Living Colour incendeia o público carioca em noite de muita técnica, emoção e peso no Sacadura 154
Texto e Fotos: Ian Dias
O que começou como uma noite de apreensão e incerteza rapidamente virou uma verdadeira aula de rock n’ roll. Ao chegar aos arredores do Sacadura 154, o cenário não era dos mais animadores: nada de fila, pouco movimento e poucas pessoas circulando. Já lá dentro, a impressão se confirmou. Não havia nem 100 pessoas na pista para uma noite que tinha tudo para ser histórica.
Mesmo assim, a banda estadunidense Madzilla subiu ao palco sem economizar energia e conquistou quem estava ali. Com um som pesado e melódico, passeando entre o thrash e o metal clássico, o grupo entregou um set curto com apenas seis músicas, mas que mostro uma banda eficiente, perfeito para aquecer o público. O grande destaque foi o vocalista e guitarrista David Cabezas, que além de mostrar muita técnica na guitarra, demonstrou empolgação genuína por tocar no Rio pela primeira vez. Falando um português quase perfeito durante toda a apresentação, mostrou um respeito que muitos artistas que vêm ao Brasil há anos nunca tiveram. Todo sucesso do mundo ao Madzilla.




Depois de uma rápida troca de palco, pontualmente às 21h30, a “Marcha Imperial” começou a soar no PA e o público tratou de se aproximar. E vale dizer: a casa já estava bem mais cheia do que no início da noite. Com muita energia, especialmente do guitarrista Vernon Reid, o Living Colour entrou com tudo, iniciado com “Leave It Alone“, do disco “Stain“, de 1993 e um dos principais lançamentos do grupo.

O começo do show teve uma recepção um pouco tímida, mas isso foi mudando rapidamente conforme o set avançava e os clássicos iam aparecendo. Corey Glover impressiona. Aos 61 anos, segue com uma voz poderosa e uma entrega intensa em cada música. Sem economizar energia. A cozinha formada por Doug Wimbish e Will Calhoun foi um show à parte, segurando tudo com precisão, técnica e muito feeling.

“Memories Can’t Wait” foi o primeiro cover da noite, e o Living Colour mostra que sabe fazer tão bem os seus próprios sons como também covers, criado uma versão própria e cheia de identidade da música do Talking Heads. “Funny Vibes” é uma das mais bem recebidas pelo público e uma das composições mais intrincadas que o grupo já fez, com sua introdução mais rápida e uma mudança sonora “funkeada” na sequência, é uma aula de como a banda tem uma musicalidade exacerbada e reproduz isso fielmente nos palcos.
Ter a oportuidade de ver Glover cantando a clássica “Hallelujah” de Leonard Cohen é algo grandioso e é um momento em que o cantor abusa de sua voz, que se mostra pura e cristalina após tantas décadas de carreira.


A essa altura, os fãs já havia se entregado e a energia nas alturas. Houve tempo para um solo de bateria de Calhoun, que mostra suas habilidades grandiosas e um groove monstruoso. As faixas mais cadenciadas faziam o público balançar o corpo quase sem perceber, enquanto as mais pesadas renderam pulos e até pequenos moshs que deixaram o clima ainda melhor. Perto do fim, dava para ver como a banda estava confortável no palco, tanto que Corey literalmente se jogou sobre o público em “Cult of Personality”.

A música é o maior clássico que o Living Colour tem em seu extenso repertório e seus primeiros acordes fazem o público gastar o resto de forças que tem. A faixa tem ganhado mais força nos últimos anos devido ao contexto político que o mundo vem passando e sua letra que parece tão atemporal, seja para o bem ou para o mal, pois é triste vermos que mesmo 20 anos após seu lançamento, as coisas parecem ter andado para trás.

Por fim, ao som de “Solace of You”, em um clima intimista e envolvente, a banda encerrou mais uma apresentação de alto nível na Cidade Maravilhosa. Apesar de a casa não estar lotada, foi bonito presenciar a entrega dos fãs, que cantaram como se estivessem em um estádio. Com virtuosismo, potência e emoção, o Living Colour mostrou mais uma vez sua grandeza e entregou uma performance à altura de sua história. Ao final do show, comentários entusiasmados ecoavam por todos os cantos. E, de fato, foi um espetáculo memorável.
Agradecemos à Rider2, ao Sacadura 154 e à TopLink pelo credenciamento e pelo suporte na cobertura.





