Sepultura: “Arise” completa 33 anos de lançamento

Para alguns, o melhor disco do Sepultura. Para outros mais radicais, foi o início da decadência da banda. Independente da opinião que cada pessoa tenha a respeito de “Arise“, o quarto álbum da banda, cuja história se confunde com a história do Heavy Metal nacional, é inegável a importância do aniversariante do dia, que completa 33 anos nesta data e claro, não deixaria de ser assunto do nosso bate-papo nesta segunda-feira.

Uma verdade precisa ser abordada aqui, este de fato é o último álbum genuinamente Thrash Metal gravado pelo Sepultura, pois depois disso, a banda sempre buscou inovar em sua sonoridade. Nos dias atuais então, nem se fala, pois com Andreas Kisser e Paulo Xisto como os únicos remanescentes, o grupo até tentou correr do seu passado como os cachorros fogem de um bom banho. Mas nesta turnê de despedida, eles prometeram abordar diferentes estágios da longeva carreira.

Pois bem, em 1990, a banda vinha de uma turnê bem sucedida (e com algumas tretas, sobretudo, com a galera do Sodom) de seu disco anterior, o também excelente “Beneath the Remains“, que apesar de ser bem rápido, era mais cru e tinha uma sonoridade mais voltada ao Thrash Metal alemão. E com todo o apoio da Roadrunner, esperava-se que a banda ultrapassasse novamente seus limites, o que não era uma tarefa difícil para aqueles quatro caras.

Assim, a banda se reuniu novamente com o produtor Scott Burns e trocava o “No Ar” estúdio no Rio de Janeiro pelo icônico “Morrisound”, na Flórida. Max Cavalera conta em sua autobiografia, “My Bloody Roots”, que as duas primeiras músicas a serem compostas para a bolacha foram “Murder” e “Dead Embryonic Cells“.

Se no processo de gravação tudo correu bem, o mesmo não se pode falar da mixagem. Monte Conner, então executivo da Roadrunner, afirma no mesmo livro de Max que não gostou do resultado final dos takes, pois achou muito cru. Ele decidiu então contratar um então desconhecido Andy Wallace, para refazer todo o trabalho de mixagem. Conner fez isso à revelia da banda e o caldo quase entornou, pois os caras se sentiram traídos, uma vez que estavam em turnê pela América do Sul e não tiveram qualquer acesso às conversas entre Conner e Andy Wallace

Todavia, quando se depararam com o resultado da mixagem, ficaram aliviados, pois Andy conseguiu melhorar ainda mais o trampo feito nas gravações. E um ano depois, a banda admitiu que o executivo havia tomado a decisão certa, tanto que Andy se tornaria o produtor do disco posterior, “Chaos A.D“. E o álbum, com seus 46 minutos e dez canções. A banda forjou aqui alguns de seus maiores clássicos, como a faixa-título, “Dead Embryonic Cells“, “Desperate Cry”, “Altered State“, “Infected Voice“, além da versão para “Orgasmatron“, do Motörhead, que não agradou muito à Lemmy Kilmister, que criticou muito a pronúncia de Max.

Acerca deste cover, Max disse que bebeu meia garrafa de Rum antes de entrar no estúdio para gravar e que fez isso porque na sua cabeça tinha de ser como Lemmy fazia. E disse que no dia seguinte à gravação, teve uma ressaca violenta e que nas fotos de divulgação que foram feitas neste dia, ele aparece com os olhos fechados, tamanha era a sua dor de cabeça.

Em uma versão do disco lançada anos mais tarde, temos ainda duas faixas bônus: uma instrumental que era executada pela banda no início das apresentações durante a turnê do “Arise” e uma última faixa, chamada “C.I.U.” (Criminals in Uniform), uma boa música, mas que não é tão rápida quanto as músicas que entraram originalmente no disco. Não compromete e dá para escutar de boa.

Foi neste disco que houve a famosa treta entre o Sepultura e o Slayer, alimentada pela imprensa e pelos fãs, que acusavam os brasileiros de copiarem o som da banda de Kerry King e Cia, fato este que foi mais alimentado pela imprensa e pelos fãs do que pelas bandas envolvidas. Mas que nesta época, o som do Sepultura carregava, sim, uma forte influência do Slayer, isso é fato, mas quem se importa? Quando a fonte é boa, pode-se beber daquela água sem qualquer problema. E preciso afirmar aqui que não se trata de cópia e sim, de influências.

Pouco antes do lançamento, o Sepultura tocou na noite do Metal no Rock in Rio 2, no estádio do Maracanã, em noite que a organização cometeu o equívoco de colocar Lobão para subir no palco depois de a banda arrebentar, e deu no que deu… O cantor brasileiro mal tocou duas músicas e foi expulso com garrafadas por headbangers ávidos (e um tanto quanto mal educados) por música pesada. Pouco antes dessa memorável apresentação, uma prensagem às pressas do então vindouro álbum foi providenciada, afim de promover a banda, então desconhecida do público que frequenta o Rock in Rio.

Alguns fatos interessantes (e outros lamentáveis) aconteceram na turnê deste disco, como o primeiro encontro do Sepultura com o Motörhead e o fato de Lemmy não ter autorizado que a banda tocasse “Orgasmatron” ao vivo. E pelo jeito, os caras ignoraram a recusa de Lemmy; o momento em que a banda conheceu o astro do futebol Pelé, nos Estados Unidos; a famosa história de Max Cavalera, no momento brasileiro sem noção pelo mundo, bêbado, vomitou em cima do vocalista do Pearl Jam, Eddie Vedder, enquanto pedia autógrafo para a sua irmã; O triste assassinato de um espectador durante apresentação que o quarteto realizou do lado de fora do estádio do Pacaembu, em São Paulo, no qual a imprensa não especializada simplesmente distorceu os fatos, associando a imagem violenta à banda e aos fãs, coisa que nós sabemos que NÃO É VERDADE!

O álbum frequentou algumas paradas de sucesso mundo afora, ficando em 24° na Suíça, 25° na Alemanha, 40° no Reino Unido, 46° na Suécia, 68° nos Países Baixos e 119° na “Billboard 200“. Foi certificado com Disco de Prata no Reino Unido e Disco de Ouro na Indonésia. É o primeiro álbum da banda a entrar na “Billboard” e também a receber uma certificação por suas vendas. Foi também incluído no “Hall of Fame” da revista Decibel, junto com outros dois álbuns da banda, “Roots” e “Beneath The Remains“. E também está no famoso livro “1001 Álbuns que você Precisa ouvir Antes de Morrer“, de Robert Dimery.

O Sepultura caiu na turnê, que durou dois anos. Além das apresentações no Brasil, que citamos um pouco mais acima, eles rodaram pela Europa, Ásia e América do Norte, com bandas do porte de Obituary, Heaten, Napalm Death, Sacred Reich, entre outros. Foi nesta turnê que a banda registrou seu show em Barcelona que virou o VHS “Under Siege” e algumas músicas entraram no EP “Refuse/Resist“, lançado em 1994. Max Cavalera chegou a dizer que o Sepultura seria a banda que faria a abertura do festival Clash of the Titans, que contou com Anthrax, Megadeth e Slayer, mas “a banda foi expulsa”, sendo substituída pelo Alice in Chains.

Um disco que envelhece muito bem, obrigado e mesmo com o Sepultura estando musicalmente bem distante do que eles mostraram aqui no aniversariante do dia, “Arise” ao mesmo tempo que é um divisor de águas, é também uma pérola do nosso Heavy Metal e merece ser muito bem cuidado. E nós iremos ajudar a manter esse lindo legado. Hoje é dia de celebrar esse play, escutando-o no volume máximo. O que vai acontecer com o Sepultura, a gente não sabe. Alguns acreditam que uma reunião vai acontecer. Aguardemos.

Arise – Sepultura
Data de lançamento – 25/03/1991
Gravadora – Roadrunner

Faixas:
01 – Arise
02 – Dead Embryonic Cells
03 – Desperate Cry
04 – Murder
05 – Subtraction
06 – Altered State
07 – Under Siege (Regnum Irae)
08 – Meaningless Movements
09 – Infected Voice
10 – Orgasmatron

Formação:
Max Cavalera – vocal/ guitarra
Igor Cavalera – bateria
Andreas Kisser – guitarra
Paulo Junior – baixo (ele é creditado como baixista, mas só passou a gravar de fato as suas partes a partir de “Chaos A.D.“)

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