Lucifer “doma” calor do meio-dia do Bangers Open Air com nova formação, hits bem executados e carisma ímpar de Johanna Sadonis

Apresentação no Memorial, a quarta das oito datas pelo Brasil, abriu o Sun Stage do primeiro dia do festival com repertório coeso, cover do Kiss e interações divertidas da frontwoman

Johanna Platow (ou Johanna Sadonis) voltou ao Brasil com o Lucifer após cerca de um ano e meio desde a última turnê no país, destacando a lotação absurda no show da Fabrique Club, em São Paulo. É possível dizer que, no último sábado (25), “o inferno brasileiro cresceu” tanto pelo número de cidades que o Lucifer se apresenta nesta terceira turnê pelo país (sete, sendo duas vezes em São Paulo), quanto pela quantidade de pessoas que, em São Paulo, no Bangers Open Air, no Memorial da América Latina lotaram o Sun Stage ao meio-dia e sob um sol que ultrapassou os 30ºC.

Não houve um trabalho novo a se divulgar, mantendo o repertório da sequência de cinco álbuns com o nome da banda e singles avulsos, lançados entre 2015 e 2024. Porém, foi a continuação da apresentação da nova formação da banda, em que Johanna é a fundadora e única remanescente, após as saídas de Martin Nordin, Linus Björklund, Harald Göthblad e do seu também ex-marido, Nicke Andersson, em 2025. Foi justamente a separação entre a vocalista alemã e o baterista sueco, no mesmo ano, que levou à reformulação da banda.

O início pontual do show veio com uma pequena introdução enquanto os novos integrantes entraram: a espanhola Claudia González Díaz (baixo), o alemão Kevin Kuhn (bateria), a alemã Coralie Baier (guitarra) e o sueco Max Eriksson (guitarra). Max é o único até então indicado como membro de turnê, substituindo a guitarrista britânica Rosalie Cunningham, ausente dos shows no Brasil. Johanna entrou junto, sendo ovacionada pelo público.

Doze faixas foram tocadas na primeira hora de shows do Sun Stage, a começar por “Anubis”, primeiro single a ser lançado pela banda em 2015 e a melhor representação inicial da sonoridade Doom Metal que predomina no repertório da banda. Foi também o cartão de visitas dos novos membros, que demonstraram sinergia e domínio no que já tocam há pouco menos de um ano. Eis o conjunto perfeito que alegrou a base de fãs e possíveis curiosos na pista.

Os ânimos cresceram quando as primeiras notas de “Crucifix (I Burn for You)” foram tocadas, levando parte do público a pular e uma maioria a cantar o refrão. A condução do baixo de Claudia, as viradas de Kevin e o solo de Coralie foram os pontos altos da música em questão. 

O calor se tornou mero detalhe naquele momento (e somente neste), após o início de show conquistador do Lucifer. Johanna chegou a elogiar os presentes, afirmando que era “legal ver os rostos felizes brilhando nos raios de sol”. O breve discurso antecedeu outro grande som da banda, “Riding Reaper”, de ótimo riff e cadência ímpar de todos os integrantes, trazendo cantos mais exigentes de Johanna, que fechou a faixa perguntando: “Está muito quente aqui por causa do sol, ou por causa da energia de vocês?”. Em “Wild Hearses”, o destaque se deu nas viradas de bateria e na variedade de ritmos lentos bem executados por Kevin Kuhn e, no final da faixa, com uma cortina de fumaça de gelo seco vinda das laterais do palco e que, junto com a alta temperatura, fez com que Johanna Sadonis tivesse que limpar rapidamente o nariz com uma toalha, brincando com a plateia: “Estou somente limpando o nariz. Não é cocaína, é por causa do calor”. 

Lucifer”, faixa homônima, veio na sequência do show como um Doom Metal mais clássico e com a mesma pegada rítmica da faixa anterior somada ao solo duplo de Coralie e Max, além de um refrão chiclete dentro de uma letra que traz uma certa empatia ao “anjo caído”, caindo nas graças do público. E “At the Mortuary”, introduzida com as notícias de Johanna de que todos morreriam e de que estava “no melhor lugar do mundo”, foi outra faixa tão comemorada quanto a anterior e que levou parte dos fãs a pular enquanto cantavam o refrão. A dupla de guitarristas da banda voltou a se destacar nos solos durante esta faixa.

Sadonis fez seu discurso de maior destaque (e polêmica) antes de “Slow Dance in a Crypt”, quando dedicou a faixa ao “ex-namorado morto”, em uma possível referência metafórica ao ex-marido Nicke, e sugeriu ao público a não fazer um certo ato libidinoso no túmulo, arrancando risadas. Na música, foi um momento de ampla mistura entre o bom vocal de Johanna e sua performance, fazendo danças lentas e aproveitando e muito o ventilador instalado em sua posição para cantar perto dele enquanto os cabelos esvoaçavam.

The Dead Don’t Speak” veio como outra faixa bem cantada pela plateia e bem executada pela banda, contando com outro bom solo da parte de Max Eriksson e uma Johanna que, pelo calor ou pela pura performance, cantou parada em alguns momentos, tendo feito poses que lembravam as de Ozzy Osbourne. E falando no saudoso madman, nada pareceu mais Black Sabbath do que o riff inicial de “California Son”, com leves semelhanças (ou inspirações) em “Children of the Grave” que logo levaram a um ritmo Doom Metal bem característico do Lucifer e que contou com palmas da galera no meio da faixa e no ritmo dela.

Bring Me His Head” veio como uma das últimas do show, com ritmo divertido e “refrão chiclete” que logo pegou parte do público, além de um bom solo executado por Max. Ao final, um roadie precisou avisar algo para Johanna no palco e, ao sair, foi alvo da brincadeira da vocalista, que fez um gesto para que saísse dali. E assim veio a penúltima música da noite, um cover de “Goin’ Blind”, do KISS, que não fugiu do ritmo ou estilo original da faixa.

Mas o show não poderia terminar de forma triste. A última faixa foi “Fallen Angel”, um dos maiores sucessos do Lucifer e com uma temática libertadora e rebelde, em performance absurda da banda por um todo e de um público que aguentou a primeira hora de calor do festival da melhor forma. Foram os últimos cânticos de músicas com e para o grupo europeu, que fez questão de finalizar o show com viradas, repetições de notas e aumento de tom dessas execuções a cada repetição.


Foi um show que, mesmo disputando com a abertura do Korzus no outro lado do Memorial – coincidentemente, também com mudanças na formação -, trouxe uma quantidade grande de fãs e curiosos que ignoraram o calor até certo ponto e que viram o quão impactante uma boa banda de Doom Metal pode ser, mesmo em plena luz do dia. Para quem já conhecia a banda, não foi uma surpresa e sim uma consolidação de um repertório coeso em cinco álbuns e, para quem descobriu por conta do Bangers ou no dia do show, com certeza terá muitas músicas do Lucifer em suas playlists.

Confira o setlist abaixo:

  1. Anubis
  2. Crucifix (I Burn For You)
  3. Riding Reaper
  4. Wild Hearses
  5. Lucifer
  6. At the Mortuary
  7. Slow Dance in a Crypt
  8. The Dead Don’t Speak
  9. California Son
  10. Bring Me His Head
  11. Goin’ Blind (cover de KISS)
  12. Fallen Angel

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