Resenha: Soulfly – “Chama” (2025)

Poucos nomes no metal carregam uma história tão vasta quanto Max Cavalera. Conhecido mundialmente por sua trajetória com Sepultura, o músico brasileiro construiu ao longo das últimas décadas uma discografia igualmente robusta à frente do Soulfly. Curiosamente, o tempo de atividade da banda já supera em muito o período que ele passou em seu grupo mais famoso. Com treze discos lançados, o projeto segue vivo e em constante transformação.

O novo trabalho, “Chama”, marca um momento diferente dentro da história do grupo. Pela primeira vez em muito tempo, Max Cavalera abre espaço para que seu filho, o baterista Zyon Cavalera, assuma papel central na direção criativa do álbum. Essa mudança de perspectiva acaba trazendo uma nova abordagem sonora para o Soulfly, sem abandonar as raízes que sempre definiram a banda.

A narrativa por trás de “Chama” gira em torno da jornada de um jovem que cresce em meio às dificuldades das favelas brasileiras. Em busca de um propósito maior, ele deixa esse ambiente caótico e parte rumo à Amazônia, onde encontra conexão espiritual com culturas indígenas e com a natureza. Essa temática de reconexão com as origens não é novidade no universo de Max Cavalera, mas aqui ganha uma roupagem mais sombria e introspectiva.

Musicalmente, o disco segue uma linha evolutiva iniciada em “Totem”, trabalho anterior da banda. Após a saída do guitarrista Marc Rizzo, o som do Soulfly passou a explorar territórios mais pesados e densos. Em “Chama”, essa tendência se aprofunda, com elementos industriais e atmosferas mais obscuras marcando presença em faixas como “Ghenna” e “Black Hole Scum”.

O álbum também reúne participações especiais que ampliam o alcance do projeto. Entre os convidados estão Dino Cazares, do Fear Factory, presente em “No Pain = No Power”, Todd Jones, do Nails, na faixa “Nihilist”, e Michael Amott, do Arch Enemy, que aparece em “Ghenna”. O disco ainda conta com participações vocais de Ben Cook, do No Warning, e Gabe Franco, do Unto Others. Na formação, o baixo fica por conta de Igor Amadeus Cavalera, enquanto a guitarra é assumida por Mike DeLeon, conhecido por trabalhos com Flesh Hoarder e Philip H. Anselmo & The Illegals.

Com pouco mais de meia hora de duração, “Chama” apresenta um formato direto e enxuto. A primeira música propriamente dita, “Storm the Gates”, já abre o disco com energia e agressividade, trazendo Max Cavalera em plena forma, com sua habitual intensidade vocal. Faixas como “Favela/Dystopia” reforçam o clima urbano e pesado do trabalho, enquanto “Black Hole Scum” flerta com uma atmosfera industrial que lembra certos momentos do Ministry dos anos 90.

A bateria de Zyon Cavalera aparece com destaque em vários momentos do disco, especialmente em “Storm the Gates” e “Ghenna”, mostrando uma performance segura e poderosa. O baixo de Igor Amadeus Cavalera também ganha presença clara na mixagem, contribuindo para o peso geral das composições.

Ainda que o álbum funcione bem em sua proposta mais direta, a sensação que fica é de que poderia haver um pouco mais de material. Entre introduções, interlúdios e a instrumental “Soulfly XIII”, o tempo efetivo de músicas completas acaba sendo relativamente curto. Mesmo assim, as faixas entregam intensidade suficiente para manter o ouvinte envolvido.

O disco é lançado pela parceria Nuclear Blast e Shinigami Records, reforçando o alcance internacional do trabalho.

No fim das contas, “Chama” mostra que o Soulfly ainda tem combustível para seguir em frente. A banda mantém sua identidade, mas permite pequenas evoluções que evitam a sensação de repetição. Talvez não seja o álbum mais expansivo da discografia do grupo, mas carrega energia, convicção e o espírito combativo que sempre acompanharam Max Cavalera ao longo de sua carreira.

NOTA: 8

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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