Sepultura ignora saudosistas e aposta no novo em EP ousado
Em meio à sua turnê de despedida, o Sepultura pegou todos de surpresa ao anunciar o lançamento de material inédito. Em vez de um álbum completo, a banda optou por um EP com quatro faixas gravadas em estúdio, marcando também o primeiro registro oficial de Greyson Nekrutman na bateria.
Sob o título “The Cloud of Unknowing”, o trabalho segue na contramão do que os fãs mais saudosistas esperam. E não há meio-termo aqui: quem já torcia o nariz para os caminhos recentes da banda provavelmente terá dificuldades logo no primeiro play. O Sepultura não apenas ignora essas expectativas, ele as confronta, assumindo uma postura artística livre, sem amarras ou necessidade de validação.
“All Souls Rising” abre o EP de forma mais familiar, funcionando quase como um ponto de ancoragem. A faixa traz elementos reconhecíveis da fase recente da banda e evidencia o acerto na escolha de Nekrutman, que imprime agressividade, velocidade e groove com naturalidade. Andreas Kisser aparece inspirado, entregando dois solos marcantes, enquanto as intervenções orquestrais do maestro Renato Zanuto adicionam uma carga dramática que amplia o peso da composição. Ainda assim, essa sensação de “território conhecido” dura pouco.
É em “Beyond the Dream” que o EP começa a expandir seus horizontes. A introdução remete claramente ao Metallica, referência já mencionada por Kisser, mas a faixa rapidamente constrói sua própria identidade. Com colaboração de Tony Bellotto e Sérgio Britto, ambos do Titãs, a música aposta em um andamento mais lento e atmosférico. Derrick Green surpreende ao explorar vocais limpos com segurança, reforçando o clima introspectivo. Quando canta “deixe tudo para trás / para começar de novo”, a sensação é de manifesto, um reflexo direto do momento da banda. É facilmente um dos pontos mais altos do EP e da história do Sepultura. Sem dúvida, uma faixa que vai incomodar quem ainda insiste em olhar apenas para o passado.
“Sacred Books” retoma a agressividade, com andamento cadenciado e uma atmosfera quase apocalíptica. As linhas de piano cortam a faixa com precisão, enquanto Nekrutman ganha ainda mais espaço para demonstrar intensidade e técnica, conduzindo a faixa com autoridade.
O encerramento vem com “The Place”, já conhecida do público. A construção é gradual, quase ritualística, começando em um terreno mais contido até ganhar corpo e explodir na segunda metade. Derrick volta a variar sua abordagem vocal com eficiência, conduzindo a faixa mais longa do EP até um clímax caótico, pesado e denso, exatamente como o Sepultura sabe fazer.
Se há um “erro” aqui, é justamente o formato: “The Cloud of Unknowing” deixa a sensação de que havia material e criatividade de sobra para um álbum completo. A banda soa afiada, confiante e artisticamente livre, como há tempos não se via. Resta a dúvida se veremos esse ímpeto expandido em um trabalho maior ou se este EP funciona como um verdadeiro canto do cisne, de fato.
De qualquer forma, com apenas quatro faixas, o Sepultura entrega um material intenso, corajoso e cheio de identidade, provando que segue dono do próprio caminho, sem precisar se curvar às expectativas externas. E isso, por si só, já diz muito.
NOTA: 9
