ResenhaResenhas

Yes encontra novos caminhos em “Aurora” e reafirma sua liberdade criativa

O desafio de uma banda veterana não está apenas em preservar o legado que construiu, mas também em encontrar motivos para continuar evoluindo. Em “Aurora”, lançado pela InsideOut e distribuído pela Shinigami Records, o Yes demonstra que ainda é possível explorar novas possibilidades musicais sem ficar refém da própria história. O álbum marca mais um capítulo de uma formação que, após anos de mudanças, finalmente encontrou estabilidade e desenvolveu uma identidade que vai além da simples reprodução de sua sonoridade clássica.

Com Steve Howe, Geoff Downes, Jon Davison, Billy Sherwood e Jay Schellen, o grupo chega ao terceiro trabalho de estúdio com essa configuração, consolidando uma química que se reflete nas composições. A experiência compartilhada em turnês e apresentações integrais de discos emblemáticos parece ter contribuído para uma abordagem mais coletiva, perceptível na maneira como os músicos dialogam ao longo do álbum.

A tradição progressiva permanece como alicerce, mas não determina todos os caminhos. A faixa-título recupera a dimensão espiritual e contemplativa que marcou trabalhos históricos da banda, enquanto “Countermovement” resgata a ambição das grandes composições divididas em movimentos, sem cair nos excessos estruturais que, por vezes, caracterizaram o repertório mais elaborado do passado. O resultado é uma obra que reconhece suas raízes, mas procura estabelecer uma personalidade contemporânea.

Essa liberdade também aparece nos detalhes. “Outside the Box” aposta em harmonias vocais que remetem à fase mais acessível do grupo nos anos 1980, enquanto “Jambustin’”, faixa bônus, brinca com referências à discografia clássica. São acenos aos fãs de longa data, inseridos em um álbum que não depende exclusivamente da nostalgia para encontrar sua razão de existir.

Um dos aspectos mais interessantes de “Aurora” está na participação de Jon Davison. O vocalista, frequentemente associado ao estilo de Jon Anderson, começa a se distanciar dessa comparação ao explorar outras possibilidades interpretativas. Em “All Hands on Deck”, sua incursão por registros mais graves acrescenta variedade à performance, enquanto sua presença nos créditos de composição evidencia uma contribuição cada vez mais significativa para a identidade da banda.

Geoff Downes também ganha espaço, com teclados mais evidentes na mixagem e intervenções de órgão que evocam o peso característico do Deep Purple. Jay Schellen amplia sua participação criativa, estreando nos créditos de composição e contribuindo para a construção de “Countermovement”. Já Billy Sherwood acrescenta elementos importantes às músicas e apresenta uma participação vocal especialmente interessante em “Ariadne”, embora sua abordagem no baixo seja menos incisiva que a de seu antecessor e mentor, Chris Squire.

Naturalmente, o grande protagonista instrumental continua sendo Steve Howe. Além de assumir novamente a produção, o guitarrista demonstra disposição para experimentar timbres e instrumentos pouco convencionais em sua trajetória com o grupo. O uso de sonoridades de sitar em diferentes passagens e de um violão português de 12 cordas em “Watching the River Roll” amplia a diversidade textural do disco, sem comprometer sua unidade.

Em “Countermovement”, Howe encontra espaço para desenvolver uma das passagens mais expressivas do álbum, especialmente no segmento “Anytime Soon”, no qual também assume os vocais. A interpretação, influenciada por Bob Dylan, revela uma faceta menos habitual do músico e acrescenta uma dimensão surpreendente à composição. É um daqueles momentos em que a experiência acumulada se transforma em espontaneidade, sem a necessidade de recorrer a demonstrações ostensivas de virtuosismo.

A sensação de renovação não elimina as referências históricas, mas as coloca em perspectiva. A inspiração espiritual da faixa-título, as estruturas progressivas extensas e as alusões a diferentes épocas da discografia formam uma espécie de diálogo entre gerações. A própria capa, criada pelo tradicional colaborador Roger Dean, reforça visualmente essa ideia de continuidade e conexão.

O mérito de “Aurora” está justamente em não tentar competir com os momentos mais celebrados da história do Yes. Em vez de perseguir a grandiosidade de seus clássicos ou reproduzir a fórmula comercial dos anos 1980, a banda apresenta um trabalho que valoriza a colaboração, a maturidade e a liberdade artística. A estabilidade da formação oferece aos músicos a oportunidade de olhar para o futuro sem precisar negar o passado.

Longe de ser apenas uma homenagem à própria trajetória, “Aurora” representa a afirmação de um Yes que encontrou espaço para existir em seus próprios termos. E, para uma banda cuja história foi marcada por transformações constantes, talvez essa seja uma das conquistas mais significativas de sua fase atual.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *