“Michael” é biografia medrosa que entre boas performances e o caricato, sobra um monte de nada
Contar a história de Michael Jackson nunca seria uma tarefa simples. Afinal, estamos falando de um dos artistas mais importantes da história da música, dono de uma trajetória repleta de conquistas, controvérsias e momentos que marcaram gerações. No entanto, “Michael“, nova cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua, opta pelo caminho mais seguro — e também o mais decepcionante. O resultado é um filme que se limita a ilustrar acontecimentos conhecidos do público, sem mergulhar de fato na complexidade de seu protagonista.
A produção acompanha a trajetória de Michael desde a infância nos Jackson 5 até o auge da era “Bad“, passando pelos conflitos familiares e pela transformação que o tornou um fenômeno global. O problema é que praticamente tudo acontece de forma acelerada, como se estivéssemos folheando uma versão audiovisual da Wikipédia. Eventos importantes surgem e desaparecem sem qualquer aprofundamento emocional ou dramático.
A superficialidade chama ainda mais atenção por se tratar de Antoine Fuqua. Diretor de obras como “Dia de Treinamento” e a trilogia “O Protetor“, ele já demonstrou inúmeras vezes sua capacidade de construir tensão e conflitos intensos. Aqui, porém, os momentos que deveriam servir como pilares emocionais da narrativa são reduzidos a cenas rápidas, sem impacto ou desenvolvimento.
Um dos exemplos mais claros é a relação entre Michael e seu pai, Joseph Jackson. O longa tenta apresentar o patriarca como o grande antagonista da história (não que de fato ele não seja, mas a aura de vilão hollywoodiano aqui é quadrada demais), mas nunca encontra profundidade suficiente para que os confrontos entre os dois realmente afetem o espectador. O embate que deveria representar um dos pontos mais fortes da narrativa termina tratado de forma simplista, sem a carga dramática necessária para justificar sua importância. A cena de Michael e Joseph em seu quarto é uma das provas do quão raso são essas águas. A sequência prepara o terreno, com o cantor e sua mãe assistindo à um filme e em seguida ele indo rumo ao quarto onde se depara com o pai, o forçando a estar em uma turnê da qual ele não queria, e o que era para ser um dos pontos mais tensos do filme, não passa de uma cena digna de Malhação, sem nenhum peso, apelo ou drama real que envolva atores e espectadores. O desfecho chave do confronto final entre os dois também acontece de uma forma calhorda, em câmera lenta cafona, com a profundidade de uma piscina para bebês.
O roteiro segue o padrão “messiânico” de o vilão que faz a vítima ser herói, e as circusntâncias levam à figura intocável e gigantesca, mas tudo através de fatos que são nada mais do que flashs piscados na tela e recortes temporais que vão simplesmente passando diante dos olhos do espectador. Algo muito similar que acontece com “Bohemian Rhapsody“, cinebiografia de outro ícone da música, Freddie Mercury, que entrega o mímico e caricato cantor do Queen de Rami Malek. Inclusive, Mike Myers surge mais uma vez tendo alguns segundos de tela mais uma vez no papel de empresário chave de um artista gigante
E caricaturas são o que não faltam por aqui. Jaafar Jackson, sobrinho de Michael, se esforça para parecer o tio em todos os momentos, seja no palco ou fora dele, acerta no timbre de voz e faz boas performances quando como o artista, mas fora do palco, não passa de uma encenação paródia, que remete as atuações canastronas do astro em seu filme “Moonwalker“, ainda que menos caricato do que Malek e seu Freddie. Colman Domingo, por sua vez, interpreta Joseph Jackson como uma figura quase caricatural. Coberto por uma maquiagem pesada digno de antagonista de história infantil e enquadrado constantemente como um vilão absoluto, o personagem perde nuances e se torna apenas uma ferramenta para impulsionar a narrativa de superação do protagonista.
Se existe um aspecto em que “Michael” realmente funciona, é na recriação dos momentos musicais. O ator mirim brasileiro Juliano Krue Valdi se destaca ao representar a fase dos Jackson 5, demonstrando carisma e talento em cena. Já Jaafar brilha ao reproduzir apresentações icônicas da carreira solo do cantor. Sequências envolvendo músicas como “Human Nature” e a primeira execução do famoso moonwalk estão entre os melhores momentos do filme e chegam a criar a sensação de estarmos assistindo ao próprio Michael Jackson.
Tudo se encaixa ao conveniente. Michael Jackson agarrado à um livro de Peter Pan para justificar sua criança eterna no futuro, e agora, inclusive sendo “responsável” pelas mudanças em seu nariz. A figura paterna de um segurança apresentada ainda na infância e que se seguiria adiante. A história de vítima de uma tragédia para sua relação com os remédios. São dezenas de casos espalhados pelo longa que estão ali para somente justificar de forma “sacrificante” todos os pontos da história do astro. Outros chegam a ser risórios, como quando Michael vê uma reportagem sobre brigas de gangues, que daria origem a “Beat It“e sua solução de apaziguamento é colocar membros rivais em um galpão e os fazer dançar juntos para selar a paz. Nem mesmo uma mente inocente como a de Jackson engoliria uma coisa tão patética como essa e acreditaria em algo tão bobo.
“Michael” acaba sendo uma cinebiografia excessivamente preocupada em proteger sua lenda. Ao evitar mergulhar nas contradições, dores e ambiguidades do artista, entrega apenas um resumo visual de sua trajetória faltando principalmente coragem para explorar quem Michael Jackson realmente foi. Para compreender a genialidade de MJ, seus videoclipes, performances e músicas continuam sendo uma experiência muito mais reveladora do que este filme jamais consegue ser e se preparar para o que a prometida segunda parte, focada na década de 1990 nos entregará, já que ali é o período mais conturbado de sua vida.
