Resenha: Immolation – “Descent” (2026)

Poucas bandas conseguem atravessar mais de três décadas sem perder identidade ou relevância. O Immolation é uma dessas exceções. Quatro anos após o elogiado Acts of God, o grupo retorna com Descent, seu 12º álbum de estúdio lançado pela Nuclear Blast e distribuído pela Shinigami Records, provando que ainda há espaço para evoluir dentro de uma fórmula que ajudou a definir.

Com a mesma formação há cerca de dez anos — Ross Dolan (baixo e vocais), Robert Vigna e Alex Bouks (guitarras) e Steve Shalaty (bateria) —, o quarteto entrega um trabalho mais direto do que seu antecessor, mas sem abrir mão da complexidade técnica e da atmosfera sufocante que transformaram o Immolation em referência do death metal dissonante.

A abertura com “These Vengeful Winds” deixa claro que a banda não pretende desperdiçar tempo. A música alterna explosões de blast beats com mudanças bruscas de andamento, criando uma sensação constante de tensão. Os vocais cavernosos de Ross Dolan seguem impressionantes. Mesmo após décadas utilizando uma das técnicas mais exigentes do metal extremo, o baixista continua soando tão feroz quanto nos primeiros discos da banda. Já as guitarras carregam imediatamente a assinatura de Robert Vigna, mestre em construir riffs dissonantes e desconfortáveis que se tornaram uma marca registrada do grupo desde os anos 1990. Enquanto isso, Steve Shalaty impressiona com levadas repletas de polirritmos e viradas extremamente detalhadas. Em “The Ephemeral Curse”, a violência aumenta ainda mais. A faixa explode em velocidade máxima antes de mergulhar em passagens tortuosas, repletas de mudanças inesperadas de ritmo e harmonias desconcertantes. É justamente essa capacidade de transformar o estranho em algo musicalmente fascinante que diferencia o Immolation de tantas outras bandas do gênero. Não por acaso, o grupo é considerado um dos principais responsáveis pela consolidação do death metal dissonante, influenciando nomes como Demilich, Gorguts, Incantation, Ulcerate, Artificial Brain e Pyrrhon. Os dois primeiros singles divulgados antes do lançamento, “Adversary” e “Attrition”, representam bem o espírito do álbum. Em especial, “Adversary” alterna momentos de velocidade extrema com desacelerações pesadas, nas quais os riffs ganham ainda mais destaque graças à excelente produção. O trabalho de bateria merece atenção especial. Mesmo nos trechos mais rápidos, a precisão de Steve Shalaty impressiona e mantém toda a estrutura da música firme, sem comprometer a brutalidade.

A faixa-título, “Descent”, encerra o álbum com pouco mais de seis minutos de pura intensidade. Após uma abertura devastadora, a composição desacelera para explorar grooves pesados, linhas marcantes de bumbo duplo e mais uma sucessão de riffs intrincados. O solo de guitarra surge naturalmente dentro da construção da música, antes que a banda retome sua alternância entre explosões de velocidade e momentos mais cadenciados. É uma conclusão que sintetiza perfeitamente tudo aquilo que o Immolation representa.

Se Acts of God já havia colocado a banda entre os grandes lançamentos recentes do death metal, Descent consegue ir além. Sem repetir fórmulas ou depender apenas da própria reputação, o Immolation entrega um álbum ainda mais técnico, brutal e inspirado, reafirmando sua posição como uma das bandas mais importantes da história do death metal extremo. Enquanto muitos grupos acabam soando como variações do estilo criado pelos norte-americanos, Descent deixa claro que existe apenas um Immolation — e, mais de 35 anos depois, eles continuam estabelecendo o padrão.

NOTA: 8

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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