Os discos do Korn ranqueados do pior ao melhor, segundo opinião

O Korn transcendeu o som do metal comum em meados dos anos 1990. Após a ascenção do grunge no início da década, mais um movimento surgia para movimentar a música pesada, ganhando o rótulo de “new metal”, ou simplesmente “nu-metal”, como muitos preferem chamar.

Desde que surgiu para a grande mídia, parte dos fãs do metal tradicional torceram a cara para o que esse novo movimento estava mostrando naquele momento. Saiam as letras falando sobre dragões, demônios e outros temas, para dar lugar a traumas, saúde mental, abusos e sexualidade. Saiam as roupas de couro, os braceletes de espinho, os cabelos lisos ao vento e coturnos, para dar lugar a roupas esportivas, bermudas, meiões, tênis adidas e dreadlocks. Ainda, saía aquela sonoridade mais tradicional, rápida e cadenciada com vocais rasgados, para instrumentais quebrados, groovados e funkeados e vocais susurrados flertando com o hip-hop e com gritos explosivos.

Tudo isso se iniciou quando o Korn lançou em 1994 o seu primeiro disco de estúdio (um ano antes, eles haviam lançado a demo “Neidermeyer’s Mind“, que pode ser considerado o marco zero do new metal), e a partir do álbum auto-intitulado, toda a história da música pesada se modificou e uma nova tendência apareceu, abrindo as portas para outros nomes que viriam posteriormente como Limp Bizkit, Slipknot, Linkin Park e outros tantos.

De 1994 até hoje, o Korn conta com 14 álbuns de estúdio, com cada um deles refletindo diretamente o momento pelo qual a banda passava em seu som, o que fez com que por muitas vezes eles se arriscassem em caminhos bem diferentes do que qualquer fã de outrora pudesse pensar que eles fariam, seja unindo seu som a música eletrônica ou até mesmo um disco acústico, o que seria um fato impensável até início dos anos 2000, sendo o peso uma das principais marcas do grupo.

Abaixo, listo os discos de estúdio, do pior ao melhor, de acordo com sua sonoridade, elementos usados e proposta para o momento que o grupo passava e seu impacto e recepção.

15 – Korn III – “Remember Who You Are” (2010)

Após passar por diversas experimentações ao longo de meados da primeira década dos anos 2000, o Korn quis voltar ao seu início. Mais uma vez eles se juntaram ao produtor Ross Robinson e tentaram criar algo parecido com o primeiro disco, mas o resultado final acabou não soando como esperado, criando um álbum que não passa da banda emulando a si própria, com músicas fracas, sem inspiração e muitas vezes vazias, somente com a intenção de se aproximar de todo o caos do começo, com pouca coisa se salvando; o single “Oildale” é uma delas. Marca o primeiro registro de Ray Luzier como baterista.

14 – Korn – “Untitled” (2007)

Passando mais uma vez pela perda de um membro fundador, dessa vez o baterista David Silveria, o Korn se viu como um trio e de certa forma isso desastabilizou as estruturas da banda que se viu próxima de um colapso, com Jonathan Davis chegando a dizer em entrevistas que não sabia o que o futuro seria, indicando um possível fim naquele momento. No registro, a banda quis arriscar e trouxe um som completamente alternativo, com músicas que não soavam em nada com o que os fãs esperariam ouvir, com instrumentação bastante diferente do convencional, usando percussão e chocalhos e com músicos contratados, incluindo os bateristas Terry Bozzio e Brooks Wackerman, hoje no Avenged Sevenfold e durante a turnê contaram com Joey Jordison. Apesar de soar um tanto estranho entre os demais, “Evolution” e “Starting Over” são bons momentos que o disco apresenta.

13 – Korn – “MTV Unplugged” (2007)

Ok, esse aqui não é um disco de estúdio, mas foi um ponto marcante da história do Korn. Ainda perdidos com as rupturas na sua formação e com algumas questões contratuais, a banda se arriscou em algo que anteriormente não seria pensável; transpor suas músicas que tinham o peso como uma das principais características para o formato acústico. Ainda que algumas delas tenham ficado interessantes em sua nova execução, a proposta não foi das melhores, nem há de se colocar o disco ao lado de outros grandes da mesma série MTV Unplugged, como os do Alice in Chains e Nirvana. Vale pelas participações de Amy Lee do Evanescence e Robert Smith do The Cure, além das boas interpretações de algumas faixas como “Hollow Life” e “Throw me Away” e um cover de “Creep” do Radiohead, que se encaixou muito bem na voz de Jonathan.

12 – Korn – “See You on the Other Side” (2005)

O Korn se viu aqui sem um dos seus principais pilares. O guitarrista Brian “Head” Welch deixou a banda ao se converter ao cristianismo, e pela primeira vez, o grupo se via sem um de seus fundadores e atuando com somente um guitarrista. Isso se refletiu totalmente no seu som, que os integrantes quiseram criar algo como um novo começo, se alinhando com a nova fase, trabalhando um som bastante alternativo, mais melódico e até mais radiofônico do que outros registros que antecederam este. Sem muita força, hoje o disco é mais lembrado pelos singles “Twisted Transistor” e “Coming Undone“. Em sua versão deluxe, há músicas que soam bem mais interessantes do que as que ficaram na versão final.

11 – Korn – “The Path of Totality (2011)

Depois de passar pela experiência de reviver antigos traumas no disco anterior, Jonathan Davis resolveu aliviar o estresse compondo um disco diferente de tudo que o Korn tinha feito até então. Sem medo de arriscar, o time jogou alto aqui, sabendo que muitos fãs iriam ter uma degustação difícil desse material e muitos não a iria repetir. Se aliando a DJ’s como Skrillex, do new metal a banda uniu seu som pesado ao dubstep, estilo que Davis estava curtindo no período (inclusive, ele se apresentava em um projeto paralelo do gênero sob o nome de JDevil). Apesar das mudanças, o disco apresenta boas faixas que mantém a essência do Korn, como “Chaos Lives in Everything” e “Narcisistic Cannibal“.

10 – Korn – “Requiem” (2022)

Até então o último disco lançado pelo Korn. Feito durante a pandemia, o processo de composição foi diferenciado, com a banda trabalhando de forma individual e se reunindo posteriormente num estúdio para a gravação. Inicialmente, a ideia era fazer um EP, talvez isso justifique a curta duração, sendo o menor álbum feito pelo grupo, com apenas 9 músicas e pouco mais de 30 minutos. Um trabalho sucinto e que cumpre a tarefa de entregar nova músicas, sem ir muito além do que isso, ainda que tenha boas jogadas como “Start the Healing“, “Hopeless and Beaten” e “Worst is on its Way“.

09 – Korn – “The Paradigm Shift” (2013)

O marco da volta de Brian “Head” Welch após anos afastado. O Korn quis resgatar mais do seu som de guitarra e se separar do lance eletrônico do disco anterior, ainda que não totalmente. O novo fôlego com o retorno de um dos fundadores trouxe ânimo aos fãs e um respiro para a banda, que parecia novamente encontrar um norte em sua caminhada que enfretou duras pedras nos anos anteriores. Ainda que não seja o disco mais marcante de sua trajetória, há ótimos momentos ali como “Love and Meth” e “Pray For Me“, em contrapartida de outras não tão interessantes como “Never, Never“. Também possui um disco extra com músicas que são mais interessantes do que algumas do registro principal, como “Hater” que deveria estar na versão final.

08 – Korn – “The Nothing” (2019)

Um disco sobre luto. Jonathan Davis passava por momentos realmente difíceis de sua vida, enfrentando a morte de sua ex-esposa, mãe de seus filhos e meses antes, havia perdido sua mãe. Isso se reflete logo de cara na primeira música do álbum, “The End Begins“, que começa com sons de gaita de fole e termina com o choro incontrolável de Davis. Faixas realmente pesadas como “Cold” e “Idiosyncracy” figuram entre as melhores do catálogo da banda em um disco que chega a ser um pouco difícil de se digerir de primeira mão.

07 – Korn – “Take a Look in the Mirror” (2003)

Com uma sonoridade seca e crua, a ideia aqui era fazer tudo ao contrário do que foi feito no disco anterior. O baixo se destaca ao ponto de incomodar em certos momentos e a regulagem das guitarras não soa das melhores. Gravado no estúdio particular de Jonathan em sua casa, algumas das músicas foram feitas em pré-shows e outras compostas dentro do ônibus de viagem. O resultado não soa como o melhor dentro da discografia, mas tem momentos que viraram ícones da banda, como “Right Now“, “Did My Time” e “Y’All Want a Single“.

06 – Korn “The Serenity of Suffering” (2016)

Foi aqui que o Korn se reencontrou! Depois de experimentalismos, mudanças na formação, altos e baixos, a banda conseguiu se fortalecer e criar um de seus melhores registros. Durante todo o álbum, é possível ver elementos de clássicos de outrora como “Untouchables“, “Issues” e “Follow the Leader“. Totalmente focado nas guitarras e no peso, músicas como “Rotting in Vain“, dona de um refrão grudento e marcante, com o retorno dos scatting de Jonathan em destaque, “Insane“, dona de um peso descomunal e “The Black is Soul“, que flerta com o gótico, são alguns exemplos da maturidade que a banda atingiu aqui e das pontas soltas que conseguiram amarrar novamente. Conta ainda com a participação de Corey Taylor do Slipknot na faixa “A Different World“, com o dueto de dois dos maiores gigantes do new metal!

05 – Korn – “Follow the Leader” (1998)

Esse foi a virada de chave para o Korn. A partir deste disco, a fama mundial chegou. “Freak on a Leash” se tornou um dos vídeos mais reprisados na MTV, seguida por “Got the Life“. Se até aqui algumas pessoas não sabiam que existia um Korn, passaram a saber, quer gostassem ou não do som e o que eles faziam. Foi o primeiro álbum a não ter Ross Robinson como produtor, trazendo Toby Wright, que colocou o grupo em um som mais “limpo”, mais radiofônico, mas mantendo sua essência aliado a esses novos elementos, tudo em uma alta produção.

Ainda que seja um marco na história do Korn, seja pelas mais de 14 milhões de cópias vendidas, as diversas certificações de platina e ouro, a participação do criador do Spawn, Todd McFarlane tanto no conceito da capa como para o vídeo de “Freak…“, “FTL” escorrega em algumas besteiras que não fazer o mínimo sentido como “Children of the Korn” e “All in the Family“, não a toa, considerada por Jonathan Davis a pior música já feita pela banda.

04 – Korn – “Life is Peachy” (1996)

Visceral, cru, rápido e raivoso! O segundo disco do Korn foi gravado ao vivo em estúdio com tudo acontecendo ao mesmo tempo, logo após o fim da turnê de sucesso do primeiro álbum. Com letras carregadas de angústia e ódio, o registro é uma sessão de descarrego do começo ao fim. Tudo se inicia com a caótica “Twist“, onde Jonathan balbucia sons com uma voz gutural e que no futuro viraria uma de suas marcas principais, passando por “Chi“, com gritos cortantes em sua metade, “Good God” e seu groove monstruoso, a clássica “A.D.I.D.A.S“, em analogia a marca de roupas mas que tratava de temas sexuais e a apoteótica “Kill You“, uma espécie de sequência de “Daddy“, do álbum anterior e que fala sobre a péssima relação de Davis e sua madrasta. O Korn em seu estado mais puro!

03 – Korn – “Issues” (1999)

Se em “Follow the Leader” a fama e o dinheiro chegaram ao Korn, foi em “Issues” que eles aprenderam a lidar com isso. Seguindo os passos de seu antecessor, mas sem as “escorregadas”, o quarto disco mostra uma banda que começava a encontrar a maturidade e se alinhar melhor com o lado profissional. Primeiro registro feito por Jonathan sóbrio, traz momentos que se tornaram grandiosos como “Falling Away From Me” e “Somebody Someone“, além de “Trash“, a curta, mas impactante “4U“, “No Way“, entre outras que mostraram que a parir daquele ponto não havia mais volta. O Korn atingiu um status mundial e carimbava seu passaporte para o hall de grandes bandas dos anos 1990, encerrando a década com chave de ouro.

02 – Korn – “Korn” (1994)

Quando Jonathan Davis gritou pela primeira vez “Are You Ready?” na introdução de “Blind“, essa pergunta poderia ser direcionada a ele próprio, porque provavelmente ele não estava pronto para ser a voz de uma das maiores bandas da história do rock, não estava pronto para inaugurar um novo gênero dentro do metal, não estava pronto para todo o sucesso e fama ao longo de mais de 30 anos de carreira. Tudo começou aqui, com um disco de pouco mais de 1 hora, onde nada do convencional era regra, e as regras do tradicional foram quebradas. Flertes com o funke e o hip-hop surgiam em meio a guitarras de afinação baixa e não focando em solos gigantescos e intrincados tecnicamente, mas sim em traduzir em riffs, letras que contavam o mais intímo de um homem que surgia chorando copiosamente ao final do registro.

Korn” é um marco dentro da década, um ponto de partida para mudanças que até hoje em dia atuais traz “novos filhos”, como o Tetrarch, banda que claramente se inspira nos primeiros momentos dos cinco garotos de Bakersfield, que sem estarem prontos, chutaram a tudo e a todos os padrões e se tornaram referência.

01 – Korn – “Untouchables” (2002)

Se “Follow The Leader” foi a virada de chave para o sucesso e fama do Korn, “Untouchables” foi outra virada, mas dessa vez, em termos musicais. Para muitos, foi aqui que a banda perdeu suas principais características, apostando em um som mais linear, inclusive com o baterista original, David Silveria falando o mesmo ao explicar porque o álbum não o agradava tanto.

Fato é que em seu quinto disco, o Korn pegou tudo aquilo que eles haviam aprendido até ali, entraram em um estúdio com uma gravadora majoritária do ramo da música, um orçamento monstruoso e um produtor, Michael Beinhor, que já havia trabalhado com nomes gigantes como Ozzy Osbourne, Red Hot Chili Peppers, Marilyn Manson, entre outros vários e que exigia nada menos do que a perfeição de cada membro, principalmente de Jonathan Davis, que se não entregasse o que ele queria no dia, nem iniciar as gravações ele fazia.

Tudo isso transformou “Untouchables” em uma odisséia sonora, mix de estruturas de músicas que não se pareciam uma com as outras, variações estilistícas que criaram momentos únicos. A pesada feito uma manada de elefantes “Here to Stay” abre os trabalhos e até hoje é peça fundamental dos shows. Há outros momentos bastante diversificados no decorrer do disco, como “Make Believe” e “Hollow Life“, cada uma com uma particularidade.

Untouchables” marca o fim de uma era do Korn, que para muitos foi o seu ápice criativo e não por menos, em cinco discos eles mostraram tudo que tinham de melhor em termos de composição e criaram uma identidade que atravessou décadas e ecoa nos dias atuais e se esse foi o nó que amarrou em definitivo esse período, então ele foi dado com a melhor das habilidades.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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