In Flames entrega show técnico e poderoso em São Paulo

Texto: Jéssica Valentim
Foto: Gustavo Diakov em cobertura para a Roadie Crew

A semana do Bangers Open Air trouxe consigo uma série de side shows que movimentaram não apenas a capital paulista, mas diversas cidades do Brasil. Na quinta-feira, dia 23 de abril, foi a vez da Audio abrir suas portas para uma noite de peso, recebendo os suecos do In Flames com a abertura dos brasileiros Throw Me to the Wolves.

In Flames é um dos grandes pilares do melodic death metal. Formada em 1990 em Gotemburgo, na Suécia, a banda integrou a influente cena local ao lado do At the Gates e Dark Tranquility. Curiosamente, os membros fundadores desses três grupos eram amigos e chegaram até a trocarem integrantes entre essas bandas.

A visão do fundador Jesper Strömblad (guitarrista/baterista/tecladista) era inovadora para época: fundir as harmonias do Iron Maiden com a agressividade do death metal. Um detalhe interessante na sua sonoridade é o uso constante de teclados, embora o grupo jamais tenha integrado um tecladista oficial em seu lineup. Com 14 álbuns de estúdio e números impressionantes — incluindo quatro Grammis (o Grammy sueco) e milhões de ouvintes mensais —, a banda mantém sua relevância ainda que divida opiniões entre os fãs de longa data com sua mudança de sonoridade ao longo dos anos.

Em sua quarta passagem pelo Brasil — após visitas em 2009, 2017 e 2023, havia uma grande expectativa sobre a estrutura do setlist e quais fases da carreira seriam priorizadas no palco.

O início da noite

A Throw Me to the Wolves, banda paulistana, parecia ter “a faca e o queijo na mão” com seu som similar ao In Flames, ao abrir para uma de suas maiores influências — como destacado pelo próprio vocalista Diogo Nunes durante a performance. Sabemos que shows de abertura são desafios constantes para bandas autorais brasileiras; conseguir o engajamento de um público que costuma ficar “com cara de paisagem” já é, por si só, uma grande vitória. A banda está longe de ser iniciante. Com passagens por diversos eventos do underground e aberturas para gigantes como Hammerfall e Exodus, o grupo carrega uma bagagem respeitável, reforçada recentemente por sua primeira turnê europeia ao lado do Nanowar of Steel.

Diferente de outras ocasiões, ali parecia ser o cenário ideal, já que a sonoridade deles dialoga diretamente com o In Flames — algo evidente em faixas como “Fragments”, “Awakening my Demons” e “Days of Retribution”, todas presentes no álbum de estreia homônimo. No entanto, mesmo com o carisma de Diogo, a técnica de Gui Calegari em suas sete cordas, a velocidade de Maykon Avelino na bateria e a precisão de Fábio Fulini e Fabricio Fernandes (baixo e guitarra respectivamente), o público não parecia totalmente “convencido”. Uma pena, pois sobra talento e seriedade no palco. A faixa de encerramento, “Gaia”, é uma das composições mais interessantes do metal brasileiro nos últimos anos (na opinião dessa que vos escreve). Fica a recomendação: é, sem dúvidas, uma banda para manter no radar.

In Flames prova porque resiste ao tempo e é um dos nomes mais influentes do death metal melódico

Com atraso sutil de 10 minutos, o público gritava a cada troca de música no som mecânico, ansioso pelos monstros do melodic death metal. Sob fumaça e luzes baixas que “explodiam” em momentos pontuais, os primeiros acordes de “Pinball Map” (Clayman, 2000) foram o estopim para uma comoção generalizada. Embora o jogo de luzes laterais desse uma embaralhada na vista, o que se via eram músicos genuinamente felizes e satisfeitos com a recepção brasileira. O ritmo do setlist foi frenético — cerca de 1h10 de show, com pouca conversa e muita música. A agressiva “The Great Deceiver” deu início à cota do álbum mais recente, “Foregone” de 2023, que ainda contemplou “In the Dark“, “Meet Your Maker” e “State of Slow Decay” (5, 10 e 11 no set respectivamente).

Na quarta faixa, “The Quiet PlaceSoundtrack to Your Escape“, 2004, ocorreu um dos momentos mais curiosos da noite: o vocalista Anders Fridén pegou o celular de um fã na grade para gravar os músicos no palco. O “trágico” detalhe, descoberto após o show, é que Anders apertou o botão de gravar justamente quando o fã já o tinha ativado — interrompendo o registro no exato momento em que o ídolo pegou o aparelho. O melhor “pior momento” possível. Antes disso, em “Deliver Us“, Anders já havia “tomado” a câmera de um fotógrafo no pit, cujos cliques também não saíram como o esperado. Compreensível: os atributos de Fridén são outros — e ele os executa com maestria, entregando vocais limpos e guturais impecáveis.

Completam a formação ao lado de Anders e Bjorn, Liam Wilson (baixo), Jon Rice (bateria) e Chris Broderick (guitarra), mostrando um entrosamento incrível entre eles e uma banda alinhada e afiada. São extremamente enérgicos, interagindo, pulando e cantando junto ao público. Na penumbra do camarote, o prestígio era de alto nível: Tom Englund do Evergrey, além de Michael Amott e Daniel Erlandsson, ambos do Arch Enemy, observavam a reação do público brasileiro que, provavelmente, reencontrarão no festival no fim de semana.

Em um dos poucos momentos de interação verbal, Anders pediu que o público dançasse e até arriscou alguns passos durante os primeiros acordes do hit “Cloud Connected“. Logo após, visivelmente grato, o vocalista confessou não saber o que dizer além de um sincero “obrigado por estarem aqui conosco”, antes de emendarem “Trigger“. O clímax veio com “Only for the Weak“, talvez o maior sucesso da banda, recebido com gritos fervorosos. Memorável.

Mesmo em faixas mais cadenciadas como “Alias” e “Voices“, a energia não oscilou, sustentada por refrãos melódicos e harmonias de guitarra impecáveis. A reta final foi um combo devastador: a vibrante “The Mirror’s Truth“, a visceral “I Am Above” e a avassaladora “Take This Life“. Antes de iniciarem a “quebradeira” final, Anders pediu um circle pit, demonstrando certa indignação por ser o primeiro da noite — um reflexo, talvez, da divisão entre pista premium e comum, algo sempre intrigante em uma casa como a Audio. Mas o pedido foi prontamente atendido.

No final das contas, o set contemplou principalmente a fase mais recente, e ainda assim conseguiu agradar aparentemente os fãs presentes.

Com a mensagem final de “respeitem a todos”, o In Flames entregou uma performance memorável, direta e frenética. Um aquecimento de luxo para o show de sábado (25), no Bangers Open Air.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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