Angra supera conflitos, emociona fãs e faz história no Bangers Open Air

Fotos: André Tedim

O Angra fez história no Bangers Open Air. Encarregado de encerrar a edição do festival esse ano, o show seria especial por diversos motivos. Fabio Lione se despedia do grupo após 13 anos junto deles, Alirio Netto fazia sua estreia como o novo vocalista, e claro, o reencontro da formação “Nova Era“, com Edu Falaschi, Aquiles Priester e Kiko Loureiro se juntando novamente a Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli, e também, à Marcelo Barbosa que faz parte da formação atual da banda.

Havia muita expectativa em relação ao show, não só pelo que seria apresentado no palco entre reencontros e despedidas, mas porque também nos últimos meses, coisas foram ditas em tons não muito amistosos entre alguns integrantes e muitos esperavam que isso pudesse intervir em alguma questão da apresentação.

Mas o que vimos foi uma apresentação de uma banda que acima de qualquer entrave além do profissional, é extremamente competente e conseguiu pegar seus fãs de uma forma que talvez nem o mais ardoroso esperasse, no que pode ter sido o maior show da carreira da banda até hoje em termos de história e importância.

Entre chegadas e despedidas: O Angra em Terra Sagrada

Uma frase que foi dita por diversas vezes por aí é que o palco é um chão sagrado e do artista, quando ele está ali, está em seu maior estado de graça. E assim foi quando pontualmente as 20:40, um canto de coral começou ecoar pelo Memorial da América Latina, e uma rosa dos ventos surgiu nos telões do Bangers Open Air. E assim, pelas mais de duas horas a frente, o Angra seria o dono do lugar e responsável por trazer momento de música forte, nostálgica e para uma leva de fãs que amam os odiar, mas mantém o seu carinho por um dos maiores nomes do metal brasileiro.

Fogos explodem no céu e “Nothing to Say“, do icônico “Holy Land“, abre a noite com seu riff pesado e cru. Alirio Netto então sobe ao palco pela primeira vez oficialmente como o novo vocalista do Angra e mesmo com um arzinho de nervosismo, não a toa, pois ele sabe da responsabilidade que tem em suas mãos, mas segura a onda e mostra que após tantos anos correndo pelo “Angraverso“, ele finalmente está onde sempre desejou, como ele próprio disse durante o show e que já está se sentindo em casa.

Angels Cry” da sequência e é recebida em puro extâse pelo público, levando ao começo de tudo, lá onde foi o início da caminhada longa que viria pela frente, onde já se somam mais de 30 anos de carreira. A música funciona ainda melhor ao vivo com sua dinâmica pesada e técnica e jogou o público em euforia.

Era hora do Mago subir ao palco. Fabio Lione surge no centro da “terra sagrada” onde tudo acontecia e era a deixa para “Tide of Change“, de “Cycles of Pain” e uma escolha não tão boa, já que havia outras muito melhores do catálogo com o cantor na banda, a música é fria, principalmente por dar sequência as duas anteriores.

Lione troca algumas palavras sobre seus mais de dez anos como a voz do Angra, de forma sucinta, agradece os fãs que o abraçaram e ganha alguns gritos de “mago” e “Fabio, Fabio, Fabio”. Era o fim de mais um ciclo da banda que estava tomando forma ali na frente dos nossos olhos. Mas antes, ele encerra sua fala dizendo “vamos cantar Lisbon“, e assim foi feito. Os teclados iniciais da faixa vinda de “Fireworks“, acompanhados pelo coro da plateia, é um clássico absoluto de um disco que ainda divide opiniões.

A sequência finaliza com a belíssima “Vida Seca“, essa sim um ótimo acerto vinda do último disco da banda e executada ao vivo é ainda melhor que a original e fica a dúvida se em sua nova fase, uma composição desse nível irá surgir novamente. E ainda, Alirio retorna ao palco sentado no piano e trazendo uma faixa que ficou afastada do setlist do Angra por muito tempo. “Wuthering Heights“, de Kate Bush e imortalizada na versão da banda em seu primeiro disco é divinamente ovacionada por aparecer novamente em um momento tão importante. Uma verdadeira aula de arranjos, “Carolina IV” encerra o bloco com sua construção tão bem feita e rica de elementos, um diamante lindamente talhado com todas as marcas do Brasil nela.

Uma vez mais, Nova Era

Luzes se apagam, um tom azul ganha o palco, um interlúdio começa ser tocado! Todos sabem o que vem aí! Surge Edu Falaschi no palco, Kiko Loureiro e Aquiles Priester em seguida, Rafael e Felipe se juntam a eles e uma vez mais, a formação “Nova Era“, a segunda do Angra está junta novamente no palco, um momento que muitos fãs achavam que nunca mais veriam acontecer e após a expectativa, acontecia diante dos olhos de todos.

Começam os riffis iniciais orquestrados, bateria rápido e deu a largada com “Nova Era“, que cantava os novos ares da banda lá no início dos anos 2000, e uma vez mais executada pelos originais da faixa. Foi o momento que muitos ali esperavam e aí, caíram por terra qualquer intriga, fofoca, disse que não disse ou qualquer outra coisa, o que importava era o que estava acontecendo ali diante dos olhos de cada um. O show desenrola com “Waiting Silence“, de “Temple of Shadows“, um dos discos mais queridos dos fãs, assim “Millenium Sun” também muito querida pelos fãs é aplaudida.

Um dos ápices desse bloco, “Heroes of Sand” chega como uma verdadeira máquina do tempo de vários e vários e vários dos ali presentes, incluindo eu próprio, que lembrou do garoto de 15 anos ouvindo isso pela primeira vez em um K7 gravado do CD e que nunca iria sonhar estar vivendo um momento desses de forma profissional, difícil segurar e explicar algo assim. “Ego Painted Grey” vem representar “Aurora Consurgens“, disco amado por uns e odiado por outros mas que não foi esquecido e assinou seu nome na noite de gala.

Edu brincou em seguida que eles iriam tocar uma música que fez muito sucesso no Brasil, que explodiu de formas que eles não esperavam furando a bolha do metal. Ele se referia a “Bleeding Heart“, que até gahou uma versão feita pelo Calcinha Preta, intitulada “Agora Estou Sofrendo” que inclusive o próprio Edu apareceu no dvd da banda cantando a versão. Celulares com lanternas acesas e o momento emotivo do show surge com a baladona apaixonada.

Por falar em brincar, Edu fez questão de seu tempo no palco fosse uma verdadeira nostalgia. Ele relembrou suas famosas falas do dvd “Rebirth Live“, como “E aí São Paulo”, “heheheheheeeey”, “É hora de voltarmos no tempo”, entre outras, o que fez a experiência ser realmente completa.

Spread You Fire” traz fogo ao palco, literalmente, com labaredas subindo e a velocidade da música executada com perfeição é um dos pontos chaves dessa parte do show. “Acid Rain” aparece ainda, dando deixa para um violão posicionado no palco e todos sabiam o que vinha ali. “Uma música sobre renascimeto”, disse Rafael Bittencourt, e assim, os acordes de “Rebirth” surgiram no palco, com Aquiles vestindo a sua máscara de polvo e um coro monstruoso tomando o local acompanhando o refrão.

Pista lotada e sufocante, assim se encerrava mais um ato do grande espetáculo. Mas havia mais por vir e com um momento que arrancaria lágrimas e uma emoção sem controle.

Andre Matos ovacionado e um legado histórico do Maestro

É difícil ver tudo isso acontecendo e não deixar de pensar que Andre Matos poderia estar ali, não fosse o fatídico e trágico rumo que a vida tomou em 2019 e resolveu dar um tombo em todos nós. Mas de alguma forma, ele esteve ali.

O palco se escureceu, uma coluna de luz branca surgiu em cima do piano colocado no palco e um microfone, e no som, a voz de Andre surgiu pegando a todos de surpresa e causando uma comoção visceral que fez olhos escorrerem e maquiagens borrarem ao som da introdução de “Silence and Distance“. Gritos de “Andre, Andre” surgiram e foi difícil ver imagens do Maestro no telão, como se ele estivesse ali presente, como se fosse o seu momento no palco. A música então é executada com Alirio e Edu nos vocais e aí foi difícil aceitar que aquela presença não está mais entre nós em forma física, ao sua grande foto surgir no fundo do palco, com reverências e um legado que poucos deixaram e deixarão no metal brasileiro.

Que saudade e quanta falta você faz, acredito que você tenha visto isso de onde estiver e sentiu o carinho que todos nós aqui embaixo temos por você e que o seu legado e história nunca serão apagados!

O encerramento, o encontro de eras e um novo começo

Tentando se reestabelecer desse momento tão forte, “Late Redemption” é tocada e abre espaço para o encerramento com “Carry On“, onde todos estão no palco.

O Angra finalizava seu show, Fabio Lione tinha seus últimos minutos como vocalista e que escreveu sua própria história nessa mais de uma década junto com essas pessoas, deixa três discos e sua identidade. Alirio Netto chega e começa a escrever nova páginas dessa trajetória que é recheada de alegria, tristezas, alto e baixos e que já se tornou quase um folclore próprio, com grupos como o World Angra no Facebook, onde fãs se amam e odeiam, amam odiar e odeiam amar essa banda, que na verdade é um tesouro do nosso metal e se eles sabem o que fazer, é subir no palco e entregar um show de excelência e qualidade impecável, deixando de lado qualquer entrave e descarregando profissionalismo.

Os próximos capítulos, o futuro vai nos contar…

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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