Dream Theater emociona São Paulo com espetáculo imersivo e interpretação emocionante de clássico épico
Texto: Danielas Reigas
Foto: André Tedim
Em sua segunda passagem no país com a turnê comemorativa de 40 anos de carreira – iniciada em outubro de 2024 (leia aqui sobre o show de 24) -, dessa vez promovendo também o recente trabalho “Parasomnia” (leia resenha aqui) na íntegra, os norte-americanos do Dream Theater mais uma vez mostram porquê são referência no estilo do metal progressivo. Essa etapa final da turnê contempla seis cidades brasileiras, e a capital paulista os recebeu no último sábado, 9, no Vibra São Paulo.

A promessa era audaciosa: 3 horas de show, dividido em 3 atos, sendo um dedicado ao lançamento de 2025, um para músicas sortidas da carreira, e um para a épica “Change of Seasons”, de 1995, o primeiro EP da banda, com seus 23 minutos de pura viagem sonora. Portanto, 20:30h foi o horário marcado, e durante a espera, a cenografia já estava montada, incluindo a cama ao centro do palco, o telão exibindo uma animação temática e um som ambiente levemente soturnos, para estabelecer o clima adequado. A banda sempre foi excelente em contar histórias através de seus álbuns conceituais e esses elementos enriquecem ainda mais a experiência. Ao apagarem as luzes, a audiência é imediatamente transportada para o mundo paralelo dos sonhos, ou melhor, pesadelos, e contempla todas as sensações negativas que podem ocorrer nesse estado do subconsciente.
Ato I
A primeira faixa, “In the Arms of Morpheus”, não tem vocais, ou seja, compõem o palco apenas Mike Portnoy (bateria), John Petrucci (guitarra), John Myung (baixo) e Jordan Rudess (teclado), que são recebidos calorosamente pela plateia. O som pesado representa o primeiro estágio de um sono agitado, enquanto o belo solo de guitarra finaliza a faixa deixando claro que, apesar disso, a consciência conseguiu se desligar; os efeitos de fumaça selam a simbologia. Sempre com suporte do telão contando a narrativa através das animações específicas para cada música, como num filme interativo, há poucos intervalos entre as faixas, apenas o suficiente para trocas de instrumentos, caso necessário.

“Night Terror” foi o primeiro single do álbum e já havia sido incluída no show anterior, portanto os fãs já estavam familiarizados – e acompanhando com “hey! hey! hey!” aguardavam a chegada de James LaBrie, que adentra o cenário pulando animadamente, esbanjando boa forma. Munido apenas de um estiloso pedestal adornado com uma carranca e uma garrafa de água próxima à bateria, o cantor teria muito trabalho pela frente. Seu timbre é inconfundível desde a primeira nota, e aqui, os fãs fazem coro no refrão.
“A Broken Man” entrega toda a tensão de um soldado tentando dormir, mas sofrendo de stress pós-traumático: o show de luzes, a fumaça, e até mesmo o painel de leds no teclado de Jordan remetem ao campo de batalha. Petrucci e Portnoy harmonizam backing vocals no refrão final, que conta ainda com uma nota alta e estendida de James, rendendo-lhe aplausos. “Dead Asleep” começa com uma introdução misteriosa orquestrada apenas por teclado, baixo e guitarra, e vai se intensificando, criando um clima de perseguição, tal qual mostra o vídeo – aqui, a narrativa é um assassinato cometido em estado de sonambulismo. Destaca-se o excelente solo de Jordan.

Com o palco quase todo escuro, um holofote de lasers azuis destaca John Petrucci e seu dedilhado na intro de “Midnight Messiah”. Já chegando à parte mais agitada da música, James ergue seu pedestal em direção a plateia e pede barulho; os fãs gritam e também batem cabeça. Petrucci executa tappings intermináveis quase que em dobradinha com as “pedaladas” de Mike, deixando todos hipnotizados. James parece curtir bastante a música e incentiva todos a pularem junto com ele. No interlúdio “Are We Dreaming?”, Jordan faz desde as badaladas do relógio até a trilha de fundo enquanto rola o diálogo dos personagens; a faixa precede a power ballad “Bend the Clock”, na qual James volta ao palco dando uma alfinetada na plateia: “eu sei que vocês todos estão [absortos] nos seus celulares. Então, acendam suas lanternas e cantem conosco”. O pedido é atendido e faz um efeito bonito no mezanino do Vibra. Sem dúvidas, o solo de Petrucci nessa faixa invalida os argumentos daqueles que criticam seu estilo ou o próprio gênero musical alegando ser uma ostentação sem nexo de velocidade e compassos difíceis: o guitarrista exibe um misto de técnica, feeling e musicalidade que arranca aplausos do próprio colega, Portnoy, e faz a plateia gritar seu nome ao final da performance.

Com seus 19 minutos de duração e encerrando esse ato, “The Shadow Man Incident” narra a experiência de uma menina com paralisia do sono enxergando a assustadora figura de um homem de chapéu na penumbra de seu quarto. Passando por várias nuances, na parte mais serena da música James descreve a cena; já na parte agitada, a intimidadora figura vai sendo descrita, e após uma explosão de fumaça, todos são surpreendidos ao vê-la surgir diante de seus olhos no canto direito do palco, fitando a todos com seus olhos vermelhos. James então se retira do palco e deixa a narrativa continuar através do vídeo e da jornada musical protagonizada por seus colegas, que mesclam elementos do neoclássico ao heavy metal, com a percussão expressiva que consagrou Portnoy e sua bateria gigantesca. Sob muitos aplausos, o músico joga as baquetas para o alto ao concluir a primeira parte do espetáculo e sinaliza a pausa de 20 minutos, logo, a banda vai se retirando enquanto o telão exibe as cenas finais da história.
Ato II
Após a vinheta estilo cinema retrô e a retirada dos elementos cenográficos do palco, o telão passa a exibir uma arte que une diversos elementos das capas de todos os álbuns da carreira. Abrindo esse set com peso e refrão cativante, “Enemy Inside”, de 2013, é uma ótima escolha – é sempre muito interessante ver Mike Portnoy tocando faixas compostas por Mike Mangini, que o substituiu durante 13 anos. Ao final, o frontman finalmente cumprimenta a plateia com um “Boa noite SP, como vocês estão, estão se divertindo?”; a resposta, no entanto, lhe pareceu fraca e ele pergunta uma segunda vez, agora sim extraindo melhor reação do público. O cantor comenta ainda que passar os últimos 19 meses viajando pelo globo e vendo tantos fãs tem sido incrível. Dando seguimento,ele pergunta se todos ainda estão aí firmes e indica que a próxima faixa vem do “Black Clouds & Silver Linings” (2009); a escolhida é “A Rite of Passage”, que traz a animação de figuras encapuzadas se reunindo nas ruínas de um templo e muita fumaça pra compor a atmosfera. Apesar do riff marcante e refrão fácil de cantar, a faixa tem solos de teclado e guitarra bem ‘fritados’ e carregados de efeitos, enquanto os dedos de Myung percorrem o baixo freneticamente para manter tudo nos eixos – nesses momentos, só resta à plateia observar a performance e habilidade dos músicos.

Em seguida, Jordan faz um breve solo de “sampler” em seu iPad antes de voltar ao teclado para um clássico número de “Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory”: “Scene Three – Through My Words/Fatal Tragedy”. Os fãs fazem um belo coro com James na primeira, e complementam os backings vocals do refrão na segunda. Na parte final, Myung finalmente vem mais ao centro do palco e ora encara Portnoy, ora duela com Petrucci, numa das mais complexas passagens que eles já compuseram. Na sequência, a porradaria continua e todo mundo sai do chão com “The Dark Eternal Night”, onde Portnoy não apenas comanda as baquetas, mas também faz dueto com James.

Para acalmar um pouco os ânimos, “Peruvian Skies”, do excelente‘Falling into Infinity’ (1998), é executada num tom mais descontraído, e Jordan – the wizard (o mago) – é enaltecido por James após a intro. Mesclando pequenos trechos de hits de duas bandas admiradas pelo próprio DT: Pink Floyd (“Wish You Were Here”) e Metallica (“Nothing Else Matters” e “Wherever I May Roam“), Portnoy chega a balançar um celular com a lanterna acesa enquanto toca; Jordan vem pra frente com um keytar e James agita os fãs. Encerrando com chave de ouro esse bloco, não poderia faltar uma das mais famosas da carreira – “Take the Time”. Portnoy faz bonito no “rap” da intro, James se deixa levar pela empolgação, Myung segura a bronca como sempre e Petrucci improvisa/estende brilhantemente o solo final como se estivessem numa jam. Quem vê o entrosamento e a diversão do grupo não diz que estão tocando isso há mais de 30 anos.
Ato III
É até difícil achar palavras para explicar o sentimento vivido nessa noite pelos que aguardaram toda uma vida por esse momento, já que “A Change of Seasons” (que é muito mais que uma música, não só pela duração e pela estrutura, mas pelo que ela simboliza) nunca havia sido executada na íntegra em solo brasileiro. Escritas por Mike Portnoy e baseadas em eventos autobiográficos, principalmente repentina de sua mãe em um trágico acidente áereo, as letras abordam a efemeridade da vida e falam sobre como é preciso aproveitar cada momento – assim, o telão exibe o trecho do filme “A Sociedade dos Poetas Mortos” contendo a citação “Carpe diem”, e ao soarem os primeiros acordes do capítulo 1, a plateia ecoa com gritos de emoção.

Seja cantando em uníssono, seja vibrando com cada ‘mudança de estação’, dos trechos mais lentos e melancólicos aos mais enérgicos e pesados, não havia quem não estivesse completamente entregue; até mesmo as melodias de teclado ou licks de guitarra eram cantados pelos fãs. Falar da competência técnica dos instrumentistas aqui seria chover no molhado, mas James LaBrie, que já foi alvo de severas críticas ao longo de todos esses anos de estrada, merece o reconhecimento de ter mantido a qualidade vocal consistente e altíssima durante todo o show, em especial nos versos finais dessa expedição poética. Sem dúvida, uma vivência que ficará eternizada nos corações dos espectadores com muito carinho.

Antes de encerrar de vez, a banda ainda ‘ameaça’ um riffzinho de “A Fortune in Lies”, mas só pra brincar mesmo – nem dava pra exigir mais nada deles a essa altura. Com um “Obrigadooo São Paulooo!”, James agradece a todos por comparecerem e por apoiarem sua música, diz que os ama e garante que retornará futuramente. Resta saber quando, pois ao final dessa longa turnê, os músicos pretendem tirar merecidas férias. Embora improvável, uma turnê tocando “When Dream and Day Unite” na íntegra em 2029 não seria nada mal… bem, sonhar ainda é de graça.


