Black Sabbath: 37 anos de “Headless Cross”
Há 37 anos, em 17 de abril de 1989, o Black Sabbath lançava “Headless Cross“, o 14° álbum da banda que criou o Heavy Metal, e é tema do nosso bate-papo desta sexta-feira.
Este é o primeiro álbum do Black Sabbath a ser lançado por um selo diferente da Vertigo, pela qual a banda tinha lançado todos os álbuns desde a sua estreia. O Black Sabbath fechou com a I.R.S. Records, após Tony Iommi conhecer Miles Copeland, que era o dono do selo. E de acordo com o livro autobiográfico de Tony Iommi, “Iron Man: My Journey Through Heaven and Hell with Black Sabbath“, ele escutou uma frase do dono do selo que o convenceu a fechar um acordo. Vamos abrir aspas para a fala de Miles Copeland:
“Você sabe como criar álbuns, você sabe o que as pessoas querem. Você o faz e estou de bem com isso.”
Em uma entrevista, Iommi explicou porque assinou com a I.R.S. Records, selo pelo qual o Sabbath gravou os álbuns posteriores, à exceção de “13“, o último disco de estúdio, que marcou o retorno da banda à Vertigo. Vamos reproduzir a fala do guitarrista sobre o então novo projeto:
“Ele foi o motivo para eu assinar o contrato. Porque todas as outras gravadoras que estavam interessadas [na banda] também queriam envolvimento artístico. Eu não queria isso. Eu queria fazer meu negócio por conta própria, e Miles percebia isso. Ele disse: ‘Olha, você sabe como o Black Sabbath tem que ser.’ E eu gostei da forma que ele abordou isso. Assim que assinei o contrato, Miles, por mais que quisesse, não se envolveu.”
Este é o segundo álbum a contar com o vocalista Tony Martin, mas o desejo de Iommi era trazer Ronnie James Dio de volta, mas o retorno do vocalista só aconteceria alguns anos mais tarde. O baterista britânico Cozy Powell, que já havia tocado com o Whitesnake e Jeff Beck, foi contatado e como ele aceitou a proposta, os dois iniciaram o processo de composição das novas canções.
Nesta época, Tony Iommi recebeu uma ligação de Gloria Butler, esposa e empresária de Geezer, dizendo que seu esposo queria retornar ao Black Sabbath. Mas Geezer só voltaria em 1992, junto com Dio, no álbum “Dehumanizer“. Quem tocou o baixo nas gravações foi Lawrence Cottle. Ele até participou da gravação do videoclipe para a faixa-título, mas não é creditado como membro da banda, nem tampouco aparece nas fotos do encarte. Tony Martin toca baixo na faixa “Devil and Daughter“. Para a turnê, o baixista foi Neil Murray, que ficou para o álbum posterior, “Tyr” (1990).
Tony Iommi se viu obrigado a alterar o título se suas canções deste álbum: “Call of The Wild” deveria se chamar “Hero” e “Devil and Daughter” deveria se chamar “Devil’s Daughter“. A razão para as alterações nos títulos das duas canções foi porque Ozzy Osbourne havia lançado seu álbum solo, “No Rest for the Wicked“, no ano de 1988, duas canções com o mesmo nome.
Este é o primeiro álbum do Black Sabbath a contar com todas as letras trazendo como temas centrais, o ocultismo e o satanismo. As músicas “Devil & Daughter“, “Kill in the Spirit World” e o lado B “Cloak & Dagger” reutilizam letras da música “Valley of the Kings” da banda Blue Murder, que foi escrita por Tony Martin durante sua curta estadia lá.
“Headless Cross” é o nome de uma pequena vila perto de Birmingham, no distrito de Reddich, na Grã-Bretanha, que foi devastada pela Grande Peste de 1665. Durante a pestilência, as pessoas iam até a colina e oravam a Deus, pedindo ajuda. Ninguém sobreviveu. A faixa-título é vagamente baseada neste trecho da história.
A faixa “Black Moon” trata-se de uma regravação da música que foi lançada no single intitulado “The Shining“, lançado pouco antes do álbum “The Eternal Idol” (1987). A canção ficou de fora do álbum anterior, mas acabou sendo reaproveitada e aparece aqui no nosso aniversariante do dia.
A banda se reuniu no Woodcray Studios, localizado na cidade de Workingham, na Inglaterra, e eles ficaram por lá gravando o álbum entre os meses de agosto e novembro de 1989. A produção ficou a cargo da dupla Tony Iommi e Cozy Powell. Brian May, guitarrista do Queen, foi convidado e gravou o solo para a faixa “When Death Calls“.
O vocal em “Nightwing” é, na verdade, o vocal guia ou o vocal demo feito em uma única tomada, e Tony Martin queria regravá-lo, mas Cozy Powell ficou satisfeito com o vocal e queria que continuasse assim. Após uma breve discussão entre Martin e Powell, o batera lhe deu a oportunidade de gravar mais duas tomadas, mas Martin não conseguiu passar da primeira.
Colocando a bolacha para rolar, o Black Sabbath nos apresenta um álbum com 8 canções, tendo duração total de 42 minutos, onde a banda destila um Hard ‘n’ Heavy de muita qualidade. Os destaques são para a faixa-título, “Devil and Daughter” e “When Death Calls“. Foi muito bem recebido pela crítica e público e foi eleito o melhor álbum do Black Sabbath depois de alguns anos.
O álbum figurou em algumas paradas de sucesso mundo afora: foi 18° na Alemanha, 22° na Suécia, 23° na Suiça, 28° na Finlândia, 31° no Reino Unido, 66° no Japão, 71° nos Países Baixos e 115° na badalada “Billboard 200“. No ano passado, o álbum apareceu nas paradas gregas, ocupando a honrosa 65ª posição. Foi certificado com Disco de Ouro no Reino Unido.
A banda saiu em turnê no verão do hemisfério norte, com uma série de dez apresentações pela América do Norte, com abertura das bandas Kingdom Come e Silent Rage. Em setembro de 1989, eles partiram para mais dez shows pelo Reino Unido e na parte continental da Europa. Em duas apresentações por lá, Ian Gillan subiu ao palco para uma participação especial no bis. Em outubro, eles partiram para o Japão, onde fizeram seis apresentações e em novembro, a turnê se encerrou na antiga União Soviética, sendo a primeira banda a tocar por lá desde que o então presidente Mikahil Gorbachev abriu o país para artistas ocidentais. O Sabbath tocou por 25 dias em Moscou e Leningrado. Datas haviam sido agendadas para shows na Polônia, Tchecoslováquia e Alemanha Oriental, mas o clima político nestes países comunistas não era o dos mais amigáveis e o Black Sabbath acabou não passando por estes países. Em entrevista, Tony Martin lembrou que a ficha demorou para cair. Aspas para ele:
“Eu não estava na banda há tanto tempo assim. Após ‘The Eternal Idol’, fomos direto para ‘Headless Cross’. Então eu ainda não tinha certeza do que estava fazendo e tentava me situar. Fomos direto para o disco após retornar daquela pequena turnê [de vinte datas ao todo]. Eu ainda não tinha conseguido uma boa oportunidade de socializar com os outros caras. Fomos direto para o processo. E foi apenas quando tocamos em Moscou, Leningrado, esses lugares, durante a turnê ‘Headless Cross’, que eu meio que entendi onde estava. Eu estava no Black Sabbath, mas a ficha só caiu dois anos e meio após eu entrar na banda. Eu estava ocupado demais. Eu meio que só ia com o embalo.”
Em 2024, o álbum foi relançado como parte do box set Anno Domini 1989–1995. Foi a primeira vez que “Headless Cross” foi oficialmente relançado, com direito a uma faixa-bônus, “Cloak and Dagger“.
Da formação que compunha o Sabbath neste álbum, só estão vivos Tony Iommi e Tony Martin. Cozzy Powell nos deixou em 1998 e Geoff Nicholls se foi em 2017. O Black Sabbath fez seu show de despedida em 5 de julho do ano passado, dezessete dias antes da morte de Ozzy Osbourne. Então hoje é dia de celebrar esse disco um tanto quanto menosprezado. O Black Sabbath é o pai do Heavy Metal e sem eles, nada do que curtimos hoje em dia existiria.
Headless Cross – Black Sabbath
Data de lançamento – 17/04/1989
Gravadora – I.R.S. Records
Faixas:
01 – The Gates of Hell
02 – Headless Cross
03 – Devil and Daughter
04 – When Death Calls
05 – Kill in the Spirit World
06 – Call of the Wild
07 – Black Moon
08 – Nightwing
Formação:
- Tony Iommi – guitarra
- Tony Martin – vocal/ baixo em “Devil and Daughter“
- Geoff Nicholls – teclado
- Cozzy Powell – bateria
Participações especiais:
- Laurence Cottle – baixo
- Brian May – solo de guitarra em “When Death Calls”
