Crítica: “Peaky Blinders: O Homem Imortal” soa mais como capítulo final de novela e completamente desnecessário
Quando Peaky Blinders surgiu em um já longiquo 2013, creio eu que nem imaginava que iria atingir o alto escalão que passou a integrar. Ao longo de seis temporadas, a série focava nos dramas familiares e tramas osbcuras da família Shelby, conhecida pela alcunha que dá nome ao show, chefiados por Tommy Shelby, o protagonista da história frio e calculista vivido ilustremente por Cillian Murphy.
Ao final do show, foi dito que o série não iria encerrar de vez a saga, mas que isso seria uma tarefa dada à um filme, que chegou a Netflix no último dia 20. Quando isso foi anunciado, senti um certo frio na espinha, pois estamos falando de mais de 70 episódios que tinham tempo de sobra para que tudo fosse esclarecido, pontas soltas fossem amarradas e histórias encerradas. Ao invés disso, optaram por um episódio longo, que não tem nem duas horas de duração.
Na história escrita por Steven Knight, mesmo roteirista da série, encontramos Tommy vivendo isolado anos depois os acontecimentos da série, e vivendo uma solidão moribunda, atormentado por fantasmas da família em meio a Segunda Guerra Mundial. Ele é colocado de frente com um “fantasma vivo”, o seu filho Duke, interpretado por Barry Keoghan, que está arranjando diversos problemas em Birminghan, e o único capaz de o parar é seu pai.
O cerne de Peaky Blinders sempre foi a família, suas tradições, seus dilemas e questões internas e a união entre eles, mesmo em dias de conflito. O filme tenta elaborar isso a fundo com o seu líder lidando com a perda de sua filha, fato ocorrido na série, e a relação fora de controle com quem deveria ser seu sucessor. A ideia é boa, mas a execução se torna errônea e uma experiência sonolenta, no fritar dos ovos.
A direção de Tom Harper é lenta, se arrasta por quase uma hora e meia onde praticamente nada acontece antes dos 20 minutos finais. O drama entre Tommy e Duke não tem profundidade alguma e tudo se torna muito superficial, inclusive o aguardado confronto entre os dois para acertar suas rusgas é bastante sem graça e sem peso nenhum do qual drasticamente necessitava.
Cillian Murphy continua vivendo uma simbiose com o personagem, mas infelizmente, aqui ele é totalmente esvaziado e mesmo a competência do ator não consegue criar nada cativante como anteriormente. Keoghan é uma das novas adições de elenco e seu co-protagonista, pouco ou quase nada acrescenta a trama, e que hipoteticamente deveria ser a chave central do longa. O vilão interpretado por Tim Roth é uma folha ao vento, que não tem presença, importância, ou qualquer outro efeito dentro da trama, o que se torna digno de dar pena para alguém que conseguiu, coberto de maquiagem, ser um vilão temido como o General Thade de O Planeta dos Macacos de Tim Burton, para citar um de seus grandes papéis em antagonistas.
Curioso notar ainda como em se tratando de um longa, tudo aqui parece reduzido, inclusive o próprio elenco que é um tanto diminuto, parecendo algo como um filme de baixo orçamento e de uma produtora iniciante, dando desfechos risórios e sem sentido para personagens que eram cruciais para a trama, como o irmão problemático de Tommy, Arthur Shelby, um dos mais queridos do show e que simplesmente é “apagado”.
Ao final das contas, o desfecho da história de um dos maiores personagens de shows dos últimos anos acaba parecendo um arremedo de final de capítulo de novela e se torna imensamente dispensável e desnecessário, sendo que se assim fosse para ser feito, era melhor termos ficado somente com o que vimos no streaming e deixar o resto com a nossa imaginação e lembranças ao invés de um final preguiçoso e clichê para alguém como Tommy Shelby.
