Ratos de Porão: 20 anos de “Homem Inimigo do Homem”

Há 20 anos, em algum dia do mês de maio de 2006, o Ratos de Porão lançava “Homem Inimigo do Homem“, o décimo-primeiro álbum da discografia desta adorável banda antifascista, e que é tema do nosso bate-papo desta sexta-feira.

O álbum encerra um hiato de quatro anos sem lançamentos. A principal razão para este longo período sem álbuns foi a saúde de João Gordo. Ele já havia sido internado no ano de 2000, que inclusive, inspirou a letra de “Obesidade Mórbida Constitucional“, que saiu no EP “Guerra Civil Canibal“. Em 2004, ele sofreu uma disritmia cardíaca, e passou por uma cirurgia de redução estomacal, o que deixou o Ratos de Porão em compasso de espera.

Outra marca em “Homem Inimigo do Homem” é a estreia do baixista Juninho. Ele havia entrado em 2003, e está no posto até os dias atuais. O curioso é que desde então, o Ratos de Porão gravou somente três discos de estúdio. Este também foi o único disco da banda a ser lançado pelo selo Deckdisc.

Assim que o frontman se recuperou, a banda se reuniu novamente e eles começaram os trabalhos para o sucessor do ótimo “Onisciente Coletivo“. Eles gravaram o álbum no estúdio Suntrip, na capital paulistana, durante o mês de março de 2006. Mixagem e masterização aconteceram no Mosh Studios, também em São Paulo. A produção foi assinada por Daniel Ganjaman e Bernardo Pacheco.

A produção seria feita por Billy Anderson, que já havia trabalhado com a banda nos álbuns “Carniceria Tropical” (1997) e “Sistemados Pelo Crucifa” (2000), mas ele acabou dando um cano, deixando os brasileiros na mão na hora de gravar. João Gordo explicou o descaso do produtor, em entrevista para a Folha de São Paulo na época. Aspas para ele:

“Depois de combinar tudo, parou de responder os e-mails. Botamos o Jello [Biafra, dos Dead Kennedys] para entrar em contato com ele. Fomos achá-lo na Argentina, produzindo o disco de uma banda stoner, Los Natas. Aí, ele deu uma de joão-sem-braço: ‘Pô, vocês sumiram…'”

Na questão lírica, o Ratos como sempre, não decepciona. Escutar um disco da banda é como ler um livro de história em forma de Crossover Thrash, pois eles costumam registrar os fatos acontecidos na época. Foi assim quando eles criticaram o Plano Cruzado no álbum “Brasil” (1989), os ataques dos Estados Unidos para tomar controle do petróleo no Oriente Médio, em “Onisciente Coletivo“, é mais recentemente, as manifestações de 2013, cantadas no álbum “Século Sinistro” e a homenagem às avessas ao desastroso governo de Jair Bolsonaro (2019-2023), cantadas em “Necropolitica“.

Então, a banda adotou assuntos da época, como a pedofilia na igreja católica, em “Pedofilia Santa“, críticas aos playboys fãs de Emocore em “O Equivocado“, além de críticas aos escândalos do mensalão do primeiro governo de Luis Inácio Lula da Silva, em “Quem te Viu…“, que prova ao fã alienado que chama o vocalista de “comunista e que se beneficia da Lei Rouanet”, sem nem saber o que significa a lei. Assuntos ainda atuais como “PMS de Satã“, que parece escrita sob medida para a polícia de Tarcísio de Freitas ou “Expresso da Escravidão“, que pode ser ofertada aos deputados da extrema-direita que estão fazendo de tudo para vetar a aprovação do fim da escala 6×1.

Dando play na bolacha, temos o Ratos de Porão soando ainda mais brutal e pesado do que antes. Temos doze petardos em breves 30 minutos de duração. Difícil escolher a melhor música contida aqui, mas podemos destacar “Pedofilia Santa“, “Covardia de Plantão“, “Expresso da Escravidão“, “O Equivocado“, “DNA da Pilantragem“, “PMS de Satã“, “Quem te Viu…” e “Lucidez“. É certamente o trabalho mais relevante da banda desde “Anarkophobia” (1991), e não é que os outros não sejam bons, pelo contrário, mas aqui eles subiram demais o próprio sarrafo.

A aceitação ao álbum foi a melhor possível, tanto por parte dos fãs quanto dos críticos. Algumas músicas são lembradas nas apresentações da banda, como “Expresso da Escravidão“, “Testemunhas do Apocalipse” e “Pedofilia Santa“. O Ratos caiu na estrada, e ainda que tenha lançado poucos discos de estúdio, a banda se aventurou em álbuns ao vivo, splits, EPs e compilações.

Vamos celebrar os vinte anos deste álbum que envelhece muito bem, obrigado. Felizmente, ainda existem bandas preocupadas com o social e que não abaixa a cabeça para o que a classe dominante tenta determinar ao proletariado. Eles têm consciência de classe e não se esqueceram de suas raízes humildes. Por mais bandas como o Ratos de Porão. Estamos no aguardo do novo álbum de estúdio, ainda sem previsão de lançamento.

Homem Inimigo do Homem – Ratos de Porão
Data de lançamento – maio de 2006
Gravadora – Deckdisc

Faixas:
01 – Pedofilia Santa
02 – Covardia de Plantão
03 – Expresso da Escravidão
04 – O Equivocado
05 – Otário Involuntário
06 – H.I.D.H.
07 – Testemunhas do Apocalipse
08 – Ao Pé da Forca
09 – DNA da Pilantragem
10 – PMs de Satã
11 – Quem te Viu…
12 – Lucidez

Formação:

  • João Gordo – vocal
  • Jão – guitarra/ vocal em “Quem te Viu...”
  • Juninho – baixo
  • Boka – bateria

Participação especial: 

  • Daniel Discarga – vocal em “Otário Involuntário

Flávio Farias

Fã de Rock desde a infância, cresceu escutando Rock nacional nos anos 1980, depois passou pelo Grunge e Punk Rock na adolescência até descobrir o Heavy Metal já na idade adulta e mergulhar de cabeça na invenção de Tony Iommi. Escreve para sites de Rock desde o ano de 2018 e desde então coleciona uma série de experiências inenarráveis.

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