Bryan Adams faz show incansável, impecável e amplamente iluminado para público mais que animado em São Paulo
Apresentação no VIBRA São Paulo, que foi parte da turnê “Roll With the Punches”, contou com uma série de elementos visuais e musicais que transformou a noite em algo único para os fãs
Bryan Adams voltou ao Brasil em sua quarta passagem, desta vez na turnê que divulga seu mais recente álbum, “Roll With The Punches” (2025). Em show realizado no último dia 07 de março, no VIBRA São Paulo, casa de eventos localizada na Zona Sul da capital paulista, o cantor canadense voltou a provar sua grandeza enquanto artista e como 66 anos é uma idade da mais pura juventude, de tão impressionante que sua disposição física e perfeição vocal foram em mais de duas horas de apresentação. O evento, realizado pela Mercury Concerts, foi o segundo das quatro datas marcadas em solo brasileiro.
Adams e banda (com Luke Doucet no lugar de Keith Scott) fizeram um setlist de 31 músicas que contou com faixas do trabalho mais recente do cantor canadense, os maiores clássicos da carreira de Adams nos anos 80 e 90 e as principais faixas de grande parte de seus trabalhos tanto da maioria de seus outros 15 álbuns de estúdio, quanto da participação em trilhas sonoras de grandes filmes.
Além do setlist, que fora impecável por si, Adams e sua produção ainda incrementaram elementos visuais e interativos diversos que melhoraram ainda mais a experiência dos fãs que lotaram a pista, a área PCD, as arquibancadas e camarotes: pulseiras de iluminação com cores variadas, um palco extra ao fundo da pista, por onde Bryan começou a apresentação; a aparição de duas figuras infláveis e dirigidas por drones, animações diversas no telão central e a transmissão de videoclipes para algumas das faixas e, para gerar os melhores momentos da noite, a gravação coordenada dos fãs dançando e tirando a camisa (caso dos homens), por incentivo de Bryan, que apareceram nos telões do VIBRA em meio ao “momento Rockabilly” da noite.
Junto a isso, Adams demonstrou todo o carisma e carinho com seus fãs ao interagir em diversos momentos do show, seja em meio às músicas, seja entre uma e outra: discursos, acenos, brincadeiras com a comparação da aparência do cantor de anos atrás e agora, cumprimentos aos que estavam na área PCD e uma proximidade representada tanto pelo palco B, quanto pela passarela presente no centro do palco principal e até suas breves descidas ao longo do show.
Todos esses elementos, somados com o instrumental impecável da banda e da voz de Bryan Adams, que mudou a tonalidade em pouquíssimas músicas, tornaram aquela noite única para quem presenciou e recepcionou muito bem as músicas mais recentes e, claro, os maiores clássicos do cantor canadense.
Confira mais detalhes a partir do texto abaixo:
O rápido pré–show após a chuva
Foram duas horas de espera para o início do show, a partir da abertura dos portões. A percepção, no entanto, foi de um tempo menor, tamanha a tranquilidade do público em todos os setores e circulações e com a playlist de músicas tocadas nas caixas de som da casa de eventos. No telão central, houve a divulgação do mais recente álbum de Bryan Adams, “Roll With the Punches”, figura central da turnê. Nesse tempo, o enfraquecimento da chuva também significou, mesmo que não fosse por consequência direta completa, a chegada de mais pessoas que, em pouco tempo, lotaram todos os espaços do local.
Às 21h50, o telão central deixou de mostrar apenas uma imagem fixa e, a partir da reprodução de músicas como “Roll Over Beethoven” (Chuck Berry) e “Tutti-Frutti” (Little Richard), apresentou diversas interações de vídeo animadas que, uma após a outra, passavam pela figura estática de um lutador de boxe de costas para tudo: um lutador de karatê, uma mulher idosa carregando um carro enquanto está numa cadeira de rodas (!!!), um cachorro correndo, o som de um motor de caminhão, um cavalo soltando gases e, por fim, o lutador-tema do álbum “descongelando” do telão e rugindo ao virar para a plateia. Foi pouco tempo para processar aquelas animações aleatórias, pois o show logo começou.
Duas horas mágicas com Byan Adams
Quem não pesquisou previamente foi pego de surpresa com a aparição de Bryan Adams, repentina, em um palco secundário e simples que foi montado no fundo da pista do VIBRA São Paulo, trazendo uma proximidade incomum entre artista e público. Parte dos fãs e parte da arquibancada puderam ver Bryan bem de perto.
Adams usou do palco secundário para abrir o show com um violão, tocando três faixas em versão acústica. Três das 31 músicas preparadas para duas horas de show, provando que 66 anos de idade eram só um detalhe que não deixam Bryan perto de qualquer limitação física ou vocal e, da mesma forma, não tiram a energia que o artista tem ao vivo.
Ele começou com “Can’t Stop This Thing We Started”, clássico do álbum “Waking Up the Neighbours” (1991), e logo foi acompanhado pela maré de fãs presentes que respondeu com cantos em coro, sorrisos e gritos eufóricos por sua presença. Na sequência, “Straight From the Heart” e “Let’s Make a Night to Remember”, clássicos respectivos dos anos 80 e 90, deixaram o público ainda mais “derretido” de fofura e admiração pelo cantor e pelo momento das músicas.
Os muitos aplausos ao final da terceira música foram o som ambiente da transição de Bryan Adams para o palco principal, onde já estavam seus parceiros de banda Luke Doucet (guitarra), Pat Steward (bateria) e Gary Breit (teclados). Bryan começou no baixo, porém alternou entre o uso de guitarras e violão ao longo do show.
As luzes vermelhas destacaram o palco e aumentaram o clima para artista e banda, que deram continuidade ao show com os dois pés na porta, cada um, com “Kick Ass”, do penúltimo álbum lançado de Bryan, “So Happy It Hurts” (2022). Foi nesta música, também, que as pulseiras dadas ao público presente foram ligadas pela primeira vez, alternando entre o vermelho e o branco e tornando o VIBRA São Paulo ainda mais iluminado enquanto um Rock bem cadenciado foi tocado.
Em seguida, a clássica “Run to You”, do álbum “Reckless” (1984), trouxe os fãs para uma manifestação de canto maior nesse início de show. O telão deu mais movimento com o vídeo de um carro em uma estrada com trechos de florestas e túneis, assim como o instrumental da banda, impecável, foi atenuado pelo primeiro solo de guitarra de Luke Doucet somado aos gritos alternados de “Oh, Yeah” entre fãs e Bryan. “Somebody” sacramentou a dobradinha do LP anteriormente citado, com outro refrão amplamente cantado em todos os setores possíveis da casa de eventos e, ao final da faixa, uma dinâmica das linhas mais intensas de Pat Steward e gritos de “Somebody”.
“Roll With The Punches”, música do álbum de mesmo nome, veio com uma das “surpresas infláveis” da noite: uma luva de boxe gigantesca, conduzida por drones e que saiu do fundo do palco e circulou as pistas numa altura que era impossível de alcançar, assim como era impossível de ficar por menos de dez segundos sem observar aquela figura.
Eis que, com a saída da luva de boxe inflável, Bryan puxou, com a banda, os primeiros acordes de “Do I Have to Say The Words?”, com o apoio do videoclipe oficial da faixa. Foi a fórmula perfeita para um misto de nostalgia dos que viveram os anos 80 ou ouviram em alguma fase da vida com o misto amoroso e questionador da letra da faixa, convertidos em mais um canto coletivo altíssimo que disputou com as caixas de som do local.
Algumas brincadeiras com as lembranças de sua primeira vez no Brasil, em 2007, logo foram convertidas em um manifesto positivo por voltar para São Paulo nesta quarta vez. Assim, Bryan e banda tocaram a comemorada “18 til I Die”, música que leva o nome do álbum de 1996 e que retomou coros animados do público que, consequentemente, foram gás para uma finalização apoteótica de Adams e Doucet. Já em “Please Forgive Me”, outro Clássico do artista, o predomínio das luzes azuis e brancas nas pulseiras foi o grande charme dentro de outra faixa bem cantada por ele e pelos fãs, que tiveram até mesmo um momento “a capella” na extensão da faixa.
O segundo terço do show veio com “It’s Only Love” e com Bryan Adams cantando as partes da saudosa Tina Turner (1939 – 2023) e mandando muito bem. Doucet teve destaque com as execuções de solos ou de linhas mais agudas na guitarra, aperfeiçoando ainda mais uma faixa que já era marcante por si. Depois, em “Shine a Light”, as luzes das pulseiras “dividiram espaço” com as luzes dos celulares que, a pedido do cantor canadense, foram ligadas pela multidão em todos os setores, tornando o ambiente ainda mais iluminado.
Há de se dizer que a faixa anterior foi um preparo para o pico catártico que viria com a clássica “Heaven”, cujas primeiras notas de piano foram suficientes para a comemoração do público que, logo em seguida, voltou a cantar muito alto até o final, inclusive nas extensões ao vivo que Bryan e banda propuseram. Já “Never Ever Let You Go”, do álbum mais recente, a trama de Bryan em um parque de diversões com a amada, em versão animada e rotativa, trouxe um bom ambiente à faixa, assim como a anterior contou com a chuva em uma noite na cidade.
“This Time” foi a faixa seguinte, antecedida de um discurso de Bryan sobre o videoclipe do single do álbum “Cuts Like a Knife” (1983), que passou no telão central do VIBRA São Paulo durante a música e na qual Bryan lembrou que “tinha muito mais cabelo na época”, pedindo para que não fizessem comparações e respondendo aos risos dos fãs de forma leve: “Isso não é engraçado”. Da mesma forma, Bryan mandou corações para as fãs enquanto esteve na passarela do palco principal.
“Heat of the Night” seguiu com a ótima qualidade instrumental da banda, incluindo os solos de guitarra de Luke Doucet. Depois, em “Make Up Your Night”, Bryan prometeu ao público “o melhor solo de bateria que vocês já viram”. E Pat Steward executou no meio da faixa, dando foco em batidas mais graves no início e intensificando nas viradas que vieram na sequência.
Mais da metade do show já tinha passado e Bryan trouxe outra surpresa, só que desta vez em um misto de proposta musical e performance do público: uma sequência de faixas Rockabilly na qual Bryan e um cameraman incentivaram as pessoas a dançarem, sendo gravadas ou não. Os homens, em específico, foram incentivados a tirar suas camisas e dançar se fossem focados pelas câmeras, sem medo de serem felizes naquele momento, enquanto as mulheres eram puro carisma e dança nas pistas e arquibancadas. E assim aconteceu em “You Belong to Me”, do álbum “Get Up” (2015), que também contou com um pequeno trecho de “Blue Suede Shoes”, de Elvis Presley; e no cover de “Twist and Shout”, música originalmente do grupo The Top Notes e amplamente popularizada pelos Beatles.
O pico de alegria logo se converteu a um clima “fofo” novamente, pautado no tema de reflexão e vulnerabilidade masculina de mais um clássico, “Have You Ever Really Loved a Woman?”, faixa que foi amplamente aclamada a partir dos primeiros acordes de guitarra espanhola de Luke Doucet e, como era de se esperar, cantada a plenos pulmões pelos fãs presentes. Bryan Adams ainda mudou o último verso para “Do You Really Loved a brasileira?”, puxando ainda mais aplausos ao final da música.
Faixas como “When You Love Someone” e “So Happy It Hurts” vieram na sequência, sendo que a segunda citada contou com uma nova figura inflável guiada por um drone: um carro antigo, em alusão ao que aparece na capa do disco de mesmo nome, lançado em 2022, e com mensagens pichadas nas áreas das portas, como “50th happy hurts”, “Bryan Adams” e, na parte de baixo, um símbolo de paz e amor. Se nas anteriores houve destaques das guitarras, a faixa seguinte, “Will We Ever Be Friends Again”, última das representantes do álbum “Roll With the Punches”, teve bom foco nos teclados de Gary Breit.
O show partiu para mais uma parte acústica com Bryan Adams, que desta vez permaneceu no palco principal para tal ato. Duas músicas foram tocadas desta forma: “Here I Am”, conhecida por ser parte da trilha sonora e álbum de Bryan Adams para o filme “Spirit – Espírito Selvagem” (2002) – o que justificou os cavalos correndo na praia, no telão -, e “When You’re Gone”, do álbum “On a Day Like Today” (1998). Ambas foram muito bem cantadas pelo público, o que tornou o momento acústico ainda mais especial. O clima voltou a ser mais agitado e dançante com “The Only Thing That Looks Good on Me Is You”, que contou com a psicodelia de cores no telão central, destaques para as linhas de baixo de Bryan e da bateria de Pat Steward e um trechinho de “Song 2”, do Blur, para finalizar a música.
Talvez o momento mais emocionante, romântico e com maior pico de canto do público na noite veio na reta final do show, com a incontestável “(Everything I Do) I Do It for You”, do disco de 1991 “Waking Up the Neighbours”, que contou com interações de Bryan com o público da área PCD e, da passarela, com quem estava próximo na pista. Além desses elementos, ainda houve um take no telão que, se um dia for lançado em algum álbum ao vivo ou como alguma produção de clipe da mesma modalidade, seria espetacular: um dos operadores de câmera captou Bryan de costas, cantando para o público os últimos versos de um dos refrões e, quando ele vira de costas em direção ao fundo do palco, a amplitude da câmera começa a pegar o semblante do artista e a maré de luzes e flashes vindos das pulseiras e celulares que estavam com os presentes e que balançavam no ritmo da faixa. “Absolute Cinema”, alguns diriam, ainda mais com o coro absurdo vindo de todos os cantos do VIBRA São Paulo.
“Back to You”, música presente no MTV Unplugged de 1997, e “Summer of ‘69”, do álbum “Reckless”, foram os dois grandes sucessos tocados na sequência do megahit de Adams. Foram duas faixas amplamente cantadas e sem a perda do fôlego do público. E muito menos da parte de Bryan que, apesar de já estar nas 28ª e 29ª músicas, demonstrou disposição para se apresentar por mais horas, se fosse necessário ou possível. No caso da segunda citada, na reta final, o cantor começou a pular na passarela e o parte dos fãs, ainda em catarse, o acompanhou com total ânimo.
O final do show de Bryan Adams chegou com mais dois clássicos do cantor que não poderiam faltar. “Cuts Like a Knife”, do álbum de mesmo nome de 1983 veio primeiro, sendo uma música anunciada por um berro do cantor e com um ritmo mais calmo e envolvente a ponto de gerar palmas mais fortes da galera, no ritmo, e até “nananas” em certos momentos, retribuídos por gestos de aceno do cantor canadense. Houve, também, a apresentação dos integrantes de sua banda como se fossem lutadores entrando no ringue e como se Bryan fosse uma espécie de Michael Buffer.
O ato final se deu com “All For Love”, música que originalmente conta com as participações conjuntas de Sting e Rod Stewart e que foi composta para o filme “Os Três Mosqueteiros” (1993). A execução geral causou o último gâs de ânimos de um público que permaneceu em maioria esmagadora, mesmo após a meia-noite, para não perder os atos finais.
Sair do VIBRA São Paulo após o show incontestavelmente perfeito de Bryan foi de uma sensação única que só apresentações bem planejadas e de artistas únicos em suas propostas e repertório podem gerar. Do palco às animações acertadas, do uso pontual e impactante das pulseiras de iluminação, da proposta de dois palcos e de uma extensão em um deles; da dosagem entre hits, faixas de divulgação de novo álbum, covers e outras músicas de grande impacto no repertório e, principalmente, pela forma como a conjuntura destes e de outros elementos fizessem com que duas horas parecessem menos e causasse a percepção de que Bryan Adams poderia fazer mais duas horas sem perder a voz ou se cansar de ficar em pé e tocando instrumentos… tudo isso fez com que aquela noite fosse única para um público que não tirou o sorriso do rosto em momento algum, o que também fez com que Bryan Adams e banda se expressassem e devolvessem os gestos da mesma forma. Afinal, Bryan Adams sabe, com as três passagens anteriores por aqui, que o público de São Paulo é diferente de muitos dos demais públicos mundo afora.
Confira o setlist abaixo:
- Can’t Stop This Thing We Started (acúsitco, palco B)
- Straight From the Heart (acúsitico, palco B)
- Let’s Make a Night to Remember (acúsitco, palco B)
- Kick Ass
- Run to You
- Somebody
- Roll With the Punches
- Do I Have to Say the Words? (com videoclipe original no telão)
- 18 til I Die
- Please Forgive Me
- It’s Only Love
- Shine a Light
- Heaven
- Never Ever Let You Go
- This Time (com videoclipe original no telão)
- Heat of the Night
- Make Up Your Mind (com solo de bateria)
- You Belong to Me (com snippet de “Blue Suede Shoes”, de Elvis Presley)
- Twist and Shout (Cover de The Top Notes popularizado pelos Beatles)
- Have You Ever Really Loved a Woman?
- When You Love Someone
- So Happy It Hurts
- Will We Ever Be Friends Again
- Here I Am (ary Breit no piano)
- When You’re Gone (acústico)
- he Only Thing That Looks Good on Me Is You
- (Everything I Do) I Do It for You
- Back to You
- Summer of ’69
- Cuts Like a Knife
- All for Love (acústico) (música de Bryan Adams, Rod Stewart & Sting)
