My Chemical Romance esbanja teatralidade e lava a alma de gerações de fãs em encerramento do aguardado retorno ao Brasil
O último dia 06 de fevereiro, assim como o dia anterior (05), se tornaram um marco para diversas gerações de fãs do My Chemical Romance que estiveram presentes no Allianz Parque, na Zona Oeste de São Paulo, seja de quem viveu os anos 2000, seja de quem nasceu durante ou depois de tal década e conheceu a banda ao longo dos últimos anos. Foi a oportunidade de ouro para presenciar um show da banda de Nova Jérsei, Estados Unidos, em solo brasileiro, após muitos anos de espera e uma expectativa alimentada desde o retorno oficial do grupo, em 2019 e com o acréscimo mais que aclamado dos suecos do The Hives.
O show, apresentado pelo Banco Santander e organizado pela 30e, fez parte da turnê “The Black Parade 2026” e da sequência de apresentações que o MCR fez na América do Sul após (quase) 18 anos desde a última passagem, em fevereiro de 2008. Anteriormente ao Brasil, na atual turnê, a banda passou por Peru (Lima, 25 de janeiro), Chile (Santiago, nos dias 28 e 29 de janeiro) e Argentina (Buenos Aires, 01 de fevereiro) e encerrou na Colômbia (Bogotá, 10 de fevereiro).

Este retorno veio justamente no contexto dos 20 anos do terceiro e mais aclamado álbum de estúdio da carreira do My Chemical Romance, “The Black Parade”, lançado em outubro de 2006. Nisso, o quarteto remanescente, composto por Gerard Way, Mikey Way, Ray Toro e Frank Iero, além de Jarrod Alexander como baterista de turnê e mais três músicos para os shows, trouxeram a execução na íntegra do álbum junto a inserções teatrais que colocaram a banda em Draag, país fictício com idioma próprio, ambos criados para a turnê comemorativa; e que contou com atores selecionados e uma cantora de ópera. Após este ato, a banda explorou o repertório dos demais álbuns lançados, trazendo singles de sucesso e b-sides inesperadas – algumas diferentes do show do dia 05.
O resultado foi uma imersão perfeita no álbum, tanto na parte sonora, quanto na cênica, que fez com que o público mergulhasse em momentos de nostalgia, de emoções com as letras das músicas e com a alegria em ouvir todo o repertório daquela noite, além de presenciar bons discursos de Gerard Way – atuando no primeiro ato ou interagindo com o público no segundo -, faixas inesperadas ou, simplesmente, expondo o máximo do emo interior.
A recepção destes fãs foi mais que positiva com o Hives, que abriu o show. A banda, liderada por Pelle “Howlin’ Pelle” Almqvist, teve o público em suas mãos desde o primeiro passo dado no palco do Allianz Parque, misturando o setlist com faixas dos seus últimos dois álbuns, “The Hives Forever Forever the Hives” (2025) e “The Death of Randy Fitzsimmons” (2023), e sucessos dos quatro álbuns anteriores, deixando de lado apenas o primeiro, “Barely Legal” (1997). Foram repetições de versos, coros ditados por Pelle, pulos, balanços de mãos e palmas como elementos que animaram o início de noite e garantiram mais um degrau de popularidade e impacto da banda no Brasil.
Chuva, revista criteriosa e o choque geracional pré-show
Apesar de, diferentemente do dia anterior, as filas aparentarem menor tamanho em alguns setores que passei no Allianz Parque por conta da mudança de rota dos ônibus, foi nítido, a partir do momento que entrei no estádio, que a averiguação de segurança foi igualmente exigente. Isso contribuiu para uma certa demora na lotação dos setores de pista e nas arquibancadas.
Da mesma forma, a chuva, que apertou às 17h20, foi possivelmente um fator para que o todos os setores demorassem para encher. Sorte de quem trouxe capa de chuva na pista, azar – e coragem para enfrentar a chuva – de quem não levou, não comprou ou não conseguiu de alguém. Mas o milagre viria minutos depois.

Era possível, em todos os lugares, ver pessoas caracterizadas com alguma fantasia ou vestimenta que remetesse aos videoclipes do My Chemical Romance nos anos 2000, seja pelas tradicionais camisas da banda – da turnê ou não -, seja pelas fantasias de Helena, gravatas vermelhas ou trajes fidedignos aos dos integrantes da banda em “The Black Parade”. Penteados e maquiagens também eram destaque entre homens e mulheres, em todos os setores.
Das arquibancadas, gritos esporádicos vieram no que, mais tarde, seria esclarecido: pessoas fantasiadas de Jesus, comuns em shows grandes, “abençoaram” os fãs de todos os setores.
Por fim, o que mais me impressionou naquelas horas de espera na pista, olhando para todos os setores, era a variedade gritante de faixas etárias entre as pessoas. Havia adultos com aparência 30+, pessoas que aparentavam ser da casa dos 20 anos, jovens de 18 anos ou mais e, consequentemente, aqueles que nasceram no mesmo ano da primeira vinda do My Chemical Romance no Brasil ou, além disso, adolescentes (com pais ou responsáveis, claro) que nem eram nascidos nessa época. Foi um choque geracional que me fez cair a ficha tanto de que estou ficando velho, como do fato de que o MCR conseguiu impactar gerações mais novas independentemente da forma como sua música chegou nelas (pesquisa orgânica, indicações e, no mais fácil para a época atual, as trends de redes sociais).
Às 19h22, o milagre climático aconteceu.
The Hives faz show enérgico com público em suas mãos e prova por que tem um dos melhores shows da atualidade
Quis o destino que a chuva parasse justamente próximo ao início do show dos suecos do The Hives e pouquíssimas gotas caíssem ao longo do restante da noite. Era como se os balões com as letras que formam o nome do grupo de Garage Rock e Garage Punk de Fagersta, na província de Västmanland, fossem o “Senhor do Tempo” que faltava para “expulsar” qualquer fator que tirasse a alegria da banda e do público presente no Allianz Parque naquele momento.

Tudo se tornou ainda mais alegre quando Pelle “Howlin’ Pelle” Almqvist (vocal), Niklas “Nicholaus Arson” Almqvist (guitarra e backing vocal), Mikael “Vigilante Carlstroem” Karlsson (guitarra e backing vocal), Christian “Christian Dangerous” Grahn (bateria, percussão e eventuais backing vocals) e Johan “The Johan and Only” Gustafsson (baixo) subiram ao palco do estádio, cujo público já havia aumentado com o cessar da chuva, para sacramentar a sexta passagem em solo brasileiro. Cada membro vestiu um traje com leds amarelos nos detalhes das laterais, ombros e mangas, o que gerou um destaque ainda maior. Junto a eles, havia dois membros a mais, com balaclavas, que ora faziam a função de roadie, auxiliando no desembaraçar dos cabos e ajustes gerais, ora atuavam com instrumentos variados, como violino, pandeiro, meia-lua e instrumentos de percussão.

O “boa noite, Sampa!” de Howlin’ Pelle foi essencial para jogar a energia do público mais acima e iniciar o show de vez com “Enough Is Enough”, primeira faixa de um setlist de 11 músicas e a primeira do mais recente trabalho da banda, o álbum “The Hives Forever Forever The Hives”, de agosto de 2025. Todos foram enérgicos no palco, ora pulando, ora caminhando por diversas partes do palco.
Os Hives não deixaram de explorar o repertório mais antigo. A segunda faixa foi “Walk Idiot Walk”, do disco “Tyrannosaurus Hives” (2004), em que Peele, com sua energia e ânimo altos, pediu palmas da galera, agradeceu aos paulistas em língua portuguesa, cantou mais à frente do palco, em uma mini plataforma, e desceu para a grade da pista premium pela primeira vez na noite. Tudo enquanto seus parceiros de banda, de longa data, traziam uma instrumentalidade absurda e alegre. Foi um combo suficiente para que o público fizesse barulho no final da música e aumentasse essa aclamação com os pedidos dos guitarristas, que “provocavam” ao gesticular que não os ouviam.

Howlin’ Pelle começou a brincar com o termo “gostoso”, na qual já sabia o significado envolvendo beleza facial e corporal. Ele usava da palavra seja para si, seja para os demais membros, gerando gritos dos fãs quando citado.
Logo em seguida, “Rigor Mortis Radio”, primeira da noite a representar o aclamado álbum “The Death of Randy Fitzsimmons” (2023), veio como um atenuante das brincadeiras, aproveitando o tom irônico da faixa para quem não acompanha o ritmo do grupo sueco. A banda seguiu animada, porém em seus postos, enquanto o vocalista elevou o nível de seu ânimo ao quase mostrar os mamilos, andar de um lado para outro e pedir palmas e gritos conforme sua execução. E para introduzir “Paint a Picture”, o frontman do Hives, em português, discursou: “Senhoras e senhores (4x)! Senhoras e senhores e todos os outros: batam palmas!”. O ritmo um pouco mais rápido do público, somado com a redução para um refrão marcante, foi suficiente para fazer o público acompanhar a banda nos gestos e no canto ao longo de toda a faixa. Houve, ainda, um momento no meio da música em que todos os integrantes permaneceram imóveis por mais de um minuto, causando gritos e aplausos do público enquanto suas expressões faciais passavam, focadas, nos telões laterais do palco até que Howlin’ Pelle retomasse a faixa num novo refrão.

“Bogus Operandi” foi iniciada com os integrantes da linha de frente posicionados de costas para o público e com um palco parcialmente apagado. Foi outra música de performance amplamente enérgica no palco, com chutes para o alto do vocalista em alguns momentos e balançar de cabeças frenético e paralelo aos passos, que manteve o semblante feliz da galera. Howlin’ Pelle, ao final, puxou mais um discurso em língua portuguesa, perguntando sobre quem estava a ver The Hives pela primeira vez e aconselhando a todos: “Não deixe que seja a última vez! Senhoras e senhores e todos os outros: NADA DE SILÊNCIO NO SHOW DO THE HIVES! MAIS BARULHO! MAIS BARULHO! MAIS E MAIS BARULHO!”

A resposta do público foi enérgica e imediata quanto aos barulhos: gritos, ovações, aplausos e chamados esporádicos de “gostoso” para o frontman sueco, que logo chamou a faixa seguinte: a aclamada “Hate to Say I Told You So”, do álbum “Veni Vidi Vicious” (2000). Esta, considerada um clássico dentro do repertório da banda e representante, no setlist da noite, de um de seus álbuns mais aclamados, foi amplamente cantada e contou com pulos parciais no Allianz Parque, reforçando os ânimos mútuos de pistas, arquibancadas e palco. Howlin’ Pelle, como complemento, ainda usou um trecho da faixa para saudar o público ao beber uma cerveja, pediu mais palmas e fez uma dinâmica para repetir seus coros líricos. Mais um demonstrativo de como o Hives sempre tem a plateia em suas mãos e como sabem se divertir e divertir os demais até o último segundo.
Os ânimos se mantiveram no alto na sequência do show, seja pelas citações ao My Chemical Romance, feitas em discurso e reforçadas pelo apelo do vocalista para mais da banda – “Mas antes, mais The Hives!” -, seja pela música que veio na sequência, “Countdown to Shutdown”, com riff animado, ritmo dançante e que fez alguns membros da banda pularem ou chutarem o ar. Howlin’ Pelle fez questão de puxar uma das caixas de seu equipamento, possivelmente de retorno, para deixá-la na vertical e subir como se fosse o Cafu levantando a taça da Copa do Mundo de 2002. De lá ele não saiu tão cedo e, ainda concentrando suas energias nos gestos, pediu pulos e cantos da galera. De tão animado, Pelle Almqvist começou a misturar língua portuguesa e espanhol do jeito mais argentino possível: “Meus amigos e amigas, Los Hives! Que te passas? Mais barulho!”. A resposta, claro, veio tão animada quanto ele de todos os setores do Allianz Parque.

“Paulistas, agora gritem!”, foi o que Per, ainda em cima da caixa, exigiu do público nos primeiros acordes de “Legalize Living”, enquanto ditou o ritmo das palmas paralelo às batidas de Christian “Chris Dangerous” Grahn. As energias, apesar de serem em uma música um pouco menos agitada, seguiram e aumentaram com “Come On”, em que Howlin’ Pelle voltou a discursar com ênfase, em meio às novas batidas de Chris: “Paulistas, tudo bem? Caralho (2x)! Gostoso, o baterista (…) This Song in português é ‘BORA!’. Em inglês, ‘Come On!’”. Por um minuto e dez, o único termo dito por boa parte do Allianz foi o nome da nona faixa do setlist, que foi a única do disco “Lex Hives” (2012).
“Tick Tick Boom” foi a penúltima faixa da noite. A música, do disco “The Black and White Album”, foi outro marco para que Pelle voltasse às grades da pista premium, repetindo o ato de cumprimentar o público e cantar junto a eles nos cantos e no meio da região, sob auxílio dos seguranças e garantia, da parte dos roadies, de que o fio do microfone chegaria sem embaraçar em algum equipamento. Ao voltar pro palco, Pelle fez questão de apresentar os demais membros da banda, beber mais cerveja e, ao se apresentar, dar um destaque ao termo que tanto brincou na noite, para a alegria dos fãs: “Ao centro, o seu amigo GOSTOSO!”. E ainda deu tempo de ele voltar para a grade para terminar a faixa de lá.
O encerramento se deu com “The Hives Forever Forever The Hives”, música do álbum de mesmo nome que foi amplamente cantada no refrão por um público que acompanhou os últimos atos enérgicos da execução sonora da banda e, principalmente, de Howlin’ Pelle, que novamente pulou pra galera da grade e voltou ao palco somente no momento de tirar a foto que finalizou o show. O show, por um todo, foi mais uma prova do domínio que The Hives tem no palco para com o público, ditando as energias, gestos, cantos e níveis de barulho que geraram um dos ambientes mais alegres para uma noite de shows.
Momentos antes do evento principal
Da configuração e ajustes finais do palco até o início do show, alguns avisos e mensagens apareceram nos telões do Allianz Parque além dos indicadores de segurança. O primeiro deles foi um aviso quanto às luzes do show, estroboscópicas, que poderiam causar problemas para quem tivesse problemas de epilepsia. Depois, diversas mensagens na língua criada por Nate Piekos para a turnê, o Keposhka, apareceram. Eram regras direcionadas aos internados no hospital psiquiátrico de Draag, país fictício em que o enredo das apresentações atuais do álbum “The Black Parade” se passa.
Após estes pontos e com um Allianz mais ocupado do que durante e antes do show do Hives, os ânimos de gerações para o show aumentavam aos poucos e começaram a estourar a partir da primeira introdução do show, a música “Mr. Blue Sky”, do grupo Electric Light Orchestra, mais alta do que as anteriormente tocadas nas caixas de som do palco e relativamente acompanhada pelo público. Alguns pingos de chuva até surgiram e ameaçaram o público das pistas a vestirem as capas de chuva novamente. No entanto, foi passageiro e de nada atrapalhou a expectativa.
Certo foi que, às 21h50, o primeiro ato do My Chemical Romance começaria: teatral, com inspirações claras e, principalmente, com uma carga musical nostálgica que enriqueceria uma apresentação na qual os milhares presentes naquele dia 06 – e por que não, no dia 5 – esperaram por anos a fio.
My Chemical Romance e a apresentação “orwelliana” de “The Black Parade” em Draag
O ator Charlie Saxton, ou “The Clerk”, foi o primeiro a entrar no palco, varrendo o chão do cenário e preparando a entrada dos demais membros. Destes, vieram a cantora de Ópera australiana Charlotte Kelso (no enredo, a enfermeira Sylvia), o baterista Jarrod Alexander, além de Jamie Muhoberac (teclado), Kayleigh Goldsworthy (violino) e Clarice Jensen (violoncelo). Os músicos em questão, foram coadjuvantes em papéis, porém são músicos de turnê principais.
Logo em seguida, o quarteto mais esperado: Gerard Way (vocal), Frank Iero (guitarra e backing vocal), Ray Toro (guitarra e backing vocal) e Mikey Way (baixo) fizeram fila, ainda mais aclamados que os anteriores, para receber as medicações obrigatórias do hospital psiquiátrico. Após algumas das atuações iniciais, eles param para observar Charlotte cantar o Hino Nacional de Draag, país fictício em que o enredo teatral se passa.

A entrada de fato ao repertório do álbum “The Black Parade” (2006) se deu após o hino, com a execução de “The End.”, que já entra como um “hino introdutório” do álbum para um público que, de uma arquibancada para outra e nas duas pistas, começou a cantar incessantemente. Foi algo que se repetiria muitas vezes naquela noite, inclusive na faixa seguinte, “Dead!”, onde o público ficou ainda mais eufórico: pulos, balanços de cabelos, gritos e um coro impressionante principalmente nos refrões. Pouco deu para ouvir a voz de Gerard Way nesta música, tamanho o poderio vocal do público.
“This Is How I Disappear” marcou uma maior presença sonora dos instrumentistas de turnê, com melhor percepção dos teclados, violoncelo e violino, além de uma breve atuação de Charlie no pandeiro meia-lua. Um ótimo complemento para um instrumental impecável da banda principal e para uma voz muito bem trabalhada – e sem perdas – de Gerard Way. Ao final da faixa, o grande olho no centro superior do palco desceu para seu primeiro ato, que se baseou no scan, identificação e foto do quarteto principal. Gerard Way, em inglês, foi ao microfone para uma singela frase: “Good News: The Black Parade Is Back From America” – “Boas notícias! ‘The Black Parade’ está de volta à América”, em tradução livre.

Eis que começa “The Sharpest Lives”, retomando os coros do público por todos os lados. O grande olho sobe, dessa vez animado como se observasse cada canto do palco e do estádio por um todo enquanto o My Chemical Romance entregava outra faixa em perfeita sonoridade.
O momento mais eufórico, nostálgico e simbólico da noite veio a partir da atuação após a quarta música do álbum. É nela que há a aparição de uma agente secreta, de óculos escuros, na qual não consigo confirmar se tratava de Lucy Joy Altus, uma cantora de ópera, ou de outra pessoa muito semelhante. De todo modo, a ausência de falas e o foco em seus gestos sutis enquanto estava sentada em uma cadeira foram impactantes em sua aparição. Ao mesmo tempo, há soldados que carregam Gerard até um palanque de discurso enquanto outro personagem, possivelmente uma nova versão do Grande Ditador Mortal, que discursou, em aparição no telão, sobre a importância de ser um grande líder.

Clerk ajudou Gerard a se posicionar no palanque e até mesmo o ajudou a puxar alguns movimentos de incentivo ao povo. Tudo isso enquanto as primeiras notas do clássico “Welcome to the Black Parade” tocava e aquecia a euforia do público. Tais sentimentos foram descarregados em um coro uníssono na primeira grande parte da música, tal qual em pulos e cantos ainda mais altos a partir da parte com instrumental geral. Gerard não deixou, em momento algum, de cantar da melhor forma e no mais fidedigno ao que se ouve no álbum de estúdio. Com certeza, foi um dos pontos mais altos da noite.
A euforia também se converteu para uma carga emocional e melancólica em “I Don’t Love You”, outro single que virou clássico instantâneo da cena Emo e da música internacional dos anos 2000. Antecedido por uma cena a agente secreta lendo um jornal temático, a faixa misturou o melhor da teatralidade e feição sofredora de Gerard com sua execução vocal e a instrumentalidade da banda por um todo, levando o público a mais cantos sentimentais em todos os setores do Allianz Parque.

O calor do palco, foi suficiente para Gerard tirar seu uniforme temático do álbum para seguir a apresentação em “House of Wolves”, música mais animada em seu ritmo e com uma forte carga de sarcasmo em temas como culpa, redenção e religiosidade. A espécie de portal, que animou o telão central na maior parte do show, apareceu por uma última vez em plena animação.
A segunda descida do olho marca a aparição de um boneco, usado por Gerard na faixa seguinte, e de uma mensagem que o vocalista entrega para o atendente (Clerk), que fica emocionado ao lê-la. Eis que começa “Cancer”, faixa sobre a dificuldade de lidar com uma perda, que gera um momento amplamente iluminado no Allianz Parque, repleto de lanternas de celulares e fãs que cantaram, emocionados, cada verso com Gerard Way.
Em seguida, “Mama” se torna uma faixa com outra mistura de musicalidade e teatralidade em máxima representação. O telão se torna uma grande placa de câmeras de segurança, em que alguns quadros mostram setores do hospital e outros, estão apenas com chuviscos, demonstrando “falha”. A iluminação é dividida entre o vermelho das lâmpadas e o azul das câmeras no palco e, do meio para o final (breakdown), houve algumas labaredas rápidas antes de entrar a parte mais teatral.

“Mama” é parte Punk Rock e parte Rock Gótico, porém há partes de polka que, nos shows dessa turnê, foram explorados e estendidos para a parte teatral proposta para a faixa. Gerard Way puxou um monólogo de alguns minutos, iniciado com um “I Love You Tonight!”, puxando para um discurso contextualizador que era direcionado não só para a plateia do Allianz Parque, como para uma plateia fictícia presente no telão central, com gravações antigas do que parecia uma festa de gala, com pessoas em mesas de jantar distribuídas que aplaudiam constantemente. O vocalista do My Chemical Romance recebeu uma faca do seu parceiro, Clerk, no qual dança e gira no palco antes de passar a palavra para Charlotte Kelso cantar uma extensão da música, intitulada “Dagger”, com a mesma voz de ópera em meio à polka a ser tocada. Quando o som volta para o final da nona faixa do álbum de 2006, Gerard e Clerk atuaram juntos, pularam no ritmo da bateria de Jarrod e, ao final, o frontman agonizou no microfone com o que pareceu uma facada dada por si.
A cena prosseguiu após o fim da faixa, com Clerk desenhando a posição corporal de Gerard Way, como se fosse um perito criminal. Way, no entanto, levantou e brincou com ele num jogo da velha, naquele espaço do contorno corporal. Com sua vitória, seu fiel parceiro do enredo desmaiou, mas logo saiu de cena para a próxima música.

Gerard Way experimentou alguns guturais após a introdução de “The Big Sky”, com as cenas anteriormente citadas, e depois do início de piano para “Sleep”. Na faixa em geral, foi outra exemplificação da preservação da voz do cantor, da instrumentalidade perfeita da banda e do potencial de iluminação do palco, com a frequência de luzes nas partes finais da faixa que, somados com as imagens de diversos dos personagens do enredo de encenação da turnê, finalizaram mais uma parte do ato.
Em “Teenagers”, a surpresa veio com o que apareceu no telão: um programa infantil estrelado por um personagem cuja face era toda pintada de branco, assim como o ventríloquo que Gerard Way segurou em um momento anterior do show. As cenas do programa mostravam esse personagem interagindo com outros bonecos-fantoches. Era possível identificar inspirações nos desenhos da Warner, por conta da abertura e fechamento muito parecidas com as dos Looney Tunes, com programas infantis dos anos 50 e 60 por um todo e, em relação aos fantoches, aos Muppets. Musicalmente falando, a faixa foi outro grande ponto nostálgico da noite, com coro amplo do público durante toda a música.

Já em “Disenchanted”, a banda iniciou após outro discurso do Grande Ditador. O telão central variou entre imagens campestres de plantação de trigo, nuvens e supernovas no Espaço, algo que contribuiu para um clima mais calmo, apesar de uma letra melancólica.
Para a reta final do ato, um último personagem, com aparência jovial, apareceu no telão central para um discurso rápido, num sentido de derrocada, que introduziu “Famous Last Words”. Para a faixa, Gerard Way vestiu o casaco novamente e, mesmo cantando a todo vapor, viu um público inflamado vocalmente, que o acompanhou a todo tempo e que se impressionou totalmente com o incêndio encenado no palco, com faixas de chamas nas bordas laterais, parte frontal e fundo do palco, somados com labaredas em momentos mais agitados da faixa que surgiram até mesmo nas quinas da arquibancada, onde não havia platéia. O encerramento da faixa contou com a reprise do trecho inicial de “Welcome to the Black Parade”, novamente cantado a plenos pulmões por todos.
O final do álbum, em meio ao fogo, foi apoteótico, contando com sirenes, fogo constante e até mesmo com uma encenação de Frank Iero que, com sua guitarra no chão, imitou Jimi Hendrix ao se ajoelhar e cultuar o fogo, como o saudoso guitarrista fez no final dos anos 60 – mesmo que, no caso de Iero, ele não tenha botado fogo na própria guitarra. O guitarrista do My Chemical Romance, dentro da teatralidade, foi retirado à força pelos seguranças de Draag.

O grande final do ato de “The Black Parade” se deu com a repetição de “The End.”. Desta vez, o palco teve apenas a presença de Gerard Way, da violinista Kayleigh Goldsworthy, da violoncelista Clarice Jensen e do tecladista Jamie Muhoberac, sob luzes azuis e contando com o acompanhamento vocal dos fãs.
Já no âmbito teatral, o encerramento se deu com Gerard Way matando Clerk em uma cama hospitalar. O momento, parecido com cenas de terror, mostrava Way abrindo seu amigo da trama e retirando as vísceras, espirrando muito sangue e sofrendo com o ato. O mais impressionante foi ver o atendente sobreviver para dar um golpe fatal no vocalista, fazendo com que ambos morressem, juntos, naquele ambiente, sendo levados pela enfermeira. “Absolute Cinema”.
Segundo ato de b-sides, “trocas de estação” e impactos do público
“The Black Parade” não foi o suficiente para o público presente no Allianz Parque. A espera de anos também englobou faixas do restante do repertório da banda. E assim o My Chemical Romance fez: trouxe, para a segunda parte do show, músicas dos álbuns “Three Cheers for Sweet Revenge” (2004), “Danger Days: The True Lives of the Fabulous Killjoys” (2010), do debut da banda, “I Brought You My Bullets, You Brought Me Your Love”, e até b-sides destes trabalhos, presentes em extensões de álbuns e compilações lançadas ao longo da década de 2000, além do single mais recente da banda, de 2022.
O novo ato se iniciou após alguns minutos de pausa, suficientes para uma reconfiguração de instrumentos e a entrada de um sintetizador, instrumento que Gerard Way usou e abusou para simular trocas de estação de rádio em cada música e para realizar alterações na sua voz em certos discursos. As vestimentas dos membros da banda mudaram, com um tom mais jovial ou adulto e desprendido do ato anterior.

Logo de cara, “Our Lady of Sorrows” reacendeu os ânimos do público, que imergiram em um novo clima nostálgico com a representante do primeiro álbum de estúdio do My Chemical Romance. E não é exagero: eu vi pessoas em estado de histeria em volta de onde estava para ver o show, durante esta faixa.
“We Are My Chemical Romance, from New Jersey”, disse Gerard Way enquanto “trocava de estação” com o sintetizador e alterava a voz posteriormente. A sintonia escolhida levou a banda a tocar “Bury Me in Black”, faixa que foi lançada como demo na versão japonesa do álbum “Three Cheers for Sweet Revenge”. Era estranho para quem não conhecia o repertório da banda mais à fundo, mas foi um deleite para fãs mais assíduos ou antigos que viram Gerard Way alternar entre guturais e líricos vocais igualmente poderosos em meio a um misto sonoro explosivo de Post-Hardcore com Pop Punk e Emo.

A faixa anterior serviu de estopim para uma explosão de “Na Na Nas” em todos os setores, após o anúncio de rádio de “Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)”, primeira entre as quatro selecionadas do até então último álbum de estúdio da banda, de 2010. Junto à energia da banda por um todo, se via coros e pulos de todos os lados e até rodinhas de “mosh emo” em algumas partes da Pista Premium. Foi uma explosão de ânimos gerais que fez até mesmo a banda dar uma pausa.
Gerard Way, então, fez um discurso mais direto com o público. O frontman relembrou os shows da primeira passagem pelo Brasil, sobre os 18 anos sem se apresentar por aqui, os agradecimentos pela recepção ao The Hives e, sobretudo, citações que também levavam ao choque geracional, perguntando sobre quem estava nos shows de 2008 e de quem os viu pela primeira vez naquele dia 06 de fevereiro.
Com o discurso e a breve apresentação dos membros, aclamados por todos no estádio, o My Chemical Romance surpreendeu a todos quando começou “SING”, puxando reações positivas e de certa “descrença positiva” com a raridade que era a reprodução daquela faixa ao vivo. A retribuição veio com altos coros principalmente nos momentos de refrão. Gerard ainda finalizou a faixa reforçando sobre o quanto era legal cantar esta música.

A surpresa do público virou mais um antro colossal de nostalgia e emoção novamente com “Helena”, um dos singles mais populares e aclamados do My Chemical Romance que, novamente, fez com que a o canto dos fãs fosse mais alto do que a percepção vocal de Gerard Way. Outro grande pico da noite.
Na sequência, Gerard trocou a estação novamente, trazendo “Planetary (GO!)”, música mais pautada para um Pop Rock e Dance Rock, o que não impediu os fãs de pularem nos refrões ou cantarem a faixa do álbum de 2010. Ao final, os gritos de pedido por “The Ghost of You” cresceram nas pistas, o que não foi acatado pela banda.
“To the End”, do álbum “Three Cheers for Sweet Revenge”, foi dedicada por Gerard Way para Gabriel Bá, quadrinista brasileiro que trabalhou com Gerard Way em “The Umbrella Academy”, assim como o vocalista fez no dia anterior para “Cemetery Drive”. Foi mais uma das faixas bem cantadas pelos fãs no estádio. Em seguida, a poderosa “DESTROYA”, inspirada em tradições indianas e um ode à rebelião e renovação coletiva dentro de contextos religiosos, surgiu como um “lado B” arrasador e que impactou o público positivamente. As risadas de Gerard Way, com efeitos ou não e em certos momentos da faixa, foram destaques nas transições entre as partes da música, enquanto a banda por um todo foi arrasadora no instrumental.

Mas nada foi tão arrebatador para o público como na clássica “I’m Not Okay (I Promise)”, que veio na sequência e trouxe a energia nostálgica, os cantos, a emoção plena dos fãs e outros fatores que, dentro do contexto desta música, reforçam novamente a semelhança dos sentimentos que o Emo dos anos 2000, à época ou não, e os Emos da nova geração têm. Mas toda a sensação percebida também veio com a alegria de estar naquele show, naquele momento, sozinho (a) ou não. Foi o sacramentar de um sonho coletivo, por mais que não fosse a última faixa da noite.
Foi naquela noite que, pela primeira vez, o My Chemical Romance encerrou um setlist com “Foundations of Decay”, single lançado de surpresa em maio de 2022 que aborda como Gerard Way se sentiu nos atentados de 11 de setembro de 2001 e apresenta temas como a culpa, a perda e a reconstrução somadas à busca por um sentido. Foi a faixa perfeita para extrair as últimas lágrimas dos fãs presentes naquele show, seja por alguma sensação ou lembrança em cima da faixa – por outros motivos, claro -, seja pela percepção do encerramento ou outros motivos. Os balanços de mãos coletivos e as luzes pedidas por Gerard Way foram os últimos gestos do público naquela noite, que ainda viu uma finalização apoteótica nos acordes finais: os tímidos agradecimentos e a rápida saída dos membros do My Chemical Romance, emendados com o som de chiados de rádio e TV e chuviscos nos telões por minutos até um fim brusco e o acender das luzes do estádio.
A partir daí, as reações do público foram diversas. Havia quem estivesse emocionado por tudo que viu, quem estava alegre, quem precisava sair rapidamente para os meios de transporte, pessoas tirando fotos, caçadores de palhetas na parte frontal da pista premium e os que, descrentes de que o show acabou, ainda ficaram por um tempo à espera de alguma música que tenha faltado naquele setlist, como “Cemetery Drive” ou a amplamente pedida “The Ghost of You”.
Independentemente das expressões pós-show, havia um sentimento coletivo presente em todos os setores do Allianz Parque: o sonho realizado. O fã dos anos 2000 que não esteve nos shows de 2008, o fã que esteve e pôde ver a banda novamente após tanto tempo, o fã que nasceu pouco antes ou depois daquele show e que, dentro do contexto de uma geração nova, sendo maior de idade ou não, pôde ter a mesma experiência de quem viveu as duas décadas passadas gostando da cultura e música Emo, e por aí vai. Ali já não tinha mais um choque geracional, mas havia um início da sensação de saudades e o desejo por uma nova vinda do My Chemical Romance ao Brasil que, desta vez, não seja tão demorada ou que chegue em um pensamento de “acontecimento impossível”.
Fotos My Chemical Romance: Fernando Schlaepfer
Fotos The Hives: bmaisca
Confira os setlists abaixo:
The Hives
- Enough Is Enough
- Walk Idiot Walk
- Rigor Mortis Radio
- Paint a Picture
- Bogus Operandi
- Hate to Say I Told You So
- Countdown to Shutdown
- Legalize Living
- Come On!
- Tick Tick Boom
- The Hives Forever Forever The Hives
My Chemical Romance
Intro 1: Mr. Blue Sky (música de The Electric Light Orchestra)
Intro 2: Over Fields (Hino Nacional de Draag, com Charlotte Kelso)
Ato 1: The Black Parade
- The End.
- Dead!
- This Is How I Disappear
- The Sharpest Lives (com introdução ao “Olho”)
- Welcome to the Black Parade
- I Don’t Love You
- House of Wolves
- Cancer
- Mama (com “Dagger” no meio da faixa, cantado por Charlotte Kelso)
- Sleep (com introdução “The Big Sky”)
- Teenagers
- Disenchanted
- Famous Last Words (com reprise de trecho de “Welcome to the Black Parade”)
- The End. (reprise apenas com violino, violoncelo e teclado na parte instrumental)
Outro: Blood (Morte de Gerard Way e de The Clerk)
Ato 2: repertório geral e b-sides
- Our Lady of Sorrows
- Bury Me In Black
- Na Na Na (Na Na Na Na Na Na Na Na Na)
- SING
- Helena
- Planetary (GO!)
- To The End (dedicada a Gabriel Bá)
- DESTROYA
- I’m Not Okay (I Promise)
- The Foundations of Decay (encerrando um show do MCR pela primeira vez)
