Crítica: The Boys tenta corrigir erros em último episódio e tem final agridoce

Nos primeiros episódios da quinta e última temporada de The Boys, um diálogo aparentemente banal sobre o final de Lost serve quase como um aviso ao espectador: finais são difíceis. E, na maioria das vezes, frustram.

A televisão recente está cheia desses exemplos. Game of Thrones viu sua reta final desmoronar após anos de construção sólida; Dexter conseguiu a façanha de entregar um final controverso e, anos depois, retornar apenas para criar outro ainda mais questionável; The Walking Dead se perdeu em meio à própria longevidade; Supernatural seguiu o mesmo caminho e dividiu seus fãs até os últimos minutos. Agora, parece ser a vez de The Boys entrar para essa lista.

O prenúncio já existia na temporada anterior, que demonstrava um desgaste criativo evidente e um ritmo cansado. Ainda assim, havia expectativa de que o último ano compensasse a irregularidade recente com um encerramento explosivo. Afinal, foram sete anos construindo aquele universo e acompanhando personagens que se tornaram símbolos de uma geração cansada da fórmula tradicional dos super-heróis.

Quando estreou, em 2019, The Boys surgiu quase como uma resposta ácida à saturação causada pelo domínio absoluto dos filmes da Marvel Studios no cinema. Enquanto o gênero se afundava em piadas cafonas, heroísmo plastificado e explosões coloridas, a série apresentou versões grotescas e moralmente falidas de figuras que lembravam ícones clássicos dos quadrinhos. Por trás da imagem pública inspiradora dos “Sete”, existia um ambiente corrupto, depravado e profundamente violento e sádico. Era justamente essa desconstrução que tornava a série tão interessante.

Ao longo das temporadas, fomos apresentados a figuras repulsivas como Stormfront — talvez a personagem mais perturbadora da série — e Soldier Boy, uma releitura decadente do Capitão América mergulhada em drogas e sexo. Conforme a trama avançava, porém, o foco político e corporativo passou a dominar cada vez mais o roteiro. Curiosamente, muita gente apontou esse momento como “a virada” em que The Boys teria se perdido, quando, na verdade, essa crítica sempre esteve no DNA da série desde o primeiro episódio.

E é impossível ignorar o contexto do mundo real nesse processo. A ascensão da extrema-direita nos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump acabou se tornando combustível perfeito para a narrativa. Aos poucos, Homelander deixava de ser apenas uma sátira genérica do Superman para incorporar trejeitos, discursos e até elementos visuais que remetiam diretamente à figura política norte-americana. A mudança no penteado agora na última temporada, por exemplo, certamente não aconteceu por acaso.

O problema é que muitos espectadores esperavam que a temporada final abraçasse completamente o caos prometido ao longo dos anos. O público queria o confronto definitivo, violência desenfreada, mortes impactantes e consequências brutais. Em vez disso, os episódios avançam lentamente, quase sem direção, esfriando gradualmente até a finale. E diferente da clássica metáfora do “cachorro correndo atrás do próprio rabo”, aqui nem sequer parece haver movimento.

Daqui em diante, spoilers podem acontecer.

O retorno de Soldier Boy talvez seja o maior símbolo dessa sensação de desperdício. Em sua primeira aparição, o personagem parecia representar uma arma definitiva contra Homelander, funcionando como peça-chave para Butcher e seu grupo. Aqui, porém, sua presença soa irrelevante. Surge apenas como uma engrenagem conveniente para determinados eventos envolvendo o Composto V e desaparece sem realmente impactar a narrativa. Qualquer outro personagem poderia cumprir a mesma função.

O mesmo vale para a morte de Frenchie. A cena tenta transmitir peso emocional, mas não encontra consequência dramática suficiente para justificar o sacrifício. Há uma construção inicial sugerindo que aquilo serviria como impulso definitivo para Kimiko, mas o desenvolvimento simplesmente abandona essa ideia em sua cena chave ao final do capítulo.

Talvez o maior erro da temporada seja justamente desperdiçar seus antagonistas. Em uma série repleta de supers e conhecida pela violência extrema, era natural esperar confrontos memoráveis e mortes brutais. Mas personagens como Firecracker, The Deep e Oh-Father recebem desfechos rápidos demais, quase sem impacto. Especialmente no caso de The Deep, havia um desejo coletivo de assistir o personagem sofrer pelas atrocidades cometidas desde o início da série. O roteiro até insinua isso durante o confronto com Starlight, mas recua imediatamente e tudo acontece de forma “piscou, perdeu”.

Já o embate entre Billy Butcher e Homelander entrega exatamente o que se esperava em termos de atuação. Karl Urban e Antony Starr sustentam a tensão do confronto de maneira impressionante. Ver Homelander finalmente acuado, sangrando e demonstrando medo é um dos momentos mais fortes de toda a série — especialmente porque Starr construiu o personagem com um nível de intensidade raro na televisão contemporânea e ao mesmo tempo que torcemos para que ele sofra o máximo possível por tudo que fez ao longo desses anos todos, a atuação entrega algo que nos faz ter pena daquela figura humilhada, desnuda e patética. Já Urban, tem no olhar toda a sede de vingança e convicção de que chegou a hora de sua redenção máxima.

Mas, novamente, o problema está no depois.

Ignorando as diferenças em relação aos quadrinhos originais, o encerramento deixa perguntas demais e respostas de menos. O conflito final entre Hughie e Butcher parece indeciso sobre o que deseja representar: redenção? amadurecimento? sacrifício? vingança? Nada parece realmente fechado. Kimiko, que em muitos momentos parecia destinada a ser peça fundamental do desfecho, termina reduzida a uma ferramenta de conveniência narrativa e só some. Entre todos os personagens centrais, talvez apenas Mother’s Milk receba um encerramento verdadeiramente coerente com sua trajetória.

E é justamente aí que fica a sensação amarga deixada por The Boys. Além de suas sátiras políticas — que sempre foram parte essencial da série, gostem ou não — qual era, afinal, o propósito dessa história? Porque no último ano tudo parece descarrilhar em meio a subtramas abandonadas, arcos sem consequência e decisões que pouco acrescentam ao resultado final.

Talvez os futuros spin-offs e projetos derivados tentem preencher essas lacunas posteriormente. Ainda assim, isso não justifica uma temporada final que parece jogar suas peças ao vento e tentar resolver tudo em poucos minutos finais corrigindo todos os erros. Com sete deles de aproximadamente uma hora cada, havia tempo suficiente para desenvolver melhor seus conflitos e construir um encerramento mais sólido. Em vez disso, a sensação é de que o roteiro tentou corrigir os próprios erros às pressas em um único capítulo.

No fim, sobra aquele gosto agridoce já deixado por tantos outros finais frustrantes da televisão. E talvez os roteiristas tenham resumido involuntariamente a experiência do público ao ecoarem a essência de Butcher: “Oi, fuck off you cunts.”

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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