Bad Religion prova que o punk não morreu em nova passagem por SP
Em plena terça-feira, 28 de abril, o Bad Religion praticamente esgotou os ingressos do Espaço Unimed. Essa é a prova de que uma banda com legado sempre conseguirá a atenção de seus fãs.
O show que estava marcado para começar às 21h atrasou cerca de 15 minutos, deixando a plateia ainda mais ansiosa. Nos PA’s, clássicos do punk mundial – Dead Kennedy’s, Misfits, The Damneds – e um moshpit aberto durante “Holliday in Cambodia” deram o tom da noite.
Os telões começam a piscar o letreiro com o nome da banda, fazendo as paredes da casa tremerem com os gritos ensurdecedores do público, que provou não ser impossível aumentar o volume quando Greg Graffin, Brett Gurewitz, Jay Bentley, Brian Baker e Mike Dimkich entraram. Sem muita conversa, o show começou ainda com as luzes do palco apagadas, apenas o telão central com “Bad Religion” estampado, motivo para gerar uma imensa comoção.

Uma introdução tocada ao vivo e os primeiros acordes de “Recipe For Hate” começam. Greg ao centro, canta com a alegria de um garoto e a sabedoria de quem já viu a cena mudar de cara e de forma dezenas de vezes, afinal Jay, Brett e Graffin estão na estrada desde 1979.
A emenda foi seca, “Them and Us” manteve o público em estado de graça, mas “Los Angeles Is Burning” trouxe a primeira catarse. Uma música de 2004 (considerada recente, dada a história), mas que figura em top hits das rádios especializadas do país, logo, um ponto de afinidade. Greg fazia questão de cantar, mesmo não precisando, pois o Espaço Unimed estava tomado pelo êxtase e pela primeira roda aberta na pista comum. Versos cantados a plenos pulmões, braços erguidos mostravam o grito de liberdade que só a música é capaz de trazer.

O desfile de clássicos só aumentou a animação da plateia, que aliás estava repleta de crianças, várias, inclusive nos ombros dos pais, ou fazendo stage diving; a cena está garantida por mais alguns anos, afinal, lembranças como essas marcam a vida de qualquer pessoa.
“Fuck You” fez a casa se transformar num pandemônio. A cada música um pouco mais agitada, algo difícil de presenciar atualmente: o guitarrista se virava para o fundo do palco para afinar seu instrumento. Aliás, Brett Gurewitz fez o show inteiro com a mesma guitarra! As constantes pausas também serviram para hidratação. Com a lotação do Espaço Unimed, o ar condicionado não estava dando conta e o ambiente estava uma verdadeira panela de pressão.
Greg não é de muita conversa, parece ser aquele cara que passa sua mensagem através de sua obra… trocou pouco com a audiência, mas não por antipatia, mas por redundância, aparentemente. Durante todo o tempo em que Bad Religion esteve no palco, o público gritava por “Generator”, clássico presente no álbum homônimo de 1991, mas, atrevidamente Jay Bentley veio ao microfone e disse “no!”. A negativa não calou a plateia, muito menos mudou sua ideia. O pedido pela música esteve presente até o final de “American Jesus“, que encerrou o set.

O show corria bem, até o moshpit aberto na pista premium incomodar algumas pessoas que só queriam assistir à banda. Uma pequena discussão por ânimos exaltados não intimidou “We’re Only Gonna Die“, que foi executada com a energia das bandas de garagem, contagiando o público, incluindo os “brigões”, que já estavam novamente dentro da roda!
A partir de “No Control“, uma seleção tenta arrancar o último suspiro de vida de qualquer anarquista: Struck a Nerve, Suffer e Punk Rock Song. Mas foi em “Infected” que a segunda catarse aconteceu. Pessoas de todas as idades gritando a letra como um hino. Clássico de 1994, presente em Stranger Than Fiction, o single retornou às paradas em 2005, graças à franquia Guitar Hero e segue figurando na programação das rádios especializadas. “A Walk” é recebida com muito entusiasmo, ainda herdado da antecessora. Uma pausa para hidratação e, enquanto Jay troca de baixo e Brett afina sua guitarra mais uma vez, um grato Greg vem ao centro para dizer o quanto “estava feliz em ver todas aqueles rostos festejando numa terça-feira, e que a próxima música seria dedicada às pessoas mais importantes: You (vocês)!”. Ovacionado, Graffin começa sem muitas delongas, como se o tempo estivesse correndo… “Anesthesia” encerra o setlist padrão.

As luzes do palco se apagam, e todos saem. Depois de 8 minutos o Bad Religion sobe ao palco do Espaço Unimed para o último bloo. Antes da banda recomeçar o espetáculo, a plateia ensandecida recomeçava o coro: “Generator, Generator, Generator…” mas a banda não se compadeceu e seguiu à risca o setlist que vinha fazendo há, pelo menos, 5 shows. O bis começa com “Fuck Armageddon… This is Hell”, mas ela não foi capaz de fazer o pedido por “Generator” ser esquecido. “Sorrow” trouxe o público de volta, e com ele a terceira catarse. Pessoas gritando e chorando, pulando sem se preocupar com o dia seguinte.
Mas é óbvio que o maior clássico da banda e um dos maiores da história do punk não ficaria de fora. “American Jesus” chegou com a explosão do final da espera e a luz dos sinalizadores que foram acesos no maior moshpit do Espaço Unimed! Greg Graffin agradece à banda, depois ao público, saudando a todos com um jeito que demonstra que “todos moram em seu coração”, saindo de cena antes dos demais, mas a banda segue com o final de “American Jesus”, emendando um improviso com a música “Hello There”, do Cheap Trick.
Um show impecável e com ares de underground. Bad Religion, em plena terça-feira paulistana, mostrou porque segue como um dos pilares do punk mundial, provando que o estilo está mais vivo que nunca!
Fotos: Rafael Strabelli/Live Nation


