Ave Sangria ganha processo contra Estado brasileiro por censura durante anos da Ditadura
A história da psicodelia nordestina ganhou um novo capítulo mais de cinco décadas depois de ter sido interrompida. O Estado brasileiro reconheceu oficialmente a perseguição sofrida pela banda pernambucana Ave Sangria durante a ditadura militar e determinou o pagamento de indenização aos integrantes sobreviventes, como forma de reparação pela censura que atingiu o grupo nos anos 1970, segundo contou o portal Diário Pernambucano.
A decisão foi tomada pela Comissão de Anistia do Ministério dos Direitos Humanos, que concedeu anistia política ao conjunto após constatar que o disco de estreia, lançado em 1974, foi alvo direto da censura do regime, principalmente a música “Seu Waldir“. O álbum acabou retirado de circulação pouco tempo após chegar às lojas, interrompendo abruptamente a ascensão do grupo, que vivia um momento de destaque na cena musical do Nordeste.
a faixa Seu Waldir acabou se tornando o principal símbolo da censura que atingiu a Ave Sangria durante a ditadura militar. Sétima música do álbum de estreia, lançado em 1974, a composição trazia versos aparentemente inocentes — “Seu Waldir, o senhor magoou meu coração. Seu Waldir, isso não se faz, não” — que, à primeira vista, não indicavam qualquer conteúdo polêmico. 🎶
Inicialmente liberado pelos órgãos da Polícia Federal, o disco chegou às lojas do Recife e rapidamente ganhou espaço nas rádios locais, tornando-se um sucesso regional. O cenário, porém, mudou em pouco tempo. Parte da imprensa passou a direcionar críticas à canção, alegando que a letra insinuaria um suposto conteúdo homossexual e que representaria uma afronta à chamada “moral da família tradicional pernambucana”. A repercussão negativa ganhou força e se transformou em uma campanha pública contra a música.
Segundo relatos dos integrantes Marco Polo e Almir, a pressão foi suficiente para alcançar setores militares. A esposa de um general teria solicitado providências ao marido, que acionou a Polícia Federal. No dia seguinte, os discos foram recolhidos das lojas e retirados da programação das rádios. A medida interrompeu abruptamente a ascensão da banda, que já planejava investir em novos equipamentos diante da boa recepção do álbum. Em vez disso, vieram dificuldades financeiras e o fim do projeto. “Foi um choque terrível”, recordou Almir, que acabou retornando à carreira de engenheiro, enquanto Marco Polo voltou ao jornalismo.
A polêmica em torno de “Seu Waldir” não foi um caso isolado. Os músicos relatam outros episódios de perseguição. Em uma ocasião, foram detidos de forma violenta apenas por usarem cabelo comprido. O grupo estava em um bar quando foi abordado por policiais e levado em um camburão. Para o vocalista, a repressão refletia o embate cultural daquele período. “Éramos de um segmento que, embora politizado, estava mais preocupado com uma revolução comportamental. A questão moral atingiu justamente isso, que era a nossa proposta”, avaliou.
Além do reconhecimento formal, o Estado apresentou um pedido público de desculpas e definiu o pagamento de uma pensão mensal e vitalícia de R$ 2 mil aos músicos afetados. O valor retroativo ainda será calculado e integra a reparação pela interrupção das atividades profissionais provocada pela perseguição política e as famílias do baterista Israel Semente e do guitarrista Paulo Rafael, ambos falecidos, também foram contempladas.
A censura teve consequências profundas na trajetória do grupo. No auge da popularidade, a proibição do disco impactou as finanças, desarticulou a carreira e contribuiu para o encerramento das atividades da banda poucos meses depois. O episódio é considerado um dos casos emblemáticos de interferência do regime militar na produção cultural brasileira, sobretudo no cenário do rock psicodélico regional.
Formada no final dos anos 1960 no Recife, a Ave Sangria tornou-se uma das principais referências da música experimental pernambucana, misturando rock psicodélico, elementos regionais e letras ousadas para a época. O disco de estreia, hoje cultuado por colecionadores e críticos, teve vida curta nas prateleiras justamente por conta do conteúdo considerado provocativo pela censura oficial.
O reconhecimento atual representa, além de uma reparação financeira, um gesto simbólico de revisão histórica. Ao admitir a perseguição e seus efeitos, o Estado brasileiro resgata a importância cultural de um grupo cuja trajetória foi interrompida no momento em que começava a ganhar projeção nacional — e reafirma o impacto que a censura teve sobre a produção artística durante o período autoritário.
Foto: Flora Negri / Divulgação
