Angine de Poitrine e a nova bizarrice em hype no rock

Em meio à saturação de fórmulas repetidas no rock contemporâneo, poucos nomes conseguiram chamar tanta atenção recentemente quanto o duo canadense Angine de Poitrine. Misturando math rock, experimentalismo e microtonalidade, a banda se tornou um dos projetos mais comentados do circuito alternativo internacional após viralizar com apresentações ao vivo e um conceito visual tão estranho quanto intrigante.

Mike Portnoy e Dave Grohl foram arrebatados pelo som caótico desse duo. O baterista do Dream Theater escreveu:

Eu não me canso de Angine de Poitrine. Fiquei completamente viciado desde que vi a apresentação revolucionária deles na KEXP há cerca de um mês (uma experiência imperdível, tipo show do Pink Floyd em Pompeia)… lembra Primus, Devo, Secret Chiefs 3, King Crimson… e eles despertaram totalmente meu interesse por música microtonal… coisa louca! Ansioso pelo lançamento do novo álbum de estúdio deles em algumas semanas 

Grohl, revelou durante uma entrevista:

Preciso tentar explicar isso direito porque um amigo me mandou ontem e eu fiquei completamente de boca aberta. […] Chama-se Angine de Poitrine. E eles são do Canadá, talvez Quebec. E eu não sei explicar de outra forma, você precisa assistir a essas pessoas, e é tudo instrumental. Uma delas tem um instrumento de dois braços, com um baixo embaixo e uma guitarra em cima. E você vê os vários pedais que ele está usando. E ele está repetindo cada um desses riffs em loop. É completamente insano.

Esse incentivo de nomes já consagrados do rock e o vídeo de uma apresentação viralizado recentemente, foram o suficiente para colocar o Angine de Poitrine como a nova bizarrice do rock hypada do momento.

Origem no Canadá e identidade misteriosa

Formada em 2019 na região de Chicoutimi, em Saguenay, Quebec, no Canadá, a Angine de Poitrine surgiu como um projeto paralelo de dois músicos que decidiram manter suas identidades ocultas. O duo atua sob os pseudônimos Khn de Poitrine (guitarra, baixo e loops) e Klek de Poitrine (bateria), apresentando-se com máscaras gigantes e figurinos com estética surrealista em preto e branco.

Inicialmente criada quase como uma brincadeira — os músicos precisavam tocar duas vezes em um mesmo local e adotaram o disfarce para parecerem uma banda diferente — a proposta acabou ganhando vida própria e se transformou no projeto principal da dupla.

O nome, que em francês significa “angina do peito”, também reflete a proposta sonora: uma música descrita pelos próprios integrantes como intensa, dissonante e carregada de tensão.

Um estilo musical incomum e altamente técnico

Musicalmente, o Angine de Poitrine se destaca por um som que mistura math rock e rock experimental, com forte uso de microtonalidade — sistema que utiliza intervalos menores que os tradicionais da música ocidental. Isso não é um feito original, visto que artistas como o Primus e Miles Davis já fizeram uso dessa técnica, que não é tão incomum no jazz. Porém, com uma farta repetição dentro do rock, essa sonoridade estranha acabou ganhando a atenção de diversas pessoas.

Essa abordagem cria composições complexas, repletas de polirritmos, mudanças de andamento e estruturas pouco convencionais. O guitarrista utiliza um instrumento híbrido de dois braços, combinando guitarra e baixo, além de pedais de loop que permitem construir camadas sonoras em tempo real durante as apresentações.

A música do duo também incorpora influências variadas, que vão do rock progressivo e jazz modal até elementos de funk, punk e música experimental, criando um resultado difícil de categorizar.

Os próprios integrantes descrevem o som como uma “orquestra mantra-rock dadaísta pitagórico-cubista”, definição que ilustra bem o caráter excêntrico e artístico da proposta.

Explosão viral e reconhecimento internacional

Embora já atuasse desde 2019, a banda ganhou projeção significativa após o lançamento do álbum de estreia, Vol. 1, em 2024. O trabalho chamou atenção no circuito independente de Quebec e levou o duo a se apresentar em festivais importantes da região.

O reconhecimento se ampliou em 2025, quando a Angine de Poitrine venceu o prêmio de Artista do Ano no GAMIQ, dedicado à música independente canadense.

Mas foi em 2026 que o grupo explodiu globalmente. Uma apresentação gravada para o canal KEXP viralizou e acumulou milhões de visualizações, impulsionando a banda para o cenário internacional e abrindo portas para turnês na Europa e América do Norte.

No mesmo período, o duo lançou o segundo álbum, Vol. II, consolidando sua reputação com composições ainda mais complexas e dançantes, mesclando funk-metal, prog e influências experimentais.

Performance visual e conceito artístico

Além da música, a Angine de Poitrine se destaca pela estética performática. As apresentações são praticamente silenciosas entre as músicas, com gestos ritualísticos e movimentos coreografados, enquanto os músicos permanecem mascarados durante todo o show.

A ausência de comunicação direta com o público e a natureza quase instrumental das composições reforçam o caráter artístico do projeto, que se aproxima tanto da performance quanto do concerto de rock tradicional.

Uma das propostas mais originais do rock atual

Em um momento em que o rock busca renovação, o Angine de Poitrine surge como um dos projetos mais inventivos da cena contemporânea. Combinando técnica apurada, conceito visual forte e uma abordagem sonora completamente fora do padrão, o duo conseguiu transformar o experimentalismo em algo acessível e até dançante.

O crescimento rápido do grupo indica que a banda ainda tem muito a explorar. Seja pela originalidade das composições, pela ousadia estética ou pelo impacto das performances ao vivo, o Angine de Poitrine se consolida como um dos nomes mais intrigantes e criativos do rock experimental moderno — e um lembrete de que ainda há espaço para inovação genuína dentro do gênero.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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