Angra celebra 25 anos de Rebirth em São Paulo, em espetáculo que reúne a formação clássica e a atual

Texto: Danielas Reigas
Fotos: Thammy Sartori

É comum a diversas bandas que possuem história longa e marcada por diversas mudanças ao longo de sua trajetória chegar a um ponto onde tudo retorna pra onde começou, ou ao menos, pro ponto que mudou a carreira positivamente em termos de sucesso comercial. Com o Angra não foi diferente – entrando agora em sua quarta formação oficial, mas antes de produzir material novo, a banda juntou a formação original da era “Rebirth” para um show de celebração tocando o álbum na íntegra, no Espaço Unimed, no dia 29 de abril. Poucos dias antes, os fãs também tiveram oportunidade de ver essa formação em ação no Bangers Open Air, mas lá a proposta era um pouco diferente, então muita gente optou pelo show solo.

Pontualmente, às 21h, as luzes se apagam e os telões iniciam uma animação que percorre todas as capas dos álbuns, garantindo que teria repertório de Angra pra todos os gostos. Com estopim, fumaça e papel picado,“Nothing to Say” abre a noite, trazendo Alírio Netto no comando do primeiro ato do espetáculo; mesmo com seu microfone tendo falhado nos primeiros versos, o cantor tem experiência de palco o suficiente pra ‘seguir o baile’ sem se deixar abalar. Mal dá tempo pra aplausos, pois em seguida já vem o hino Anjus Crai (Angels Cry), que faz todo mundo pular e cantar junto. Rafael Bittencourt e Marcelo Barbosa até arriscam uma coreografia sincronizada durante o solo. Bruno Valverde segura a bronca que é a bateria rápida e bem marcada. Ao término, Alirio finalmente saúda a plateia com um “Boa noite São Paulooo! Pelas próximas duas horas, o coração de vocês pertence ao Angra”.

Na sequência, o telão imersivo faz o mar “transbordar” no palco e Felipe Andreoli introduz as linhas de “Tide of Changes”, representando o álbum Cycles of Pain”. É a primeira vez que a faixa é cantada ao vivo por Alírio, uma vez que o ‘mago’ Fabio Lione (responsável pela gravação original) fez sua última participação no Bangers. Mesmo com refrão cativante e sendo executada com maestria por todos, a música extremamente técnica dá uma quebrada no clima – talvez teria sido melhor substitui-la por alguma do “Secret Garden”, como “Newborn Me” ou “Final Light”; a pergunta de Alirio ao final “Estão se divertindo?” parece confirmar essa percepção. Mas logo os ânimos voltam a se acender com as primeiras notas de “Lisbon”, cantadas em coro pela plateia. Com o macete de trocar a letra por “In São Paulo, realized” e um agudo altíssimo de afinação perfeita, Alirio arranca aplausos. Rafael fica com o solo final. Já na faixa seguinte, ele retorna cantando – “Vidas Secas” evidencia o elemento ‘brasilidade’, não só pela temática mas também pela estrofe em português. Vale o destaque para o baixo double-neck de Andreoli

Dando continuidade e encaminhando-se para o piano à esquerda do palco, Alírio comenta que nessa vida, há momentos muito especiais, e esse certamente é um deles; a próxima faixa é dedicada ao saudoso maestro Andre Matos, pois ficou eternizada em sua voz: “Wuthering Heights“, cover de Kate Bush, que poucos homens se arriscariam a performar ao vivo – missão cumprida com sucesso por Alirio, o que faz Rafael expressar sua admiração ao cantor sem pudores: “Alírio Neto, porr@!!!”, ao que os fãs endossam, chamando seu nome. Voltando no tempo, como disse o cantor, vem a epopéia “Carolina IV”, que contou ainda com uma sessão de vocalizes de Alirio ao piano, à la Freddie Mercury (vale lembrar que o cantor já integrou o “Queen Extravaganza”). Marcelo Barbosa se destaca no solo final.

Mais uma quebra no andamento do setlist vem com um solo de bateria de Bruno Valverde – nosso “menino de ouro”, como disse Rafael. Não parece ser necessário provar competência técnica quando você já é o membro oficial de uma banda desse patamar, especialmente num show que já traz repertório extenso. Mas obviamente a plateia não deixa de aplaudir o talento do músico ao final da performance. Retomando, Alírio volta ao piano para a belíssima “Make Believe”, grata surpresa que não havia rolado no show do festival. Os gritos hiperagudos do cantor competem com os bends da guitarra, um nível absurdo de composição que só poderia mesmo ter sido criado pelo Maestro. Para encerrar o primeiro ato, a banda traz ainda uma canção do aclamado “Temple of Shadows” – “Waiting Silence”, servindo como um prenúncio do segundo ato e aquecendo o público para a chegada do segundo cantor. 

E assim, as luzes se apagam e a plateia começa a chamar pelos membros da segunda era – desde “Kiko, Kiko, rárárá” até Edu e Aquiles, e quando entra o VS de“In Excelsis”, o Unimed inteiro grita de emoção. Finalmente, a formação original de Rebirth entra em palco, e “Nova Era” chega quebrando tudo, com todos pulando e cantando juntos. O carisma de Edu é imbatível – o cantor é ovacionado ao final da música. Seguindo a ordem do álbum, já se sabe qual é a próxima, mas o holofote ilumina o piano e revela que a bela introdução de “Millenium Sun” será executada por ninguém mais, ninguém menos que Kiko Loureiro, que faz ainda um breve improviso antes de começar. O músico demonstra que também evoluiu nos backing vocals do refrão – à época do lançamento, o guitarrista ainda era bastante tímido com o microfone. Antes de ir pra próxima, Edu pede à produção que acenda as luzes da casa para que ele possa ver o público, e pergunta quem dos presentes não havia estado no Bangers, se surpreendendo ao descobrir que a maioria realmente estava ali testemunhando a reunião pela primeira vez.

O setlist segue com“Acid Rain” e seu imponente coral, do qual a galera participa junto, seja cantando ou gritando “hey! hey! hey!”. Ao final, Edu ressalta a importância do Rebirth como álbum que introduziu a banda a muita gente, e que é uma honra para ele estar ali celebrando também os 35 anos do Angra e de sua própria carreira musical. O frontman exalta ainda Alirio como o “grande irmão” que dará continuidade ao legado que começou a ser construído por Rafael e Andre. O show segue então com a balada “Heroes of Sand”, com uma finalização acelerada de Aquiles, e “Unholy War”, na qual Edu capricha na execução de alguns gritos finais que levantam a galera. Rafael então retoma o microfone e agradece aos que tornaram esse evento possível – a organização do Bangers Open Air, os fãs, que lotaram o Unimed como poucos eventos, e todos os que já passaram pela história da banda. Já munido de um violão, frisa ainda que na vida, há momentos em que a gente precisa se reinventar pra seguir adiante, momentos de renascimento em que é necessário rever o que precisamos mudar em nós mesmos… e assim puxa a canção-título do álbum em um dos pontos mais altos da noite – nem mesmo uma falha na bateria de Aquiles bem na entrada do solo foi capaz de tirar a magia que só um hino desses proporciona. Por falar em Aquiles, antes de concluir o setlist de Rebirth, tivemos o solo do PsychOctopus, um prato cheio para os amantes de bateria. Talvez por mais essa quebra de setlist ou pela faixa ser meio “lado B”, a subsequente “Judgement Day” não empolga; “Running Alone” já tem uma recepção melhor e o tesouro relembra a todos o porquê é tão reconhecido mundialmente, unindo precisão e feeling tanto nos riffs quanto nos solos.

Para encerrar o Rebirth, vem a bônus “Bleeding Heart”, e Edu brinca dizendo que ela foi responsável pela concepção de muita gente, já que furou a bolha e virou hit nacional também na versão do grupo de forró Calcinha Preta, do qual o cantor fez uma participação na gravação de um DVD há alguns anos. Assim, uma parte da estrofe é cantada em bom e velho português, provando que a boa música supera barreiras. Os fãs acendem as lanternas dos celulares e cantam juntos a plenos pulmões. Figuram ainda no Ato II uma faixa doAurora Consurgens, de 2006 – ofuscado à época pela repercussão do álbum anterior -, a sombria e densa “Ego Painted Grey”, e, em oposição, a explosiva “Spread your Fire!”. Nessa última, Edu passa por alguns momentos tensos para manter as frases altas, e teria agregado muito terem convidado uma cantora para participar dos backings, mas ainda assim, sendo uma das preferidas dos fãs, fecha o segundo bloco do show em grande estilo. É uma pena não terem aproveitado a ocasião para executar alguma do EP Hunters and Prey, da mesma era. Cabe ainda ressaltar aqui que entre as execuções dessas músicas, houve pedidos de “Saint Seiya“, faixa tema da abertura de Os Cavaleiros do Zodíaco e que Edu gravou, mas o pedido não foi atendido.

Enquanto os músicos se retiram do palco para a montagem do terceiro e último ato, ecoam gritos de “Ole, ole, ole, ola, Angra, Angra!”. O primeiro a retornar é Rafael, para um número solo acústico da faixa que deu início a tudo – “Reaching Horizons”, a qual ele comenta que virou o lema da banda: buscar sempre alcançar mais pessoas através da música. Antes de iniciar, porém, o músico briga um pouco com o violão, que foi entregue desafinado e ainda teve problemas de chiado, atrasando a apresentação em alguns minutos. Claro que a voz de Andre dos anos 90 é inigualável, mas Rafael dá seu melhor, e a plateia ajuda cantando o refrão em coro. Essa foi a primeira parte da homenagem ao Maestro, e se alguns fãs já estavam emocionados aí, o restante também desabou em lágrimas quando o telão iniciou o vídeo do próprio Andre cantando “Silence and Distance” enquanto um holofote iluminava o piano vazio. Para a parte mais pesada da música, quase todos os músicos retornam ao palco, com a exceção de Aquiles; Edu e Alírio dividem os vocais, mas é o segundo que finaliza a emocionante faixa ao piano. A plateia aplaude e grita o nome do Maestro por alguns segundos. Enquanto o palco é preparado para a próxima, algumas pessoas já começam a se retirar do local devido ao horário – a infeliz escolha de uma quarta-feira para realizar um espetáculo tão longo comprometeu a parte do público que depende do transporte público para chegar em casa. Um violão é posicionado à esquerda e Kiko é recebido com gritos de “Tesouro!” para iniciar “Late Redemption”, na configuração do time que agora substitui Bruno por Aquiles. Como de praxe, o público canta em uníssono a estrofe em português, originalmente gravada por Milton Nascimento. Alírio enriquece os backing vocals junto a Rafael, tornando a faixa umas das melhores versões já executadas ao vivo.

Como não poderia deixar de ser, o segundo momento mais aguardado da noite para que todos pudessem voltar pra casa com a sensação de dever cumprido vinha agora, fechando com chave de ouro: “Carry On”, agora com equipe completa – sim, as duas baterias em ação simultaneamente, e os vocais primeiramente alternados, e posteriormente juntos, com Edu e Alirio abraçados para selarem o propósito dessa reunião, que é esquecer os resquícios do passado para seguir em frente. O telão ao fundo exibe trechos de vídeos de todas as eras da banda performando esse hino. Como em todo o restante do show, fez falta a presença de um tecladista, pois a faixa conta com um longo e marcante solo, no qual o destaque acabou ficando para as linhas de baixo de Andreoli, já que o instrumento estava ausente. Mas sem dúvida, a visão de todos esses caras juntos se divertindo é algo memorável, dado o histórico por vezes conturbado, o que é natural em bandas de carreira tão longínqua. O time permanece no palco por diversos minutos após o final da música icônica, e sob aplausos e ao som da linda “Visions” no VS ao fundo, vão se despedindo e agradecendo os fãs, entregando palhetas e outros souvenirs. Lentamente, seja pelo cansaço físico, pela lotação ou pela sensação de anestesia pós uma montanha-russa de sensações, a casa vai esvaziando, mas os corações dos fãs saem repletos de boas recordações.

Setlist:

Nothing to Say

Angels Cry

Tide of Changes 

Lisbon

Vida seca

Wuthering Heights

Carolina IV

Solo Bruno Valverde

Make Believe

Waiting Silence

Nova Era

Millennium Sun

Acid Rain

Heroes of Sand

Unholy Wars

Rebirth

Solo Aquiles Priester

Judgement Day

Running Alone

Bleeding Heart/Agora Estou Sofrendo

Ego Painted Grey

Spread Your Fire

Reaching Horizons (acústica)

Silence and Distance

Late Redemption

Carry On

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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