Sepultura: 37 anos de “Beneath The Remains” e a estreia da banda no exterior

O Sepultura, que está em sua turnê derradeira, chamada “Celebrate Life Through Death“, celebra hoje os 37 anos de “Beneath The Remains“, o terceiro álbum da maior banda brasileira de Metal de todos os tempos e o primeiro a ser lançado fora do país. Lançado em 7 de abril de 1989, essa pérola da nossa música pesada é tema do nosso bate-papo desta terça-feira.

Precisamos voltar um pouco no tempo para poder entender o contexto que resultou na gravação de “Beneath the Remains“: Max Cavalera conta em sua autobiografia, “My Bloody Roots“, que viajou para os Estados Unidos em 1988, tendo em mãos algumas cópias do “Schizophrenia“, segundo álbum da banda e que já contava com Andreas Kisser na guitarra. A entrada do “alemão” já deu uma tremenda encorpada na banda e o disco foi um sucesso tão grande que, mesmo tendo sido lançado exclusivamente no Brasil, ele fora pirateado por todo o mundo e as pessoas já sabiam que no Brasil não havia apenas Tom Jobim, Chico Buarque, samba, praia e futebol: havia uma banda despontando no cenário.

A viagem de Max fora bem sucedida e resultou em um contrato com a Roadrunner, que foi bem longevo. Ainda em 1988, ficou decidido que a banda gravaria o álbum no Rio de Janeiro, no estúdio “Nas Nuvens“. A banda mais tarde falaria que a decisão em gravar ali é que foi o mesmo estúdio em que o Titãs gravou o emblemático álbum “Cabeça Dinossauro” três anos antes e o Sepultura havia sido a banda de abertura da banda paulistana pouco tempo antes, em Belo Horizonte, tendo iniciado uma amizade entre seus membros. Além disso, o referido álbum impressionou muito aos integrantes do Sepultura que resolveram gravar o aniversariante do dia no mesmo local. Em “Chaos A.D.“, o Titãs foi homenageado com o cover para “Polícia“, que era obrigatoriamente executada ao vivo nos tempos de Max Cavalera.

O então desconhecido Scott Burns fora enviado ao Rio de Janeiro para produzir o álbum, e, embora o cara tenha tido uma péssima impressão de nosso país, uma vez que o produtor foi vítima de furto no próprio quarto do hotel em que ele e a banda estavam hospedados na capital fluminense, o cara não se abalou e fez um excelente trabalho. Max ainda conta em seu livro uma curiosidade, em que cogitou convidar Jeff Waters, do Annihilator para a produção. Porém, este não se mostrou disposto a vir ao Brasil e a banda não dispunha de recursos para viajar até o Canadá.

Escolhido o produtor, a banda se reuniu para registrar o seu debut por uma gravadora multinacional. E o resultado foi nada menos do que espetacular. A banda se mostrava ainda melhor do que no álbum anterior e o Thrash Metal oitentista se mostrava bem latente por aqui, comprovando que a banda começava a escalada rumo ao ápice, que viria sete anos depois, em proporções mundiais.

O play é curto e grosso: 9 pedradas em forma de música em apenas 42 minutos. Um álbum sem uma música ruim sequer. Missão difícil é escolher a melhor, entre tantos bons momentos como  “Slaves of Pain“, “Primitiva Future“, “Stronger Than Hate“, mas o tempo tratou de colocar a faixa-título, “Inner Self” e “Mass Hypnosis” como clássicas eternas do Sepultura.

Esse play é tão importante, que é citado, por exemplo, no encarte do debut álbum do Cannibal Corpse, “Eaten Back to Life“, onde a banda afirma ter sido o “Beneath the Remains” uma influência lá nos primórdios daqueles que hoje são os reis do Death Metal. Na época, o álbum chegou a ser comparado com a grande obra do Slayer, “Reign in Blood“, lançada em 1986. Alguns podem até achar essa comparação exagerada, mas o Sepultura estava com sangue nos olhos e fazendo um som muito rápido, que seria ainda melhor aprimorado em “Arise“, o sucessor. Recentemente, os irmãos Max e Iggor Cavalera fizeram uma turnê onde tocaram “Beneath The Remains“, para delírio da galera que não curte a fase mais Groove que a banda resolveu encarar nos anos 1990.

Algumas curiosidades deste “Beneath the Remains“: foi aqui o primeiro registro oficial do baixista Paulo Junior. Foi ele quem gravou aquele trecho final da música “Stronger Than Hate“. Max e Andreas gravavam as partes de baixo, que só passaram a ser tocadas pelo titular do posto a partir do álbum “Chaos A. D.“. Nessa época, a pronúncia era um pequeno problema que a banda, em especial, Max Cavalera, enfrentava, então, eles contaram com a ajuda do pessoal do Obituary que os ajudou a aprimorar a língua que domina o Rock e o Metal, inclusive, John Tardy, vocalista do Obituary, fez backing vocal no álbum. A música “Slaves of Pain” é na verdade, um cover da antiga banda de Andreas Kisser, o Pestilence, sendo que eles trocaram a letra.

Em 1989, o álbum chegou a figurar nas paradas britânicas, na categoria Indie, quando ficou na 9ª posição. Mais recentemente, em 2020, o play foi relançado em uma versão deluxe e com um CD bônus, que incluem versões para faixas que fazem parte do álbum, além de músicas ao vivo e  alcançou a posição de número 3 na Croácia, a 22ª posição na Hungria e a 96ª na Alemanha. É considerado o melhor álbum do Sepultura por muitos fãs. Se não há unanimidade sobre este ser o melhor, não restam dúvidas de que é um clássico atemporal. E com o selo de Made in Brazil.

E a partir daqui, a banda só tenderia a crescer. Após o lançamento do álbum, vieram turnês mundo afora, incluindo a famosa tour em que houve a treta dos brasileiros com os alemães do Sodom. Assim como “Schizophrenia“, que marcava a estreia de Andreas Kisser na banda, havia sido um marco, “Beneath the Remains” era outro marco.

Era uma banda brasileira aparecendo para o mundo e isso é digno de orgulho, pois se portas foram abertas no exterior para que Viper, Angra, Krisiun, Claustrofobia, Torture Squad, entre outros pudessem adentrá-las, tudo foi porque esses garotos se meteram a fazer Heavy Metal em uma terra em que na época o som que dava dinheiro era o de artistas de gosto duvidoso.

Hoje o Sepultura está se despedindo dos palcos e essa despedida fez a banda inovar e lançar a primeira balada, algo inimaginável na época do nosso aniversariante. Recentemente, tivemos a polêmica sobre uma possível reunião dos irmãos Cavalera no show derradeiro da banda, o que foi categoricamente negado por Gloria Cavalera. Os irmãos estão em outra vibe, celebrando a obra que ambos criaram. E “Beneath The Remains” é a prova de que o passado do Sepultura resiste ao tempo.

Beneath the Remains – Sepultura
Data de lançamento – 07/04/1989
Gravadora – Roadrunner

Faixas:
01 – Beneath the Remains
02 – Inner Self
03 – Stronger Than Hate
04 – Mass Hypnosis
05 – Sarcastic Existence
06 – Slaves of Pain
07 – Lobotomy
08 – Hungry
09 – Primitive Future

Formação:

  • Max Cavalera – vocal/ guitarra
  • Igor Cavalera – bateria
  • Andreas Kisser – guitarra
  • Paulo Jr. – baixo

Participações especiais:

  • Henrique – teclado
  • John Tardy – backing vocal
  • Kelly Shaefer – backing vocal
  • Scott Latour – backing vocal
  • Francis Howard – backing vocal

Flávio Farias

Fã de Rock desde a infância, cresceu escutando Rock nacional nos anos 1980, depois passou pelo Grunge e Punk Rock na adolescência até descobrir o Heavy Metal já na idade adulta e mergulhar de cabeça na invenção de Tony Iommi. Escreve para sites de Rock desde o ano de 2018 e desde então coleciona uma série de experiências inenarráveis.

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