Crítica: “Andar na Pedra – A História do Raimundos”

Estreou no último dia 19 na plataforma Globoplay, a série documental “Andar na Pedra – A História do Raimundos“, que conta com riqueza de detalhes e com um vasto arquivo de imagens, a meteórica ascenção da banda brasiliense, que criou uma nova vertente na música pesada: o forrócore, que misturava o Hardcore com o principal ritmo nordestino. 

Produzida pelo diretor Daniel Ferro e dividida em 5 episódios, de uma hora cada um, a série conta com declarações dos quatro integrantes da formação clássica. A exceção foi Canisso, que já havia falecido quando as gravações começaram, então, foram utilizados áudios de entrevistas realizadas com ele. Pessoas que tiveram importância na história da banda, como Gabriel Thomas (ex-guitarrista/ vocalista do Little Quail and the Mad Birds), Zé Ovo (ex-baixista do Little Quail), Guilherme Bonolo (ex-assistente), Telo (vocalista da banda Filhos de Mengele), a viúva de Canisso, Adriana Toscano, Carlos Eduardo Miranda, entre outros. 

Os episódios são contados na ordem cronológica, e começa com Digão contando como conheceu Rodolfo e que ambos tocavam bateria, o que fez com que se aproximassem. A história prossegue com a primeira apresentação, acontecida na casa de Gabriel Thomas, ainda na década de 1980, o fim da banda e depois a reunião, contando com Fred na bateria, já que Digão foi diagnosticado com um problema auditivo e foi proibido de tocar o instrumento. 

Os integrantes falam sobre as histórias curiosas, e o irmão de Rodolfo também citou algumas passagens de letras de músicas utilizadas pelo vocalista, como a frase de “Rapante“, onde uma voz diz “eu falei que isso é uma porra”, que é uma frase atribuida ao pai de Rodolfo ao descobrir que ele era usuário de maconha. O irmão também conta a história da música “Pitando no Kombão“, em que a Kombi em questão pertencia à mãe deles. De dia ela utilizava para fazer campanha eleitoral e à noite, virava palco de uso de maconha, direção perigosa, acompanhada de muita música tocada no violão. 

O diretor disse que a ideia do documentário era entender a razão que levou Rodolfo a sair da banda no momento de maior sucesso. E ele encontrou essa resposta. O vocalista deu depoimentos bastante sensatos, e afirmou que viveu o sonho, mas concluiu que não era o que ele achou, pois tudo o que ele fazia era fumar maconha e se apresentar com a banda, sem guardar dinheiro, sem preocupação com a alimentação e saúde. Além da popularização da banda, que descaracterizou o tipo de fã do Raimundos, que ajudou a decepcionar o Rodolfo quando ele alcançou o sucesso. 

A amizade também foi muito afetada pelos problemas vividos pela banda. Muitos dos problemas podem ser atribuídos ao Digão, que sempre foi um sujeito polêmico. Não foi somente dele, os outros integrantes também oscilavam altos e baixos. A situação chegou em tal ponto que o diretor precisou de cinco anos de muita negociação e conversas individuais para convencer a participação de cada integrante. Rodolfo se reencontrou com Digão e Fred, em separado, e parece que eles se resolveram. Mas Canisso partiu sem resolver as discordâncias políticas do ex-companheiro. 

A série conta as sessões de gravação com o renomado produtor Mark Deanrley, nos Estados Unidos, traz imagens realizadas nas duas passagens da banda por lá, a crise de criatividade que afetou Rodolfo, quando a banda meio que deixou de lado os temas engraçados, quando enfatizou a crítica social, e também conta o triste episódio acontecido no show do lançamento do álbum “Lapadas do Povo“, quando oito pessoas morreram em um acidente causado por negligência do clube que recebeu o show. 

A parte final foca no Rodolfo falando sobre o período em que ele se sentia perdido, já se envolvendo com o evangelho e brigando consigo, vivendo uma vida que, em suas palavras, não lhe pertencia mais. A esposa de Rodolfo conta sobre como ela e as “irmãs” convenceram Rodolfo a mudar de vida. O vocalista afirmou que inclusive, vendeu os direitos que ele tinha sobre as músicas, enterrando de vez a polêmica de que ele vivia dos royalties de algo que ele não mais compactuava. 

Há uma breve pincelada sobre o Rodox, banda que o vocalista criou após a saída do Raimundos, e que acabou não dando certo, pois à exceção de Rodolfo, todos os músicos são do meio secular, e há uma breve menção sobre o atual status do Raimundos, com uma formação completamente diferente daquela que ficou conhecido. Só não foi citado, provavelmente por ser um assunto recente, a acusação de Adriana Toscano de que ela não tem recebido os direitos referentes a shows que a banda vem realizando e ela afirma ter um contrato que assegurava esse repasse. 

A série se aprofunda na relação interpessoal dos integrantes e esclarece o que muitos fãs não conseguiram entender na época. Rodolfo diz não ter mágoas e afirmou que não se arrependeu de responder em público o que seus ex-colegas diziam. E para quem acompanhou a banda na época, como este redator que vos escreve, foi uma sensação muito boa, de reviver o passado, e um filme passa na cabeça enquanto as imagens vão ilustrando e você lembra de uma época sem grandes responsabilidades, comum a um adolescente. E mostra que tudo na vida tem começo, meio e fim.

Se você já assistiu, provavelmente está repetindo a dose e dando play novamente nos episódios. E se ainda não assistiu, tá perdendo tempo. Corra lá e assista, porque vale muito a pena. E provavelmente você vai maratonar os cinco episódios de uma vez. 

NOTA: 8.0

Flávio Farias

Fã de Rock desde a infância, cresceu escutando Rock nacional nos anos 1980, depois passou pelo Grunge e Punk Rock na adolescência até descobrir o Heavy Metal já na idade adulta e mergulhar de cabeça na invenção de Tony Iommi. Escreve para sites de Rock desde o ano de 2018 e desde então coleciona uma série de experiências inenarráveis.

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