Symphony X retorna a São Paulo para celebrar os 30 anos de carreira em noite de musicalidade em alta
Texto: Daniela Reigas
Fotos: André Tedim
Os norte-americanos do Symphony X, representantes do metal moderno progressivo e sinfônico sempre fizeram questão de incluir o Brasil em suas turnês, e obviamente não seria diferente na excursão que comemora os 30 anos de carreira.
Na última sexta-feira (20), o Tokio Marine Hall os recebeu novamente, e para aquecer os motores, a abertura ficou a cargo do guitarrista colombiano-americano Andy Addams, que alguns dos presentes possivelmente já haviam visto no ano passado, quando o mesmo abriu a noite para o show do Kiko Loureiro, com quem já gravou junto; dessa vez, acompanham o músico a jovem baixista Elizabeth Schembri e o baterista Chucho Romus.

A apresentação começou um pouco adiantada em relação ao horário previamente anunciado, então a plateia ainda não se encontrava totalmente preenchida, mas o carisma do músico contagiou a todos os presentes. Para tocar as músicas de seu álbum ‘The Eyes of the Moon Pt. 1’, de 2020, não podem faltar dobradinhas de tappings com Elizzy e seu baixo de 5 cordas; além de musicista, ela também é formada em física, então, complexidade não é um problema. Chucho não fica devendo e comanda as baquetas com tanta ferocidade que um de seus pratos quase tomba em determinado momento.

Andy, enquanto briga um pouco com um microfone que não parece estar bem regulado, cumprimenta o público e esbanja seu portunhol para dizer que está feliz em retornar ao país, apresenta a banda e agradece a receptividade. Para encerrar seu show em grande estilo, a banda faz um medley com trechos de covers, trilhas de animes e jogos – indo de Journey a Cavaleiros do Zodíaco – e Andy ativa sua icônica roupa ornamentada com leds coloridos que lhe confere uma vibe futurista/robótica, condizente com a precisão na execução de suas notas. O ponto alto fica para o momento em que ele sola com a guitarra nas costas, arrancando aplausos de todos.

Antes de se despedir de vez, o guitarrista reitera que é surreal tudo que está vivendo em sua carreira e informa ainda que não poderia esperar presente melhor, nessa noite que é seu aniversário; sem pensar duas vezes, o público faz o que o brasileiro faz de melhor: festeja. Andy fica visivelmente emocionado com o coro de “parabéns pra você”. O power trio então se retira para que sejam feitos os ajustes de palco para a atração principal.

Pontualmente às 22h, os telões iniciam a exibição de uma animação que traz vida aos personagens e cenários das capas de todos os álbuns do Symphony X, em ordem cronológica. E sem delongas, vão tomando suas posições Michael Romeo (guitarra), Jason Rullo (bateria), Michael Pinnella (teclado), Mike LePond (baixo) e, finalmente, Russell Allen (vocal). Para deleite dos fãs e fazendo quase uma viagem no tempo, a banda executa praticamente metade do épico‘The Divine Wings of Tragedy’ (1996) em sua ordem original, sendo assim, “Of Sins and Shadows” inicia a noite e os holofotes piscam de forma estroboscópica para acompanhar a porradaria de Jason na bateria. O som é tão alto que chega a assustar os distraídos. Russel chega bem empolgado e já cumprimenta brevemente os fãs com um sonoro “What’s up São Pauloooo” (“E aí SP”), que respondem também animados pulando, gritando e não deixando de participar na hora dos corais. Sem perda de tempo entre as faixas, os músicos demonstram excelente disposição e interação; LePond puxa o marcante riff introdutório de “Sea of Lies” – simplesmente uma das mais populares de toda a carreira – e a plateia vibra junto com o baixo. No refrão, Russell delega a função para os fãs, mas não poupa “yeah yeah yeahs” ao final da faixa. Dando continuidade à tríade de pauladas, vem a curtinha, mas enérgica “Out of the Ashes”, e todos batem cabeça acompanhando os solos de guitarra e teclado.


Chega então o ápice desse bloco e uma oportunidade de respirar e se recompor um pouco com “The Accolade”. Os fãs, regidos por Russel, fazem coro acompanhando a linha melódica do refrão ao som do teclado de Pinnella, e o cantor reage com um gesto de coração. Claro que todos os músicos cumprem sua função com excelência, mas sem dúvidas, o destaque é para Russel, que, para além das piruetas, exibindo sua boa forma física, impressiona e encanta a plateia num momento solo ao executar a belíssima passagem final de “The Divine Wings of Tragedy” quase que a capella, ostentando alcance vocal e afinação impecáveis, que, aliados aos inúmeros focos de luz sobre si, formam uma visão quase angelical – talvez seja por conta da água ‘benta’ que ele beberica numa taça entre uma canção e outra.
Seguindo para um bloco com algumas das músicas que melhor exemplificam o porquê do termo ‘sinfonia’ no nome da banda, vem “Smoke and Mirrors”, única do “Twilight in Olympus” (1998) a entrar pro set. Suas claras menções a Bach e ao estilo barroco são mescladas perfeitamente com vocais e bateria agressivos – Jason inclusive é quem faz a magia acontecer, ditando perfeitamente não só o andamento como também as pausas entre os solos de Romeo e Pinella, o que não existe em “Evolution (The Grand Design)”, a qual exige bastante resistência do baterista por toda sua duração. Ainda do mesmo álbum (“V – The New Mythology Suite”, de 2000), vem a majestosa e doce “Communion and the Oracle”.


Voltando aos riffs pesados e arpejos absurdamente rápidos de Romeo, “Inferno (Unleash the Fire)” incendeia novamente a plateia, com Russel instigando o caos e gritando “I can’t hear yooou!” (Não consigo ouvi-los!). A provocação continua ao término da faixa perguntando se todos já estão prontos pra mais, pois a próxima é paulada também: “Nevermore” chega destruindo tudo com a dobradinha de Romeo e LePond que faz quase sair faísca de seus respectivos instrumentos, levando a galera a pular e gritar. O refrão melódico é cantado a plenos pulmões por todos os presentes. Ao final da música, Russel diz que a noite foi excelente e que a banda ama a todos, e então os músicos se retiram do palco sob ovações.
No entanto, o frontman havia comentado mais cedo que haveria um momento dedicado para trocar algumas palavras com os fãs, então todos estavam cientes que ainda não era hora de ir pra casa. Após breve pausa pra se refrescarem, a banda retorna ao palco e Russell cumpre o prometido, dizendo que se sente honrado em estar de volta ao nosso belo país e brinca sobre o “peso” dos 30 anos de carreira nas costas, simulando dores na lombar. Um grupo de 3 ou 4 rapazes muito jovens que estava na primeira fila agitando o show inteiro não passou despercebido pelo cantor, que perguntou-lhes a idade (19, 20), dedicou-lhes um brinde e afirmou que consegue manter o mesmo pique deles, ou pelo menos, dá o seu melhor. O americano não poupa elogios ao público paulistano e frisa que esse é o maior e mais importante show de toda a turnê, agradecendo o apoio e as boas memórias criadas em todos esses anos. Os rapazes fazem reverência a ele, que ri e diz que aquilo não é necessário, mas que podem continuar – pois é isso que faz tudo valer a pena: a possibilidade de atingir diferentes gerações através da música.


Demonstrou ainda genuína admiração pelo fato da casa estar lotada apesar de outro mega evento estar ocorrendo simultaneamente na cidade (o festival Lollapalooza, conhecido por trazer majoritariamente atrações contemporâneas em seu line-up), e a simples menção ao festival gerou uma leve vaia vinda da plateia; o cantor, bastante profissional, não endossa o comportamento e afirma não diminuir em nada os outros artistas, que, apesar de pertencerem a um outro mundo, completamente distinto do heavy metal, estão apenas fazendo seu trabalho, tal qual o próprio SX.



Cortando o assunto para introduzir os “cavalheiros com quem tem o prazer de dividir o palco”, chama primeiro LePond, que se curva perante a plateia e o cumprimenta com um soquinho; Pinella,“o mago de WoW”, que ganha da pateia até um coro chamando seu nome; depois,“o responsável por pilotar o barco pirata, o imparável” Rullo, e por fim, mas não menos importante, Romeo, a quem enaltece não só como guitarrista, mas como ser humano e compositor. O guitarrista distribui sorrisos e coraçõezinhos para os fãs, que gritam seu nome, mas, tímido que é, logo devolve os holofotes para o cantor. Russel enfatiza ainda que, mais do que uma celebração do passado, esse é um momento de olhar para o futuro da banda, e reforça a promessa de lançar ainda esse ano o super aguardado álbum que vem sendo lapidado por uma década – processo atrapalhado pela pandemia global de COVID, que quase faliu muitos artistas e os forçou a emendarem turnês quase anuais para se restabelecerem financeiramente. Encerrando o discurso com um gancho perfeito para o bis, ele diz que o Symphony X não seria nada “Without You” (sem vocês) e aí é hora de ver marmanjo chorar, com uma das melhores power ballads do metal progressivo. Os fãs não só cantam junto como acompanham com palmas durante o interlúdio.


Inovando um pouco com relação a setlists anteriores, dessa vez, “Dehumanized” é a faixa escolhida para representar o álbum “Iconoclast”, que apesar de ter sido lançado há 15 anos, trata de um tema bastante atual: a dominação da máquina sobre a humanidade. Os riffs que remetem a sons de maquinário não empolgam tanto a plateia, mas preparam o terreno para a derradeira e esperada “Set the World on Fire (The Lie of Lies)” anunciada por Russel como uma forma de mostrarmos ao mundo que o Heavy Metal está vivo e muito bem. A banda mantém a energia no talo até o final, estendendo um pouco a canção e evidenciando a inspiração de Russel, que pula e eleva seus vocais à máxima potência – ao que a plateia corresponde.
Após um “Obrigado, São fucking Paulo”, os aplausos finais e a foto clássica para eternizar a recordação, a única pergunta que fica é por quê uma banda dessa magnitude não tem ao menos um DVD lançado?! Esperamos que ao menos a promessa do novo album se cumpra o mais breve possível e que com isso, o bom filho à sua quase segunda casa retorne.



