tarefa muito difícil, especialmente quando você tenta conseguir um cantor que soe como o anterior. Faz muito mais sentido pegar um diferente. É mais convincente do que uma cópia de algo.”

Em 2016, Michael Kiske se juntou novamente ao Helloween ao lado mais uma vez de Kai Hansen e ainda com o também vocalista Andy Derris. O Helloween retorna ao Brasil este ano para show único em São Paulo. Confira abaixo os detalhes:

SERVIÇO

Cidade: São Paulo 

Data: 19 de setembro de 2026 (sábado)

Local:  Suhai Music Hall – Shopping SP Market – Av. das Nações Unidas, 22540 – Jurubatuba – São Paulo – SP – 04795-000

Portas: 19h

HELLOWEEN: 21h          

Vendas:  www.eventim.com.br/helloween

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

2 thoughts on “Por que Michael Kiske deixou o Helloween nos anos 90?

  • janeiro 25, 2026 em 2:12 pm
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    Acredito que tanto Bruce Dickinson, Kiske e ate´ no Guns que teve um tempo parado…teve essa coisa da maturidade e muito dinheiro rolando ali e sendo desperdiçado com bebidas, drogas ou sei lá o quê na época!!!! A turnê desses caras era gigantesca, tinham muita energia, mas de algum modo interferia na vida deles negativamente…muita coisa negativa ali rolando e não pensaram muito no futuro!!!! Felizmente para essas três bandas tudo deu certo, se ¨concertaram¨e assim estão aí nos proporcionando coisas boas em termos de músicas e shows!!!! Valeu!!!!

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    • janeiro 26, 2026 em 3:46 pm
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      Vejo isso no Sepultura também da era Max. A banda estava no seu auge, considerada a terceira melhor banda do mundo ali na época atrás do Metallica e Slayer e com brigas internas que ocasionaram o fim da banda. Sepultura conseguiu ir mais longe e ter uma base mais consolidada em relação ao Soulfly de Max. Max até hoje vive de ¨projetos¨, não vejo ele fazendo uma turnê gigantesca e sempre está atuando em várias bandas para não ficar parado ou sem dinheiro. Abraços!

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