Entrevista: Sammy Elbanna, vocalista do Lost Society fala sobre Children of Bodom, seus ídolos filandeses e mais

Por: Fernando Queiroz

A Finlândia é um celeiro de bandas de metal em muitas vertentes: do power ao sinfônico, do death ao black, do gótico ao progressivo, não faltam opções. Quando entramos no campo do metalcore, a coisa muda de figura; é difícil achar uma banda desse gênero vinda do país urálico mais ao norte do mundo. A exceção fica por conta do Lost Society, uma das mais recentes a aparecer no cenário finlandês, que acabou de lançar seu sexto disco de estúdio, “Hell Is a State of Mind“.

Mais recentemente, a banda ganhou tração com por um fato histórico, relacionado a um lendário grupo do país que ensaia sua volta: o Children Of Bodom! Samy Elbanna, vocalista e guitarrista do Lost Society foi anunciado no posto do falecido Alexi Laiho em retorno – até o momento apenas pontual – dos gigantes do death metal. Sua performance foi extremamente elogiada pelo público e pela crítica, e isso ajudou a alavancar o nome do conjunto que o projetou.

Agora, em entrevista ao Confere Rock, Samy fala sobre o último disco e o que vem a seguir para o Lost Society, sobre seus ídolos no metal finlandês – incluindo nomes inusitados –, e um pouco sobre a ocasião de tocar com o Children Of Bodom. Confira.

Confere Rock: Samy, poderia nos explicar um pouco dos temas e o conceito presentes em Hell Is a State of Mind?

Samy Elbanna: Claro! Muita gente talvez saiba que o disco anterior que fizemos, If the Sky Came Down, foi basicamente baseado em um diário meu. Eu estava passando por um período muito difícil da minha vida e sinto que aquele álbum, e o processo de escrevê-lo, realmente me ajudaram a sobreviver àquele momento. Para este novo disco, estar em uma espécie de página em branco me ajudou, porque consegui olhar para aquela situação de outro ponto de vista. Eu já não estava mais dentro da história, estava ao lado dela, podendo olhar para trás. Este álbum fala mais do que nunca sobre fortalecimento e autoaceitação, porque conta a história de um protagonista que desperta em uma vida após a morte e passa por diversas observações e obstáculos. No fim, como o próprio título diz, Hell is a State of Mind, ele percebe que aquele lugar que parecia definitivo, aquele lugar do qual parecia não haver volta, pode na verdade ser um espaço de renascimento, um lugar puro que permite começar tudo novamente. Para mim, é interessante porque reúne dois extremos. De um lado, é um disco muito pesado — afinal, somos uma banda de metal, mesmo com várias outras influências musicais. Por outro, a mensagem é extremamente positiva e fortalecedora. Acho que isso cria uma história muito legal. Espero sinceramente que quem ouvir o álbum do começo ao fim ganhe um pouco mais de confiança e talvez uma nova perspectiva sobre alguma situação que esteja vivendo.

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Confere Rock: E sendo uma página em branco, como você disse, diria que o processo de composição e produção mudou muito?

Samy Elbanna: Sabe, para nós, sempre tentamos nos estabelecer como uma banda que não segue necessariamente tendências sonoras. Porque, se você pensar no metal moderno em 2026, existe uma paisagem sonora bem específica que aparece em muitos discos, especialmente naquele universo mais ligado a Spiritbox,Falling in Reverse eI Prevail. Tudo acaba sendo construído a partir de elementos muito parecidos. Nós quisemos nos afirmar como uma banda que busca algo mais orgânico. Não é uma crítica a ninguém, mas sentimos que, se temos a oportunidade de gravar baterias ao vivo, guitarras com amplificadores reais e dedicar tempo para mixar e lapidar toda a produção, sempre vamos escolher esse caminho. Quando você ouve um disco do The Jimi Hendrix Experience hoje, ele ainda soa atual. Mas às vezes você escuta um álbum lançado há apenas cinco anos e ele já pode parecer datado, justamente por seguir tendências sonoras muito específicas que estavam em alta naquele momento. Acho que isso também vem naturalmente para nós, porque amamos bandas de uma época em que cada disco tinha personalidade própria. Se você pegar qualquer álbum do Iron Maiden, do Judas Priest, do W.A.S.P. ou do Alice Cooper, todos soam como eles mesmos, e não uns como os outros. E foi exatamente nessa direção que, conscientemente, quisemos seguir.

Confere Rock: Acho que essa tendência de voltar a algo um pouco mais analógica funciona muito bem.

Samy Elbanna: Com certeza. Acho que o segredo, ou a forma como abordamos as coisas, é que não vamos gravar tudo em fita. Vamos usar Pro Tools, vamos usar equipamentos modernos para alcançar uma sonoridade com sensação analógica. Nós também abraçamos os tempos modernos, mas gostamos de demonstrar respeito pelas pessoas que nos inspiraram a fazer o que fazemos hoje.

Confere Rock: A formação da banda pouco mudou em dez anos, com exceção de um baterista. Como você explica essa estabilidade toda que vocês têm, num momento que muitas bandas vêm mudando constantemente de integrantes?

Samy Elbanna: Para ser sincero, acho que, antes de tudo, é a amizade. Nada disso teria acontecido se simplesmente não nos déssemos bem de verdade. E, além disso, claro, existe toda a musicalidade. Nós nos apreciamos e nos respeitamos como músicos, porque acho que todo mundo nesta banda é absurdamente talentoso. Nós simplesmente adoramos tocar juntos, fazer turnê juntos e passar tempo juntos. Então é quase uma aliança profana, porque, de certa forma, ser músico é uma das coisas mais instáveis que alguém pode escolher para a própria vida. Existem muitas variáveis e muitas situações que colocam à prova a paciência e a própria essência da banda. Mesmo quando houve a troca de baterista, foi engraçado, porque eu já tinha uma pessoa em mente, alguém que eu conhecia há tanto tempo quanto conhecia os outros integrantes. Ele entrou e imediatamente se tornou nosso melhor amigo. No fim, é uma combinação de muitas coisas, mas acima de tudo o núcleo sempre precisa ser a amizade verdadeira entre nós. Acho que essa é a essência de tudo na vida.

Confere Rock: Acho que o Lost Society é uma banda que foge bastante dos padrões que estamos acostumados no metal finlandês. Você acha que no começo houve algum preconceito em relação a vocês na cena finlandesa do gênero?

Samy Elbanna:  Sinceramente, sinto que uma das coisas que sempre nos diferenciou, e ainda diferencia, é que somos pessoas muito instintivas. Sempre seguimos aquilo que soa bem para nós, em vez de ficarmos olhando demais para o que está acontecendo ao nosso redor. Mesmo lá no começo, quando escrevemos nosso primeiro álbum, o thrash metal não era algo comum na Finlândia. Claro, existiam bandas historicamente importantes como Stone ou A.R.G., mas quando começamos, não procuramos ninguém em busca de orientação. Apenas sentimos que era aquilo que queríamos fazer. E isso continua até hoje. A cada disco, quando introduzimos novos elementos e influências, não buscamos direção externa. Perguntamos apenas a nós mesmos: o que queremos fazer agora? Pegamos uma guitarra, começamos a compor, e o que surge naturalmente acaba definindo o caminho. Bandas comoNightwish,HIM e Children of Bodom criaram algo totalmente próprio. Elas conseguiram isso misturando ideias malucas que ninguém tinha pensado em combinar antes. Durante muito tempo, porém, muitas bandas de metal seguiram outro caminho: alguém cria algo novo e milhares passam a copiar a mesma fórmula. Nós preferimos ouvir uns aos outros e a nós mesmos, em vez de simplesmente seguir o que está em alta. Talvez seja porque escutamos muita música de fora da Escandinávia ou da Europa, ou talvez porque nossas influências sejam diferentes. Mas concordo que o Lost Society sempre abraçou um som um pouco distinto daquele padrão nórdico ao qual muita gente está acostumada.

Confere Rock: Se você for comparar a cena finlandesa hoje em dia com o como era nos dias antigos, você acha que mudou muito?

Samy Elbanna: Acho que sempre existiram bandas fundamentais na cena, e elas continuam aí até hoje. Você tem nomes como Insomnium, Battle Beast e, um pouco mais tarde, Beast in Black. Bandas desse universo sempre estiveram presentes desde que entramos na cena, e nesse sentido sinto que ela continua tão vibrante quanto antes. Mas essa conversa também exige olhar para as bandas mais jovens. Tenho a impressão de que hoje existem muito mais garotos começando do que naquela época. O mais legal é ver que há muitas bandas jovens de death metal surgindo na Finlândia, especialmente em Helsinque. Isso é muito interessante porque é um estilo meio incomum para jovens escolherem atualmente. Assim como no resto do mundo, muitos acabam indo para o rap, o pop ou para produzir beats e coisas do tipo. Então perceber que existe uma nova geração mergulhando naquele death metal clássico, no estilo antigo da Flórida, é realmente muito legal.

Confere Rock: Recentemente você fez apresentações com o Children of Bodom, que foram muito elogiadas. Como é a sensação, para você, de estar no lugar de uma lenda como o Alexi Laiho? Você sente uma pressão grande?

Samy Elbanna: Tudo o que posso dizer sobre isso é que me sinto extremamente honrado por a banda ter me escolhido para essa posição. Claro que estou muito animado com tudo isso, mas também tenho dito a todos que precisamos lembrar do fato triste de que a razão pela qual estou envolvido neste projeto é trágica. Obviamente ninguém gostaria que aquilo tivesse acontecido. Sou muito grato pela oportunidade e, dentro das minhas possibilidades, vou fazer o meu melhor para honrar essa situação.

Confere Rock: Há a possibilidade do Lost Society vir ao Brasil em algum momento em breve?

Samy Elbanna: Sinceramente, gostaria de poder dizer que já temos planos definidos, porque entendo perfeitamente que existem muitos fãs e muitas pessoas que gostariam de nos ver por aí. E, sendo honesto, se dependesse apenas de nós, já estaríamos pegando o primeiro voo para ir tocar aí. Mas sempre entram aqueles motivos mais burocráticos da indústria, como orçamento, logística e coisas do tipo. Espero muito que, agora com o novo disco, isso nos aproxime um pouco mais de finalmente irmos até aí. Muitos amigos nossos já tocaram por aí com suas bandas, todos adoram e sempre dizem que o público é extremamente respeitoso e apaixonado por música. Eu realmente mal posso esperar. Desde criança, quando assistia ao Rock in Rio, especialmente aos shows do Iron Maiden nas turnês Powerslave e Brave New World, sempre pensei que aquilo representava o auge absoluto de uma turnê. Espero de verdade que um dia aconteça. Aqueles dois shows do Iron Maiden foram históricos.

Confere Rock: Você vê a possibilidade de lançarem um DVD em algum momento? Quero dizer, é difícil ver DVDs hoje em dia, com o streaming e tudo, mas digo algum material audiovisual?

Samy Elbanna: Temos muita sorte de já possuir alguns vídeos filmados de forma bem profissional, gravados há alguns verões, em alguns shows maiores que fizemos em Helsinque. Eles basicamente estão esperando a oportunidade certa para serem lançados. Com o novo álbum, porém, eu adoraria fazer algo realmente profissional. Eu ainda chamaria de DVD, mesmo que hoje em dia quase ninguém mais assista a DVDs. Para mim, sempre vai ser isso, porque sinto que o novo disco combina muito com um universo mais teatral. Consigo imaginar a gente fazendo algo nessa linha do que bandas como Iron Maiden ou Ghost vêm fazendo. E com certeza eu adoraria realizar algo assim, se for possível.

Confere Rock: Bem, para terminarmos, você poderia citar cinco nomes do metal finlandês que te influenciaram no começo e ao longo de sua carreira?

Samy Elbanna: O primeiro é bem simples para mim: Alexi Laiho. Ele teve, sem dúvida, a maior influência musical e pessoal em tudo o que eu faço. Essa é uma escolha fácil. O segundo é Joonas Parkkonen, com quem escrevemos este disco e com quem trabalho há muito tempo. Ele é uma das pessoas, e especialmente dos músicos, mais talentosas que já conheci na vida. O terceiro é o meu irmão, porque sem ele me apresentar ao metal eu não estaria aqui hoje nem faria o que faço. Devo isso a ele. O quarto, pensando especialmente no espírito deste álbum, é Tuomas Holopainen, do Nightwish. A maneira como ele pensa a música e como leva suas ideias ao nível máximo é extremamente inspiradora. Mesmo que o estilo musical não seja igual ao nosso, a visão artística dele certamente influencia. E por último, essa é difícil… mas vou dizer Ville Valo. Ele é simplesmente um personagem único, daqueles músicos que aparecem uma vez na vida, com carisma, personalidade e música marcantes. Eu realmente adoro o trabalho dele.

O novo disco do Lost Society, “Hell Is a State of Mind“, foi lançado em 6 de Março do ano corrente, e pode ser conferido aqui:

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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