Como o nu-metal se tornou a voz de um vampiro em “A Rainha dos Condenados”
Quando o vampiro Lestat acordou em um tempo diferente do seu, os acordes de uma guitarra vindo de uma TV sintonizada na MTV o impressionaram e ele sabia o que queria; ser um rockstar.
Essa poderia ser a premissa de muitos e muitos jovens, mas foi a escolhida por Anne Rice no livro “O Vampiro Lestat“, segundo das Crônicas Vampirescas, iniciada com o clássico “Entrevista Com o Vampiro“. O primeiro livro ganhou uma adaptação que se tornou cult, estrelada por Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas e uma Kirsten Dunst em início de carreira ainda criança, e até hoje é tido como um clássico de filme de vampiros e um dos melhores do gênero.
Uma sequência então foi pensada, e se transformou em “A Rainha dos Condenados“, que na versão para as telonas misturava o segundo e o terceiro livro das Crônicas, que tem o mesmo nome do filme. Desta vez, sem nenhum envolvimento de Anne, que acompanhou de perto a produção de “Entrevista…”, as coisas começaram a não darem muito certo com a troca total do elenco, então, nenhum nome do anterior está por aqui. Stuart Townsend é quem dá vida a Lestat, e mesmo se não colocarmos em paralelo com a magistral atuação de Tom Cruise no original, as coisas ficam complicadas por aqui com tantas caras e bocas da então nova cara de Lestat. A cantora Aaliyah dá vida (ou morte) a rainha Akasha, a mãe de todos os vampiros na literatura de Rice e que aqui se limita a se requebrar como a Cleopátra do Chapolin e com uma dentadura que não lhe cabe na boca. Fora apagamento de personagens importantíssimos para aquela mitologia como Armand, Louis e outros, que nem sequer seus nomes citados tem durante o filme, tendo somente seu nome nos créditos.
Mas o foco deste artigo não é tratar sobre o filme em si, mas em sua trilha sonora. Sendo um dos maiores nomes do período de lançamento do filme, o Korn havia explodido para o mundo com seu então último disco “Issues“, vendendo números absurdos, angariado diversos prêmios e encabeçado diversos Top’s, um contrato com a Sony rendeu ao vocalista Jonathan Davis a possibilidade de dar vida ao lado artístico de Lestat.
Em meio a produção de “Untouchables“, Jonathan se juntou a Richard Gibbs para escrever as composições, que resultaram em “Forsaken“, “System“, “Redeemer“, “Slept So Long” e “Not Meant For Me“. No estúdio, as músicas tiveram auxílio de músico como Head e Munky do Korn, Sam Rivers, baixista do Limp Bizkit e Terry Bozzio.
Em entrevista, Gibbs contou que as músicas começaram a ser produzidas antes mesmo da escolha do elenco:
Descobrimos que Jonathan Davis estava muito interessado em expandir seus horizontes e compor a trilha sonora. Nós já estávamos envolvidos antes mesmo de começarem a escalação do elenco. Tivemos que começar a trabalhar na música antes das filmagens, antes mesmo de saber quem faria cada papel. Basicamente, definimos o clima do filme.
Jonathan comenta sobre o processo de composição:
Escrevemos algumas músicas quando estávamos na cidade e outras enquanto estávamos na estrada. Eu e Rich compusemos algumas canções viajando a 80 km/h, no fundo do ônibus da turnê, às duas da manhã, na New Jersey Turnpike, tentando tocar ali mesmo, no improviso. No fim, tudo se juntou e ficou com uma vibe rock. Richard trouxe algo completamente diferente, que me fez pensar de outra forma. Foi além do que eu normalmente faria.
Durante o longa, Lestat realiza o concerto que mostra ao mundo a sua banda, e na ocasião, as músicas “Slept So Long” e “Not Meant For Me” são apresentadas com a voz do próprio Jonathan Davis, porém, quando o CD da trilha foi lançado, as coisas foram modificadas.
Como dito, o Korn tinha um contrato com a Sony para a gravação do seu novo disco “Untouchables“, e isso fez com que os engravatados da empresa temessem que a voz do cantor da banda em um lançamento antes do álbum afetasse suas vendas e decidiu por não lançar a trilha com a voz original como visto no filme.
Jeff Scott Soto foi chamado para interpretar as faixas e dar voz ao disco físico, mas as ideias acabaram não fechando e o contrato não foi feito. A ideia então veio de Jonathan chamar alguns amigos para regravar as faixas, assim sendo ficaram David Draiman do Disturbed com “Forsaken“, Chester Bennington do Linkin Park em “System“, Marilyn Manson fez “Redeemer“, Wayne Static do Static-X fez “Not Meant For Me” e Jay Gordon do Orgy ficou com “Slept So Long“. As faixas originais na voz de Davis foram lançadas como bônus da versão em DVD do longa.
Um dueto entre Jonathan Davis e Aaliyah foi programado para ser gravado, mas acabou não acontecendo. A faixa “Careless (Akasha’s Lament)” acabou não entrando na versão final do disco, mas foi lançada posteriormente no ITunes e Amazon, e foi tocada ao vivo na primeira tour solo de Jonathan, Alone I Play. Outras duas músicas foram escritas ainda, mas não foram gravadas.
Além das faixas principais, o disco conta ainda com músicas do Deftones, Dry Cell, antiga banda do vocalista Jeff Gutt que atualmente está no Stone Temple Pilots, Disturbed, Static-X e mais.
Além das músicas, Jonathan Davis faz uma participação no filme. Em um trecho, ele surge como um cambista oferecendo ingressos para o show de Lestat na porta do local.
Uma trilha que acabou marcando mais do que o próprio filme e colocando o nu-metal aliado ao gótico sendo a voz de um vampiro.
