Edu Falaschi leva a tour “Eldorado” para SP com participações especiais e muitos hits do Angra

Texto: Dani Kiedis
Fotos: Bel Santos

Após rodar por várias cidades do Brasil, México e até mesmo Japão, Edu Falaschi retorna a São Paulo para a tour de Eldorado, álbum lançado em agosto do ano passado. Como de costume, o Tokio Marine Hall foi o local escolhido para a apresentação, que foi captada para a gravação de material futuro.

O álbum explora a famosa lenda da cidade perdida do ouro, supostamente localizada em territórios indígenas da América Latina, onde seriam hoje Colômbia e Venezuela, sendo bastante conhecida em países de língua espanhola; portanto, há várias músicas cantadas nesse idioma, além do já tradicional inglês, e uma das maiores expectativas para essa apresentação era justamente a cenografia inspirada nas referências de pirâmides e estátuas Astecas e os efeitos especiais.

Às 22h então se iniciam os testes de pirotecnia e em seguida as luzes se apagam para avisar ao público que enchia a casa de que o espetáculo estava prestes a começar. As cortinas se abrem e logo podemos ver o cenário composto por dois totens gigantes e a imponente bateria de Aquiles Priester em meio a redes e canhões que simulam os equipamentos de embarcações espanholas.

Live and Learn”, primeira faixa do EP Hunters and Prey (2002) e que chegou a ter demo gravada ainda com Andre Matos, é a escolhida para abrir o show, que começa com o som um tanto quanto embolado, mas que não impede o público de agitar e cantar junto com Edu no refrão. Um estranhamento, no entanto, ocorre ao olharmos para o lado direito do palco e notarmos um guitarrista jovem de cabelos acastanhados solando no lugar de Roberto Barros; portanto, assim que a música acaba, Edu cumprimenta a plateia, agradecendo a todos pela presença e já pedindo que prestem atenção aos telões, onde seria exibido um vídeo do próprio Roberto explicando detalhadamente sua ausência – o músico encontra-se hospitalizado desde o início do mês, acometido por uma grave infecção bacteriana que contraiu na praia de Itanhaém, litoral paulista, durante o réveillon. Tanto Betão como Edu pedem respeito e admiração a Victor Franco, de 23 anos, que teve cerca de 20 dias para tirar todo o repertório do show e assumir a responsabilidade de algo desse tamanho. Victor, além de ser fã de bandas como Angra, Tool, Periphery, etc., dá aulas e cria conteúdo de técnicas de guitarra em suas redes sociais.

 

Após a devida introdução do membro substituto, vem o consagrado coro de “Acid Rain”, executado ao vivo pelos convidados Juliana Rossi (SILENT CRY) e Fabio Caldeira (MAESTRICK) nos backing vocals. A faixa se encerra numa explosão de efeitos especiais como pede o crescendo final da composição, e na sequência, Diogo Mafra puxa o riff cativante de “Waiting Silence”, bela faixa do aclamado album Temple of Shadows (2004), que traz também um marcante solo de baixo, reproduzido impecavelmente nas 6 cordas de Raphael Dafras, exaltado por Edu ao final da música como “um dos melhores baixistas de metal do Brasil”. Ambos músicos já o acompanham desde a época do Almah.

Finalmente é a “hora da verdade” com relação a testar a receptividade do novo álbum, e a suingada “Sacrifice” chega muito bem, fazendo os fãs acompanharem o ritmo com palmas e bradarem o refrão a plenos pulmões. Edu novamente rasga elogios a Victor, dizendo ter até uma certa “inveja” de sua disposição característica da juventude e ressaltando que não é tarefa fácil aprender os novos solos em tão pouco tempo.

Em seguida, o holofote se vira para os teclados de Fabio Laguna (que também trabalha com Aquiles Priester no HANGAR) na lindíssima intro de “Millenium Sun”, e antes que a música entre em sua parte mais pesada, Edu é ovacionado pela plateia por sua performance. Para a próxima música, é convocado um dos convidados da noite, o multi-instrumentista Fabio Lima – que é recebido com um sonoro “Fabio, você é fod@!” por um fã na pista premium – para a execução do violão em “Land Ahoy”, única do álbum anterior (Vera Cruz) a figurar no setlist; a longa faixa tem várias passagens onde os dedilhados do instrumento acústico são o destaque, contrastando com os duelos de solos de guitarra. Não faltaram efeitos especiais como pirotecnia e explosões de gelo seco, assim como na faixa seguinte, a enérgica “Temple of Hate”, uma das músicas de maior destaque internacional da carreira de Edu, pela participação de Kai Hansen (GAMMA RAY, HELLOWEEN) na gravação original.

Enquanto todos respiram um pouco, entra o playback de introdução de “Tenochtitlán”, e um novo elemento decorativo começa a compor o cenário – uma grande estátua de entidade mitológica como as que costumam ser encontradas nas entradas dos templos de antigas civilizações é inflada atrás da estrutura da bateria de Aquiles. No entanto, o aparato parece não ter funcionado 100% como o esperado e acabou ficando um tanto quanto torto, o que infelizmente não conseguiu ser resolvido durante o resto da noite. Estando agora na metade do setlist, e com as altíssimas notas do refrão da canção, é possível perceber um desgaste na voz de Edu, e, talvez já pensando nisso, a próxima faixa é uma balada e que é majoritariamente cantada pelos fãs, com as lanternas de seus celulares acesas: “Bleeding Heart”, cuja famosa versão forró (“Agora Estou Sofrendo”), pelo grupo Calcinha Preta ganhou uma participação do próprio Edu num show especial de gravação de DVD no mês passado. O músico, que filmou toda a interação da plateia com seu celular, mais uma vez reforçou a importância de se respeitar outros gêneros musicais em prol da diversidade.

 

Dando seguimento, Fabio retorna ao palco, porém, não deveria ser o único convidado especial: a faixa “Señores del Mar (Wield the Sword)” tem co-autoria do cantor e compositor espanhol José Andrëa (ex-MAGO DE OZ), e sua participação havia sido anunciada para esse show, o que, no entanto, não se concretizou. Ao contrário da ausência de Roberto Barros, não foi dada nenhuma justificativa sobre o que impediu a presença do músico entrangeiro e Edu acabou tendo que cantar a música inteira, incluindo as partes em espanhol. O público fez sua contribuição cantando em uníssono os “oh-oh-ohs”, como uma verdadeira tribo. Apesar da baixa no time, o solo do violão flamenco de Fabio Lima deu o toque hispânico que a canção pedia. E aproveitando o embalo, vem um dos momentos mais esperados do show, o anúncio da faixa-título do álbum e da turnê, e a afirmação de que naquele momento, as câmeras estariam captando imagens do público para um videoclipe. Para isso, Edu “treina” os fãs para acompanharem com palmas sincronizadas as batidas da introdução da música de 10 minutos – uma verdadeira epopéia que narra as sangrentas batalhas dos espanhois contra os nativos em busca do ouro. Todos os músicos têm seu momento de brilhar, mas certamente Diogo chama a atenção executando com precisão os complexos solos de guitarra.

Aproximando-se do final do set, é chamado o último – e muito aguardado – convidado da noite, o cantor norueguês Roy Khan, conhecido e admirado principalmente pelo seu trabalho com a banda de power metal KAMELOT, e que atualmente excursiona com a banda de metal progressivo CONCEPTION (que tem datas marcadas no Brasil em março). Ao chegar, Roy diz que é muito bom estar de volta após quase 20 anos de sua última passagem, ainda com o Kamelot, em 2005, e agradece Edu pelo convite. Juntos, performam um belíssimo dueto em “Heroes of Sand”. A plateia aplaude vigorosamente, parando apenas quando Roy inicia um trecho praticamente a capella de “Cry”, do Conception. A presença de palco e a “voz de Deus” do músico, que tem formação de canto operístico, são suficientes para tomar completamente o Tokio Marine Hall e deixarem a plateia hipnotizada. Edu e o restante da banda retornam para já emendarem “Center of the Universe”, do album de 2003, Epica, do Kamelot. Além da participação de Edu no refrão, a canção conta ainda com o charme de Juliana Rossi nas partes originalmente gravadas por Mari Youngblood; a cantora tem se destacado bastante na cena do Power Metal nacional e também integrou recentemente o ‘Shamangra’, reunião de ex-membros das duas bandas. Roy se despede agradecendo a todos, e é notável a emoção de Edu pelo momento que acabara de vivenciar, ao lado de um de seus ídolos.

Sobe o playback de “Deus le Volt!” anunciando mais uma porrada do Temple of Shadows, “Spread your Fire”, uma das preferidas do público. Ao término, vem o momento de apresentação dos integrantes e as já conhecidas ‘rasgações de seda’ de Edu, chamando a todos os presentes no palco de “lendas do metal, e Aquiles dizendo que o trabalho de Edu é um legado para as futuras gerações, já que eles já podem ser considerados “dinossauros”. Edu enaltece em particular Fabio Caldeira pelo seu trabalho como escritor da trilogia – é de sua autoria toda a história que começou em Vera Cruz, está passando por Eldorado e está aguardando finalização e lançamento do desfecho – e avista ainda nas proximidades do palco o vocalista da banda carioca ZERØ, Guilherme Isnard, a quem manda um salve. Agradecimentos feitos, é hora de emocionar a todos os presentes com “Rebirth”, a faixa-título do álbum que selou em definitivo a entrada de Edu no Angra como substituto de Andre Matos e que causou reações mistas à época de seu lançamento (2001), mas que indubitavelmente é uma das melhores composições da banda. E, para encerrar o set, não podia faltar o momento que justifica a alcunha de “polvo” do baterista Aquiles Priester, que veste a famosa máscara durante a execução dos pedais duplos de “Nova Era”. Assim, os músicos agradecem e se retiram do palco.

Provavelmente, o que havia sido planejado pela banda já se acabava por aí; no entanto, a base de fãs de Edu tem um pedido bastante peculiar recorrente já há muitos anos, e que inclusive, ele não gostava de atender nos tempos em que era apenas um “músico contratado”, mas que agora, dono de seu próprio show, pode acatar com carinho: “Pegasus Fantasy”, tema de abertura gravado por ele do anime Cavaleiros do Zodíaco, que foi muito popular na TV nos anos 90. Sendo assim, Edu retorna ao palco com a guitarra de Diogo em mãos e começa a aquecer com um trechinho de “Wish You Were Here”, do Pink Floyd, e logo mais chega Fabio Lima com o violão para acompanhá-lo e acatar ao pedido final do público, que canta do início ao fim.

Foi um belo espetáculo, embora o repertório pudesse ter sido mais focado em suas próprias composições, uma vez que vários lançamentos anteriores já contemplam as mesmas músicas, e da qualidade vocal de Edu não ter atingido o auge em alguns momentos. De uma maneira geral, a audácia de divulgar o evento como “o maior show da história do heavy metal brasileiro” acabou sendo um tiro no pé, tendo em vista que o próprio músico reconheceu a qualidade do material registrado para o DVD Ritualive, do Shaman, à época. De qualquer forma, já sabemos que quando for lançado o último álbum da trilogia, haverá uma nova turnê, e assim, esperamos que a produção dos shows seja cada vez melhor.

Setlist:
Live and Learn
Acid Rain
Waiting Silence
Sacrifice
Millennium Sun
Land Ahoy
The Temple of Hate
Tenochtitlán
Bleeding Heart
Señores del mar (Wield the Sword)
Eldorado
Heroes of Sand
Cry + Center of the Universe
Spread Your Fire
Rebirth
Nova Era
Wish you were here + Pegasus Fantasy

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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