Roxette embala trilha sonora da vida em noite fria de São Paulo

Cada momento da vida tem uma trilha sonora. Pode ser romântica, engraçada, dramática, triste… mas sempre tem. Nesta terça gelada, 14 de abril, São Paulo recebeu um dos maiores responsáveis por esses momentos musicais: Roxette. E é incrível como certas músicas aparecem em nossas lembranças e, a princípio, nem sabemos o motivo, mas a sensação explode no corpo e você sente aquele feeling inexplicável.

O Espaço Unimed parecia não estar tão cheio, ainda mais numa terça-feira. Mas faltando 10 minutos para o horário marcado do show, a pista que parecia timidamente ocupada, encheu e o fato da produção da banda não permitir a transmissão do show pelos telões da casa, fez a plateia se amontoar para conseguir uma visão melhor do palco. Letreiros eletrônicos e neons com frases como “I love Roxette” se misturavam às pessoas que resolveram ir ao show vestidas como Julia Roberts em “Uma Linda Mulher”, afinal elas se sentiram prontas para um dos maiores sucessos da dupla, e porque não, um dos maiores dos hits anos 80, “It Must Have Been Love”. Taças de vinho nas mãos, roupas de paetês, balões de coração e casais abraçados, davam o tom da noite, que começou com 15 minutos de atraso, mas isso não pareceu incomodar o público, que se divertiu como se estivesse numa festa entre amigos.

Formada em 1986, o duo sueco, inicialmente composto pela, maravilhosa, Marie Fredriksson e Per Gessle, que já eram artistas renomados, com discos solo consagrados na Suécia, antes da criação do Roxette. E com tanto talento e sucesso aliados a uma química incontestável, confesso que fiquei bastante cética com a entrada de Lena Phillipsson, em 2019, devido ao falecimento de Marie. Mas minha incredulidade caiu por terra, quando percebi o que ela é capaz de fazer no palco. A banda que acompanha a nova dupla também não fica atrás: todos tocam como se não houvesse amanhã, com alegria contagiante.

Eles começam os trabalhos com “The Big L.” e já emendam com “Sleeping in My Car”, para Lena e Per saudar a plateia, com Gessle dizendo “como era bom estar de volta depois de tantos anos” (a última passagem pelo Brasil foi em 2014). Phillipsson ainda completa que era sua primeira vez na América do Sul e ela estava apaixonada por tudo o que estava conhecendo. A audiência respondia com o entusiasmo de quem conversa com um amigo que não vê há muito tempo. E sem perder tempo, “Dress for Success” começa, e a festa vem em forma de coro. Todos cantaram juntos, num karaokê imenso. As luzes abaixam um pouco, está na hora de “Crash! Boom! Bang!”, Gessle com o violão em mãos e um clima mais intimista toma conta do lugar. Muito diferente da primeira catarse da noite: “Wish I Could Fly”, que além de iluminar todo o ambiente, flagrou beijos apaixonados e olhares emocionados de uma plateia que desejava aquele momento. O coro foi massivo.

“Opportunity Nox” surgiu como um convite para a dança – e foi aceito pelo público. O camarote do Espaço Unimed, especialmente montado com mesas e nichos discretos, se soltou e, literalmente entrou na dança! “Fading Like a Flower” manteve o teatro em pé, curtindo aquela visão única: Lena e Per entregues, a banda… a dupla… uma simbiose perfeita. Nada escapava, nenhuma ponta solta, uma harmonia perfeita. Mais uma vez as luzes abaixam, o camarote volta ao seu lugar, a pista se entreolha, e, depois que a banda ressurge no palco, todos à frente, um “acústico com cara de improviso”, mas longe disso: “Church of Heart” traz uma emoção diferente, uma declaração de amor sublime, ao som de violões e bandolins.

“Almost Unreal”, “Stars” e “She’s Got Nothing On (But the Radio)” serviram para distrair o público da pedrada que viria a seguir: “It Must Have Been Love”. Lena prestou uma homenagem à Marie Fredriksson, dedicando a ela esse tema tão inesquecível em sua voz. Esse respeito ao legado foi emocionante, assim como ver a reação da plateia ao ouvir a primeira batida da bateria, como se toda a sua própria história passasse diante de cada olhar, como se essa fosse a trilha de cada vivência recordada. Bem na frente do palco, balões de corações eram jogados, transformando ainda mais a interação da banda com a audiência. Depois do solo de teclado, na volta dos vocais, Lena não sobe o tom, mantém o mesmo do refrão, então a banda para e o público segue cantando. Um coro uníssono, de letra, música e sentimento. Ao meu lado, uma das moças vestidas de “Julia Roberts”, soluçava de tanto chorar, como quem ainda acredita na Cinderela que Vivian representou.

“How Do You Do” veio para mudar o clima catártico, veio para fazer a casa toda dançar, e também para emendar com outro grande sucesso: “Dangerous”. Gritos, pulos e mais taças de vinho! A faixa libertou o espírito dos “convidados” dessa festa.

Um solo de guitarra que homenageou o brasileiro: o hino nacional. Todos orgulhosos cantaram e ao perceber o retorno da plateia, ele continua até o fim. E o que era para ser um trecho, um improviso, se tornou uma declaração de amor ao país. Colada nessa homenagem, mais um hit: “Joyride”; e a banda sai do palco. Luzes apagadas, sensação de “mas já?”.

Três minutos depois, novamente as luzes acendem, mas havia algo diferente: apenas Lena Phillipsson, Per Gessle e um violão. O bis começa acústico. E nada mais, nada menos que “Spending My Time”, outro clássico dos clássicos, numa versão intimista e delicada. Banda completa no palco para mais um hit: “Listen To Your Heart”.

Esse foi o momento em que a plateia explodiu. Não tinha como respirar. Gritos, abraços, uma iluminação maravilhosa, mais vinho… mais um suspense com o palco todo apagado. A banda retorna para o grand finale: “Queen Of Rain”, para encerrar o show num clima etéreo.

Per e Lena agradecem, dizendo que esperam não demorar para retornar e assim foi um show para não esquecer, com uma trilha que embalou o filme de nossas vidas.

Fotos: Camila Cara

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