Korn traz chuva, caos e catarse insana em noite esgotada em retorno a São Paulo
Foram 9 anos de espera até que os fãs do Korn pudessem receber a banda novamente no Brasil. Depois de muitos rumores, boatos, datas que nunca se confirmaram, finalmente o reencontro aconteceu neste sábado, 16 de maio de 2026, no Allianz Parque com ingressos esgotados.
Em seu maior show em terras brasileiras, os pioneiros do nu-metal tocaram pela primeira vez como atração principal em um estádio e as 21:30, uma música quase infantil começou a tocar no sistema de som. Era a deixa para que pela próxima 1h30, Jonathan Davis, Brian “Head” Welch, James “Munky” Shaffer, Ray Luzier e Ra Díaz, dominar aquela arena.

O gigante pano preto cai logo após Davis gritar “Are You Ready”, e os riffs pesados de “Blind”, faixa que deu início a tudo com o álbum homôimo de 1994 é responsável por abrir o show e já faz isso em alta, com a multidão pulando e cantando cada verso. Já logo na abertura, alguns sinalizadores dão as caras e claro que eles não iriam faltar como vinha sendo prometido. Sem tempo de respirar, “Twist”, a faixa insana e caótica que abre o segundo disco, “Life is Peachy” (1996), chega e coloca alguns corajosos da plateia se arriscando a acompanhar suas linhas vocais. “Here to Stay”, mais uma faixa de abertura, dessa vez de “Untouchables” (2002), é um maremoto fazendo até o público das cadeiras pularem e causarem tremores no Allianz. A pista comum nesse momento dava um show a parte com rodas insanas e gigantescas, e claro que mesmo sob avisos, mais sinalizadores surgem durante essa faixa em ambos os setores desafiando a segurança, que não tardou em chegar aos que acenderam o acessório e arrastando essas pessoas, causando até certa confusão entre público e bombeiros em determinado momento.

“Got the Life” veio em sequência, sua introdução provocou ondas no lugar e vale aqui ressaltar como o som estava bem regulado, diferente da passagem anterior da banda pelo Brasil, em escala bem menor, já que sua vinda ao São Paulo foi no Espaço Unimed e o som não estava muito de acordo na Pista Premium com o microfone de Jonathan que parecia inaudível em diversos momentos. Dessa vez, tudo estava extremamente bem regulado, nos quatro shows do dia e assim a potência vocal de Davis ficou evidente. “Clown” surge em seguida com um dos melhores grooves que a banda já criou em sua carreia e ao vivo a faixa tem uma força monstruosa, com o vocalista pedindo para agitarem em uma curta pausa em sua metade, e em seguinte pede, “shut the fuck up”, é a deixa para o retorno estrondoso com a banda fazendo o campo todo cantar o verso seguinte.
Um dos maiores clássicos do Korn é entoado em seguida! “Did My Time” é a prova de como Jonathan amadureceu sua voz. O refrão explode com uma voz rouca, forte e cheia de prença e na ponte, ele muda para algo gutural e de uma presença que espanta até mesmo os mais conhecidos da banda. E por falar em amadurecimento, é incrível ver como a dupla de guitarrista Munky e Head estão em uma sintonia impressionante após os mais de 30 anos trabalhando juntos. Ray Luzier já é “da casa”, com mais de uma década e encontrou o groove perfeito com Ra Díaz, o mais recém chegado que acompanha a banda desde 2021 e já está mais do que a vontade no palco.

Nesse momento, o Korn trouxe a chuva a São Paulo, que começou com uma fina garoa e foi aumentando logo se transformando em um dilvúvio. Isso afastou algumas poucas pessoas, mas a maioria se encharcou e pouco se importou, ainda mais quando Jonathan apareceu com sua gaita de fole, sendo o prenúncio para “Shoot and Ladders” e o delirio coletivo das pessoas vendo Davis executando aquelas notas, com mais sinalizadores aparecendo na arena. A pesada e caótica faixa do primeiro disco causa rodas e mais rodas e ainda finalizam com “One” do Metallica em um pequeno trecho. É o carimbo para punhos ao ar cantando os versos de um dos maiores clássicos do metal mundial.
A banda sai do palco em um curto momento e retorna com os riffs de “Coming Undone”, queridinha do público e talvez uma das faixas que mais “estouraram bolha” que eles já fizeram e foi hilário alguns fãs meio perdidos com o trecho de “Let’s Go All The Way”, do Sly Fox, encaixado no meio da música e alguns falando “bugou o role dele”, achando que Jonathan havia se perdido ou esquecido a letra de sua composição. interessante os movimentos das cinco colunas de luzes que estavam no algo do palco e baixam bem próximas aos integrantes, em movimentos diagonais durante essa música causando um efeito visualmente interessante.

Pela primeira vez até aquele momento, o vocalista fala com o público gritando um “São Paulo” bem longo, e em seguida, pede desculpas pelos longos 9 anos de demora para retornar ao Brasil, mas que coisas loucas aconteceram nesse tempo e eles também estiveram em estúdio nos últimos cinco anos trabalhando em algumas coisas bem malucas e que um novo disco chegará em breve. Ele então pergunta, “vocês querem ouvir algo novo?” É a deixa para a recém lançada “Reward the Scars”, que teve cenas do jogo Diablo V, para qual a música foi lançada em parceria, com imagens do jogo sendo reproduzidas nos telões e a música parece já ter caído no gosto do público que cantou seu refrão em coro.
O show segue então com a pesadissíma “Cold”, que traz imagens em cores remetendo ao seu vídeo clipe e “Twisted Transistor”, que com sua introdução arranca ovação e parece muito mais bem aceita hoje em dia do que na época do seu lançamento. A climática e densa “Dirty” faz os presentes contemplarem o momento, já que é uma música mais cadenciada, e é o deleite para que os fãs vejam a performance da banda no todo, mas logo isso é deixado de lado quando as primeiras notas da pesada “Somebody Someone” chegam, com o chão do Allianz Parque encharcado e criando ondas de pingos d’água com as pessoas pulando e erguendo os punhos a pedido de Jonathan no final.

Luzier e Díaz dão o tom do groove na introdução arrebatadora de “Ball Tongue”, com uma performance alucinante do Korn remetendo ao seu início. Head traz o reforço nas vozes gritando o nome da faixa durante o refrão onde Davis despeja palavras e mais palavras rápidas e com uma linha vocal caótica.
Mais uma vez o vocalista se dirige ao público falando que “está uma loucura” e pergunta se as pessoas querem realmente pirar, pedindo para que elas levantem o dedo do meio e ao final de sua contagem de três, gritem “fuck that”. A primeira resposta não agrada Jonathan, que questiona, “what the fuck?” e diz saber que as pessoas podem fazer melhor, e conta de novo! Agora sim, com a satisfatória resposta do público, a estridente “Y’all Want a Single” que provoca rodas brutais e insanas no meio da plateia, com todos já esquecendo que estava chovendo, chega causando um pandemônio. Ao final, o cantor se despede do público dizendo que esse é o final.

Claro que isso é uma brincadeirinha, e logo o palco se acende mais uma vez, em tons vermelhos e os acordes da climática e densa “4U” surgem, com a imagem de uma vela em chamas ao fundo. A interpretação de Jonathan na música é um tanto particular e densa e sempre é um show a parte contemplar esse momento.
“Falling Away From Me” tem sua introdução cantada por todas as mais de 30 mil pessoas presentes, e não a toa. A música é um dos maiores momentos que o Korn já lançou em sua trajetória e a resposta dos presentes é soberba. “A.D.I.D.A.S.” não fica por menos e mais uma vez faz o estádio todo cantar, com a banda dando uma breve pausa para que as vozes ali fossem ouvidas e que momento espetacular de se presenciar.

Chegando no momento derradeiro, “Freak on a Leash” mostra que a espera de 9 anos estava chegando ao fim. Disputando com “Blind” pelo posto de música mais famosa de seu catálogo, pulos e mais pulos são dados no refrão e uma explosão de fitas cai sobre a plateia após os famosos scatting de Jonathan e tudo chega ao final, com o cantor pedindo que todos voltem para casa em segurança e que nos veremos novamente. O encerramento é carimbado por uma queima de fogos e o fim da chuva que sai de cena junto com a banda.

O Korn levou quase uma década para retornar ao Brasil, mas cumpriu o seu dever e além da chuva, trouxe o caos, a catarse e a prova do porque ser um nome tão gigantesco da música pesada e com sold out mais do que merecido. Mais amadurecida, confiante e sabendo quem são e sua posição dentro da importância da música pesada, eles não fazem por menos, sabendo da responsabilidade que tem com tantos e tantos fãs que foram tocados por sua obra. Não necessitam de uma produção de palco gigantesca ou nada do tipo para entregarem um show de alto nível e assim o fizeram. Assim, só nos resta as memórias de uma noite incrível e a torcida para que não demorem tanto pare retornar. E respondendo a Jonathan Davis em sua pergunta do início, sim, estamos prontos para o Korn.
Créditos fotos: PridiaBr/30e

