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O Diabo Veste Prada 2 questiona o futuro do jornalismo e dos leitores

Desde quando me entendo por gente, a leitura sempre fez parte do meu cotidiano. Comecei a ler sozinho por volta dos 4 anos de idade, e à partir daí, nunca mais parei e os quadrinhos foram os primeiros materiais que tive contato e com isso, o Batman passou a ser meu personagem favorito das histórias de heróis, com as suas aventuras em papel que eu devorava e o gosto pelo mesmo potencializado com o filme de 89 dirigido por Tim Burton e estrelado por Michael Keaton que junto com Edward Mãos de Tesoura, povoavam minha mente com o seu estilo gótico.

Com a aproximação com a música, houve o desejo de saber mais sobre bandas que consumia, notícias e em um mundo onde a Internet ainda caminhava, as revistas especializadas no assunto aqui no Brasil eram devoradas, mesmo aos grupos que sequer eu sabia da existência. Ler um exemplar do começo ao fim era divino.

Com o avanço da web, os sites internacionais com notícias em primeira mão também entraram no radar e aí, era o momento de se dividir entre o físico e o digital e isso era algo feito de forma equilibrada e mesmo assim, sem em momento algum o gosto pela leitura se deixado de lado, muito pelo contrário, ele foi aumentado com mais informações, mais notícias, ler resenhas de discos e tudo isso que cerca esse universo e foi por esse caminho traçado que hoje você está lendo este texto e que eu me arrisquei a entrar nessa vereda.

Mas daí em diante, os saltos foram muito rápidos. Todos os dias parecia que estávamos diante de uma nova tecnologia, uma nova rede social e o formato delas foram mudando. Os conteúdos tiveram alterações e cada vez mais fomos bombardeados por conteúdos em vídeo de menor duração e informações não tão vastas, mas rápida, o que causou uma ansiedade no público, ávido pelo próximo vídeo sem nem assimilar o que tinha acabado de ver, sem tempo para processar a informação e saber do que se tratava e a cada minuto, o cérebro foi se acostumando com isso, chegando ao ponto de se ler um simples texto de dois parágrafos parecer uma tortura.

Consequentemente, os meios de comunicação tiveram que ir se adaptando a isso, deixando de lado os longos textos e todas aquelas páginas e longos parágrafos de um assunto, para serem resumidos a meros 30 segundos, e aparentemente, quanto menos carregado de informação e mais raso, mais interessante e atrativo ele parece se tornar. É justamente nesse ponto que “O Diabo Veste Prada 2” tem o cerne para o desenrolar de sua história.

Foram 20 anos entre o primeiro e o segundo filme. Nessas duas décadas, o mundo mudou, as pessoas mudaram. No original, Andy Sachs, a carismática Anne Hathaway, procurava se achar num mundo profissional do que ela não fazia parte, a moda, e encara o desafio de ser assistente da chefe turrona Miranda Priestly, magistralmente interpretada por Meryl Streep. Já a sequência, a ideia é outra.

Andy tem uma profissão, ela é uma premiada jornalista agora, se distanciando daquilo tudo do primeiro longa e se achando em um trabalho que ela gosta e é valorizada e recompensada por isso. Mas em um momento de alegria, justamente quando recebia um prêmio por um artigo seu, ela e seus colegas de trabalho recebem uma mensagem simulânea que todos foram demitidos devido a cortes de gastos.

É nessa premissa que os caminhos de Andy e Miranda se cruzam novamente e toda a química e interação entre as duas rola e o espectador está ganho mais uma vez. Nesse percurso, os conhecidos rostos de Emily e Nigel, interpretados por Emily Blunt e Stanley Tucci mais uma vez, surgem, entre outros novos, como o novo affair de Andy, Peter, vivido pelo ator Patrick Bammal e divertida assistente Jin Chao, feita pela atriz Helen Shen e que é um perfeito retrato da geração atual.

Andy volta a Runaway mais uma vez, mas agora, ela tem a tarefa de ser a editora da revista, que vem caindo ano após ano, vem tendo cortes e mais cortes e veem seus leitores minando cada vez mais, com o seu impresso praticamente sendo extinto, e suas matérias, tendo pouco engajamento com quase ou nenhum clique. E se a protagonista lutava 20 anos atrás para se colocar no mercado de trabalho, dessa vez, ela luta para manter aquilo que ela acredita ser real, válido e que não deve ser banalizado, o jornalismo tradicional.

É claro que isso é uma parte da história. Os desfiles luxuosos com vestimentas de alto padrão estão lá, os cenários imensos que são palco da alta sociedade e marcas caras, só que dessa vez e até uma trama conspiratória de Emily. Só que dessa vez, esses assuntos não são o núcleo principal, mas o novo se sobrepondo ao velho, e será que isso é mesmo um avanço?

Em um determinado momento, Andy fala ao seu parceiro, que é um emprenteiro, não gostar do que fazem a prédios antigos e históricos, o reformando, mudando toda sua concepção em prol do progresso e vendendo a altos preços. Essa é a métafora perfeita para o que ela própria passa em sua profissão, que repaginada aos tempos modernos, é atropelada por um novo modelo que não se preocupa com história e fundamentos, só joga ao poder do algorítmos, bombardeando os usuários cada dia mais e mais rápido e anquilando anos de pesquisa, trajetória e informações.

Até mesmo Miranda não está imune ao tempo. Ela que foi uma gigante que colocou a Runaway no topo, agora se vê um “modelo antigo”, que precisa se atualizar e isso é uma tarefa para o “herdeiro” do conglomerado empresarial de qual a revista faz parte e que é um perfeito estereotipo com o que brincam do “Faria Limers”, com o sapatenis e casaco nos ombros e o seu “team”, ou melhor, seus coachs, o qual ele próprio parece um. E é esse “team” que tem o que a Runaway precisa para se adequar a padrões, se reerguer e estar no centro das atenções, mesmo que isso custe perder toda a sua identidade e seja perder a liderança de alguém do calibre de Miranda.

Por baixo do glamour, dos vestidos de gala e o luxo, O Diabo Veste Prada 2 questiona o futuro do jornalismo e dos leitores, se é que esse termo ainda pode ser aplicado aos dias de hoje. Será que ainda existem leitores? Será que as pessoas ainda se interessam em ter conhecimento e dispensarem um tempo para ler algo? Ou o tal avanço é mesmo uma máscara para falarmos de um tempo vazio, ansioso e sem conteúdo aprofundado, em que ganha aquele mais rápido e superficial?

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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