Muse cria odisseia científica e progressiva em disco mais versátil e bem feito de sua trajetória

O Muse é uma banda que sempre dividiu opiniões ao longo da carreira, mas acabou se consolidando como um dos principais nomes do rock surgidos dos anos 2000 em diante. Embora tenha iniciado sua trajetória em meados da década de 1990, o trio foi conquistando uma legião de fãs ao redor do mundo graças à sua sonoridade peculiar, repleta de influências e personalidade. Para alguns, nunca passou de um Coldplay com guitarras mais pesadas; para outros, tornou-se um dos grupos mais inventivos de sua geração.

Independentemente das críticas ou dos rótulos, o Muse nunca baixou a cabeça. O sucesso veio naturalmente e, agora, a banda chega ao seu décimo álbum de estúdio, “The Wow! Signal”, uma obra que mergulha de vez na ficção científica e entrega o trabalho mais inventivo e amadurecido de sua discografia. O disco passeia pelo rock progressivo, ópera, trilhas de videogame e diversos outros elementos, construindo uma experiência rica, grandiosa e de fluidez impecável.

Formado por Matt Bellamy, Dominic Howard e Chris Wolstenholme, o grupo buscou inspiração no famoso evento de 1977, quando um misterioso sinal de rádio vindo do espaço foi captado, tornando-se um dos maiores enigmas da astronomia moderna. Apesar do conceito cósmico, Bellamy afirmou que este é “o disco mais humano” que o Muse já produziu. A combinação entre o desconhecido e o emocional resulta em uma obra gigantesca, repleta de momentos que já nascem com cara de clássico, com a rica e poderosa produção de Dan Lancaster.

“The Dark Forest” abre o álbum com imponência cinematográfica. A introdução lembra a abertura de um grande filme e nos convida a embarcar nessa jornada pelo espaço e seus mistérios. Aos poucos, a música ganha novas camadas e mudanças de andamento que remetem tanto aos grandes clássicos da ficção científica quanto às trilhas sonoras de RPGs modernos. Um começo simplesmente épico, enriquecido pela participação da Orquestra Metropolitana de Londres. Na sequência, “Nightshift Superstar” funciona como um respiro após a grandiosidade da faixa de abertura, trazendo o Muse mais dançante e acessível, sustentado por um excelente refrão.

A melancólica “Shimmering Scars” apresenta uma atmosfera pesada, conduzida por um piano denso e um refrão extremamente bem construído. As linhas de bateria executadas por Dominic Howard merecem destaque e ajudam a transformar a faixa em um dos grandes momentos do disco, tornando sua audição praticamente hipnotizante.

“Cryogen” representa a aposta mais familiar do álbum, remetendo ao Muse dos primeiros anos e despertando um inevitável sentimento de nostalgia nos fãs que acompanham a banda desde o início.

“Be With You” começa de maneira soturna, mas aos poucos incorpora elementos eletrônicos e uma atmosfera mais pop, funcionando quase como um interlúdio de luxo antes da magnífica “Hexagon”. Dona de uma introdução hipnotizante de guitarra, “Hexagon” carrega fortes influências do Rush e surge como um dos maiores destaques do registro. As linhas de teclado realmente transportam o ouvinte para uma viagem espacial, enquanto as melodias vocais de Matt Bellamy brilham com enorme sensibilidade. Aqui, o Muse alcança um nível de inspiração impressionante e cria uma verdadeira odisseia sonora, digna dos grandes nomes do rock progressivo e com potencial para figurar entre os clássicos do gênero no futuro.

Para aliviar um pouco a intensidade, “The Sickness In You & I” aposta em riffs pesados e um refrão extremamente dinâmico. Logo depois, o já conhecido single “Unravelling” conquista pela introdução mais contida antes de explodir em uma parte principal caótica, que certamente se tornará um dos grandes momentos dos shows da banda.

Na reta final, “Hush” traz a participação especial de Ellie Goulding e também já havia sido apresentada como single do álbum. O encerramento fica por conta da contemplativa “Space Debris”, faixa que cumpre perfeitamente o papel de pousar essa gigantesca nave sonora construída pelo Muse ao longo de toda a experiência.

Melhor disco do ano? Isso sempre dependerá do gosto de cada um, obviamente. O que não se pode negar é a enorme competência apresentada aqui. “The Wow! Signal” é uma das obras mais abrangentes, ambiciosas e marcantes da carreira do Muse, mostrando uma banda plenamente consciente de sua identidade. O álbum recompensa os anos de espera por material inédito e entrega um conjunto de composições grandiosas, capazes de proporcionar uma experiência auditiva fascinante do início ao fim com uma verdadeira odisséia espacial.

NOTA: 9

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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