Nevermore entrega setlist nostálgico, com altas doses de peso, técnica e emoção em São Paulo

Texto: Daniela Reigas
Fotos: Gabriel Gonçalves

Desde a triste perda do icônico Warrel Dane em 2017, os fãs de Nevermore certamente haviam perdido as esperanças de ver os membros remanescentes executando novamente ao vivo essas incríveis composições. 

No entanto, para surpresa de todos – e até a contragosto de alguns – uma turnê de reunião foi anunciada no ano passado nas redes sociais do guitarrista fundador Jeff Loomis, com a presença confirmada também do baterista Van Williams; iniciou-se então uma longa busca por membros para completar o line-up, especialmente o difícil posto de vocalista, e finalmente, em fevereiro deste ano, foram revelados os escolhidos: Berzan Önen no vocal, Semir Özerkan no baixo e Jack Cattoi na segunda guitarra.

A tour teve início na Turquia (terra natal de Berzan) e de lá já veio com tudo pra América Latina; São Paulo foi a única cidade brasileira contemplada, com uma primeira passagem no festival Bangers Open Air em 26 de abril, e um side-show no Carioca Club dois dias depois, em plena terça-feira.

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Marcado para as 20:30h e sem banda de abertura, o grupo norte-americana fez os paulistanos correrem para escaparem do combo horário de pico + chuva e chegarem a tempo na casa, principalmente os que quisessem pegar a boca do palco – os numerosos fãs foram se aglomerando como dava e o calor já começava a subir mesmo antes do início do evento. Pontualmente, as luzes se apagaram, o telão acendeu a logo do NEVERMORE em vermelho e os músicos foram recebidos com muitos gritos de entusiasmo, ainda mais pelo toque especial de Berzan estar trajando uma camiseta amarela da seleção brasileira de futebol. O cantor chega saudando a plateia com um “What’s up São Paulooo!” (“E aí, SP!”).

A abertura foi com a pedrada “Beyond Within”, tal qual em seu álbum de origem, “Dreaming Neon Black”, para representá-lo muito bem e reviver o impacto que foi ouvir isso pela primeira vez lá em 1999. Sem enrolação após seu final abrupto, já emendam com “My Acid Words”, saltando para 2005 com o excelente “This Godless Endeavor”, do qual é impossível escolher uma só. Logo após a intro é possível ver uma roda se abrindo no meio da pista, mas nem só de brutalidade vive o Nevermore, então o refrão é cantado em harmonia com Berzan; até as partes cadenciadas são acompanhadas por “hey! hey! hey!”. Na sequência, a cozinha impecável de Van e Semir dita o ritmo de “Enemies of Reality”, única representante do álbum homônimo, de 2003. O público canta o cativante refrão a plenos pulmões, o que impressiona Berzan – ao término da faixa, o cantor diz aos fãs que os ama e que gostaria de treinar um pouco de aquecimento vocal com eles para a próxima música. Esbanjando sua técnica e seu alcance invejáveis, ele faz a plateia ensaiar a melodia de vocal etéreo presente em “Engines of Hate”.  Apesar dessa interação, a plateia fica um pouco mais contemplativa ao longo da faixa, que talvez pudesse ter sido substituída por mais uma do início da carreira, como “This Sacrament” (que rolou no Chile), ou por outra do mesmo álbum, como “We Disintegrate”, mas de qualquer forma a execução foi impecável.

Desacelerando o ritmo e evidenciando um pouco mais a melancolia que é tão presente na temática da banda, vem a excelente “Sentient 6”, onde se destaca também o backing vocal de Semir. O peso é retomado com os riffs poderosos e quase “mecânicos” de “Next in Line”, sendo uma agradável surpresa – a faixa do primeiro álbum da banda não era executada ao vivo há quase 20 anos. Os fãs cantam e batem cabeça, curtindo a nostalgia. Dando continuidade, para representar “The Obsidian Conspiracy” (2010), a eleita foi a cadenciada “Moonrise (Through Mirrors of Death)” com suas dobradinhas harmonizadas de guitarra, mostrando um ótimo entrosamento entre o veterano Jeff Loomis e o novato Jack Cattoi.

Berzan então dá o comando para a próxima faixa: “Jump! Show me what you got” (“Pulem! Mostrem a que vieram”) e todos obedecem, pulando e gritando, elevando insanamente a energia dentro das 4 paredes do abarrotado Carioca com “Inside Four Walls”. A resposta do público encanta o frontman, que confessa que vir ao Brasil era um sonho dele que estava sendo realizado naquele noite, e que os fãs não o desapontaram. Talvez por isso, e sabendo que São Paulo foi a cidade onde Warrel passou seus últimos dias nesse plano, o turco então anuncia a próxima faixa como um tributo a ele e convida todos que já perderam alguém especial a cantarem juntos o hino “The Heart Collector”, sendo um dos pontos mais altos do show. Os fãs balançam as mãos ao alto e cantam em uníssono, muitos com lágrimas no rosto. Ao término, Berzan é devidamente ovacionado e tem seu nome aclamado várias vezes, ficando visivelmente emocionado – “vocês vão me fazer chorar”. 

Após se recompor, continua, demonstrando bastante conhecimento acerca do comportamento brasileiro em shows: “Vocês também são famosos pelos pits, então vamos fazer acontecer”. E assim, convoca a plateia a abrir o meio de campo, pra dar passagem pra formação da roda na enérgica “Born” – faixa mais reproduzida da banda nas plataformas digitais. A missão, no entanto, é um pouco dificultosa pela pouca disponibilidade de espaço pra se movimentar e pelo calor, mas ainda assim o público agita bastante e faz bonito no refrão também. Na sequência, a hiper técnica “Final Product” faz os amantes de guitarra chegarem mais perto do palco pra testemunhar principalmente as habilidades de Loomis, que é aclamado ao final da eletrizante performance. É hora então dos fãs serem agraciados com mais uma agradável supresa, que chega com a pergunta capciosa de Berzan: “São Paulo, me digam, em quê vocês acreditam?” e a resposta foi imediata: “nada!” (nothing!), ao que o cantor dedica um brinde enquanto dá uma golada em sua cerveja. A bela balada “Believe in Nothing” transforma novamente a plateia em um coral, que canta até mesmo o marcante fraseado de guitarra. Os músicos observam a reação dos fãs com uma expressão mista de surpresa e alegria, especialmente Jack e Semir

Berzan então anuncia o princípio do fim, dizendo que a próxima faixa seria a última, e sendo imediatamente bombardeado com um sonoro “Noooooooo!” da plateia, que estava em êxtase e pedia muitas outras canções, como “I, Voyager” e “Narcosynthesis”; mas para encerrar o bloco, a escolha da progressiva “This Godless Endeavor” sintetiza muito bem todos os elementos que tornam a sonoridade do Nevermore tão única e completa. Logo após a última nota da música, Van se levanta da bateria, seguido por seus companheiros, que pouco a pouco vão se retirando do palco enquanto acenam para os fãs. A casa permanece escura e o público continua chamando pelo nome da banda, que alguns minutos depois, retorna para o derradeiro bis. 

Realizando os pedidos feitos anteriormente, a banda performa mais um hino, “Narcosynthesis”, que havia sido a escolha de abertura no Bangers – e essa era a sensação no Carioca, a de que o show estava apenas começando… todos batendo cabeça (incluindo os músicos) e os fãs complementando os backing vocals de Samir no refrão a todo vapor. Certamente, ninguém ali queria ir embora. Mas como tudo que é bom dura pouco, o derradeiro encerramento vem com os suaves dedilhados da intro de“The River Dragon Has Come” e seus riffs bem marcados, tappings hipnotizantes e vocais poderosos. Agora sim, com a alma lavada pelo suor, a missão estava cumprida e Jeff agradece o carinho dos fãs com um “Thank you so much, we love you!”. Após a sessão de aplausos e pedidos de “one more song”, o fotógrafo eterniza o inesquecível retorno do Nevermore e a banda vai se despedindo dos fãs, que deixaram claro que a nova formação está mais do que aprovada e será muito bem vinda sempre que quiserem retornar. Tomara que esse gás incendeie a chama de composição em Loomis e que em breve tenhamos um novo álbum, pois Berzan, apesar de honrar linda e respeitosamente o legado de Warrel, não deve se limitar a isso, já que caiu como uma luva e sem dúvidas tem potencial de criar material que se transformará nos futuros hits, angariando cada vez mais público para os shows.

Setlist:

Beyond Within

My Acid Words

Enemies of Reality

Engines of Hate

Sentient 6

Next in Line

Moonrise (Through Mirrors of Death)

Inside Four Walls

The Heart Collector

Born

Final Product

Believe in Nothing

This Godless Endeavor

Bis:

Narcosynthesis

The River Dragon Has Come

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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