Os 10 baixistas favoritos de Geddy Lee de todos os tempos
Geddy Lee, que em 2018 publicou um extenso livro dedicado a baixos elétricos e seus músicos, refletiu recentemente sobre como a percepção do instrumento mudou ao longo do tempo, após atender a um pedido da revista Rolling Stone para indicar seus dez baixistas favoritos. O próprio Lee, aliás, ficou na 24ª posição da lista dos 50 Maiores Baixistas de Todos os Tempos publicada recentemente pela revista.
“Me adaptei muito rápido e adorei. E acho que é isso que acontece com a maioria desses grandes baixistas. Hoje em dia, claro, é legal ser baixista, mas nem sempre foi assim”, disse Lee sobre sua relação com o instrumento.
Os nomes escolhidos por ele atravessam gerações e estilos distintos, de ícones do rock dos anos 1960 e 1970, como John Entwistle e John Paul Jones, à lenda da Motown James Jamerson e virtuosos do jazz-rock como Jaco Pastorius. Segundo o próprio Lee, apesar da diversidade, todos compartilham uma característica em comum:
“Um denominador comum para mim sempre foi a capacidade de tocar melodicamente e enriquecer a música em um nível mais profundo. Então, sempre me senti atraído por baixistas que não apenas se encaixavam perfeitamente com a seção rítmica e ajudavam a impulsionar a música, mas também adicionavam algum outro nível de interesse musical que pode não ser tão óbvio. Normalmente, isso se revela em uma segunda, terceira ou até mesmo em repetidas audições.”
A seguir, confira a lista completa de Geddy Lee, sem ordem específica, com as explicações do próprio músico sobre cada escolha.
James Jamerson
Lee relembrou como a exposição constante às rádios pop durante a infância, enquanto trabalhava na mercearia da mãe, o apresentou indiretamente ao trabalho do baixista lendário da Motown:
“Quando eu era criança e trabalhava na mercearia da minha mãe, íamos de carro todos os dias para o trabalho e voltávamos. E o rádio pop estava sempre ligado no carro, e claro, eu ficava tocando bateria imaginária no painel, como muita gente fazia. E a mesma coisa acontecia na loja onde trabalhávamos — o rádio ficava ligado o tempo todo. Então, eu fui exposto a muita música da Motown. E esse gênero realmente dominava as rádios naquela época. E havia todas essas músicas incríveis que, de certa forma, me influenciavam inconscientemente. Se você ouve a música do Rush, como isso te leva a James Jamerson e à Motown? [Risos] Mas, de qualquer forma, todas as primeiras bandas em que toquei, nós tocávamos essas músicas incríveis da Motown, porque era o que estava rolando na época.”
Segundo ele, a influência de Jamerson só ficou clara muito tempo depois:
“Se você quisesse tocar numa bandinha de bairro, tocava ‘Hold On, I’m Comin”, ótimas músicas do Wilson Pickett e do Sam and Dave. Enfim, só muito tempo depois percebi que o denominador comum entre muitos desses artistas era o James Jamerson, e como as linhas de baixo dele eram importantes para dar ritmo às músicas, e como a melodia era fundamental nas linhas de baixo. Então, foi uma grande revelação para mim, quando finalmente consegui associar um rosto a todas aquelas músicas.”
John Entwistle
O baixista do The Who foi descrito por Lee como um de seus primeiros grandes ídolos no rock, desde a primeira audição de “My Generation”:
“Ele foi um dos meus primeiros ídolos. Um dos ídolos do rock. [Risos] Desde que ouvi ‘My Generation’ pela primeira vez, pensei: ‘Quem é esse?’. Era um nome que você precisava conhecer. E, de certa forma, ainda o considero o maior baixista de rock de todos os tempos. Primeiro, ele era feroz e tinha um som que ousava invadir o domínio do guitarrista. Ele tinha um timbre muito alto e agressivo. E ouvir isso no rádio pop… quero dizer, ‘My Generation’ não tocou tanto aqui quanto no Reino Unido, mas foi um sucesso pop com um solo de baixo, nada menos. Então, fui atraído, primeiro, pelo seu timbre; segundo, pela sua audácia; e terceiro, pela sua destreza. Ele tinha uma destreza incrível e se movia pelas cordas de uma maneira tão fluida e fácil, e, ao mesmo tempo, soava tremendamente feroz.”
Lee ainda comparou a dificuldade técnica das composições do The Who com outros clássicos da época:
“Todos nós tentamos [no início] tocar ‘My Generation’ e falhamos miseravelmente, mas você faz a sua versão ruim. […] Eu diria que [as músicas do The Who] eram mais difíceis de tocar do que, digamos, um cover de ‘Road Runner’, do Junior Walker and the Allstars, onde você pode transformar isso em uma espécie de linha de baixo de rock sem muita dificuldade. Mas sim, as músicas do The Who eram muito mais difíceis.”
Jack Bruce
O baixista do Cream ocupa lugar especial na trajetória de Lee, que relembrou como a banda influenciou diretamente os primeiros anos do Rush:
“O Cream era de longe minha banda favorita quando eu fiquei velho o suficiente para apreciar rock, e eu estava me aprofundando cada vez mais no gênero. O Cream teve uma grande influência no início do Rush e em mim como baixista. A gente fazia nossa própria versão de ‘Spoonful’. Tocávamos em cafeterias, bailes de escola e tudo mais. Nós realmente tentávamos emular o Cream nos primeiros tempos do Rush, então havia uma conexão real com o jeito de tocar do Jack Bruce para mim.”
Lee ainda relembrou, com carinho, ter assistido a um show do Cream em Toronto, em 1969:
“E eu tive a sorte de poder vê-los em 1969 também, quando tocaram aqui em Toronto, no Massey Hall. Tenho lembranças vívidas disso. Foi um momento simplesmente alucinante para mim. Fui sozinho, porque não consegui encontrar ninguém que tivesse dinheiro ou vontade de ver o Cream naquele dia. Nunca vou me esquecer disso. Ele foi uma grande influência para mim, e continuei fã dele ao longo dos anos e de sua carreira solo. Eu adorava o trabalho solo dele. Compositor interessante, vocalista realmente emotivo e um músico incrível.”
Sobre a estrutura em trio que marcou os primeiros anos do Rush, ele acrescentou:
“Éramos um trio e nos inspirávamos em bandas de trios, como Cream, Hendrix e Blue Cheer. Eram todas bandas que emulávamos no início da carreira. O baixista tem um papel maior nesse formato, principalmente quando o guitarrista solo está fazendo um solo. Você precisa criar ruído suficiente por trás dele para que o som não fique vazio. Então, é uma licença para ser um pouco irritante, o que eu sempre apreciei como baixista.”
Chris Squire
O baixista do Yes entrou na vida de Lee ainda na infância, por meio de um amigo que costumava apresentá-lo a bandas de rock progressivo:
“Um amigo meu e eu matávamos aula direto no ensino fundamental para ir à casa dele. Nós dois éramos fanáticos por música, e ele me apresentava a várias bandas de rock progressivo que eu nunca tinha ouvido. Um dia, matamos aula e fomos para a casa dele, e ele colocou um disco. Era o ‘Time and a Word’ do Yes. Fiquei impressionado com o som do baixo do Chris Squire. Era tão presente! Me lembrou o John Entwistle, com aquela pegada agressiva, mas a música era muito mais ousada e complexa.”
Ele relembrou ainda o impacto imediato da primeira faixa ouvida:
“A primeira música que ouvi foi ‘No Opportunity Necessary, No Experience Needed’. A música começa com muita força, quase como uma introdução clássica. E aí, de repente, o baixo entra com tudo, é arrasador. Para um baixista tão jovem, era incrível. Quer dizer, aquilo me impressionou demais. E pelos próximos incontáveis anos, me tornei um fã incondicional do Yes e um fã incondicional do Chris Squire.”
Lee também contou uma memória especial ao lado do guitarrista Alex Lifeson, ainda antes da formação do Rush:
“Na primeira vez que o Yes veio a Toronto, meu amigo Oscar, o Alex [Lifeson] e eu ficamos na fila do Maple Leaf Gardens a noite toda para conseguir ingressos, e acabamos ficando na segunda fila. É, nunca vou esquecer isso. […] Eles ainda são a única banda para a qual eu fiquei na fila a noite toda para ver [risos].”
Anos mais tarde, essa admiração se transformaria em uma colaboração real, quando Lee foi convidado a se apresentar ao lado do Yes na cerimônia de indução ao Rock and Roll Hall of Fame, em 2017:
“Foi surreal para mim quando me convidaram para tocar ‘Roundabout’ com o Yes na cerimônia de indução ao Rock and Roll Hall of Fame em 2017, especialmente por ser uma música tão importante, não só para mim como baixista, mas também porque são poucas as músicas de rock progressivo que se tornaram singles de sucesso tão importantes. É uma música bastante singular, e o baixo é o que a impulsiona. Não há dúvidas. Então, fiquei realmente muito feliz por poder tocar com eles. Foi uma experiência estranha, mas feliz.”
John Paul Jones
O baixista do Led Zeppelin teve papel decisivo na formação musical de Lee, através de uma memória vívida do lançamento do primeiro álbum da banda britânica:
“Bem, o Led Zeppelin teve uma enorme influência na minha banda. E o nosso baterista original, John Rutsey, por acaso estava no primeiro show deles em Toronto, num lugar chamado Rock Pile. Ele voltou para casa falando maravilhas da banda, então, no dia do lançamento do primeiro álbum, estávamos na fila da loja para comprá-lo. E eu me lembro de correr para casa e colocar o disco para tocar. Nós três ficamos sentados em volta do meu toca-discos, ouvindo o primeiro álbum do Led Zeppelin, e ficamos impressionados com o som da banda, em primeiro lugar. Eles foram realmente, para nós, a primeira banda de heavy metal.”
Ao analisar tecnicamente a contribuição de Jones para o som do Led Zeppelin, Lee destacou faixas específicas:
“Mas o que sustentava tudo era o baixo de John Paul Jones. Se você ouvir ‘How Many More Times’, quero dizer, não importa o quão selvagem a música fique em alguns momentos, lá está John Paul Jones, mantendo tudo firme de uma forma tão fluida. […] Quero dizer, se você ouvir o que está acontecendo em uma música como ‘What Is and What Should Never Be’, onde essa música estaria sem a linha de baixo? É inacreditável. É uma linha de baixo tão bem escrita, fluida e habilidosa, que simplesmente completa a música.”
Lee também compartilhou uma memória pessoal envolvendo Jones, com quem se encontrou durante a pesquisa para seu livro:
“Eu não só o respeito muito como músico, mas ele é uma pessoa adorável. Um cara muito generoso. [Quando nos encontramos para uma entrevista para o meu livro,] ele foi extremamente generoso com o seu tempo. Passamos uma tarde maravilhosa juntos, conversando sobre o passado dele e sobre baixos. Um cara realmente atencioso. Sério, não tenho palavras suficientes para descrever o quanto ele é bom.”
Jaco Pastorius
Apesar de não se considerar um grande apreciador de jazz-rock, Lee admitiu ter sido impactado profundamente pela primeira audição do trabalho de Pastorius, através do álbum “Heavy Weather”, do Weather Report:
“Bem, eu não era muito fã de jazz-rock, mas de vez em quando algo me chamava a atenção e me fazia voltar para esse estilo musical, e eu ouvia coisas diferentes. Lembro que houve uma época em que o álbum ‘Heavy Weather’, do Weather Report, foi lançado e alguém me apresentou a ele. Lembro de estar sentado no ônibus, ouvindo, e pensando: ‘Meu Deus! Quem é esse baixista?’.”
Ele relembrou ainda uma apresentação ao vivo marcante do músico, presenciada durante uma turnê do Rush:
“Estávamos em turnê e me lembro que estávamos tocando, acho que foi em Milwaukee, e na noite anterior ao nosso show, o Weather Report tocou no mesmo teatro em Milwaukee. Então fomos todos ao show, e foi a primeira vez que vi Jaco ao vivo. E claro, essa é uma experiência simplesmente impossível de replicar. Ele era incrível, bizarro, histriônico, e aquele dedão… Quer dizer, ele era realmente um músico único, e eu tive muita sorte de vê-lo naquele contexto, tocando aquela música desafiadora, porque é uma música muito desafiadora.”
Paul McCartney
Segundo Lee, McCartney costuma ser subestimado como baixista, apesar de sua abordagem profundamente melódica do instrumento:
“[McCartney] é subestimado como baixista, mas, para um baixista de pop, ele é um músico extremamente melódico. E estamos falando de um cara que não era originalmente o baixista da banda. […] Ele se adaptou, claro, e aprendeu. Acho a história dele muito interessante, como baixista. Ele aborda o instrumento de uma perspectiva muito mais melódica, e isso fica bem evidente em muitas músicas dos Beatles. Se você ouvir ‘Taxman’, ou ‘Come Together’, e várias outras músicas entre elas, a linha de baixo é sempre tão encorpada. É sempre tão vibrante e melódica, e acho que isso contribui muito para o caráter contagiante das músicas dos Beatles.”
Lee ainda relembrou como os Beatles influenciaram indiretamente o repertório das primeiras bandas em que tocou:
“Acho que ele estava, de certa forma, influenciando meu intelecto como baixista, mesmo que inconscientemente. Embora o estilo de música que eu tocava não fosse o dos Beatles, eu tinha um grande respeito por eles. Costumávamos tocar uma versão de uma música chamada ‘Bad Boy’ que era meio que inspirada em uma música dos Beatles. Os Beatles também fizeram um cover dessa música. Então, todos nós ouvíamos os Beatles. […] Eu sempre respeitei a contribuição de Paul McCartney para os Beatles, não só como cantor, mas também como baixista.”
Flea
O baixista do Red Hot Chili Peppers também figura na lista, destacado por sua versatilidade técnica e pela forma como incorporou influências de R&B ao rock:
“Flea me impressiona demais. Quer dizer, quando você fala de uma geração de baixistas que começou a usar a técnica de slap… são tantos. Acho que surgiu um pouco do jazz, um pouco do R&B. Lembro que por um tempo, era só o que se ouvia. Todo baixista usava slap e pop, slap e pop. E aí veio o Flea, que conseguia fazer slap, pop e tudo mais com uma destreza incrível, que eu sentia que ele usava isso de uma forma genial. Ele trouxe essa sensibilidade do… eu acho, o que você chamaria naquela época de um estilo de R&B contemporâneo para o rock. Ele sempre manteve a essência do rock. Sempre faz rock.”
Lee também elogiou a diversidade técnica do músico ao longo da carreira:
“E eu adoro o fato de ele ter todas essas ferramentas à sua disposição. Mais ferramentas do que a maioria dos outros baixistas, na minha opinião. E ele sempre experimentou com instrumentos diferentes, conseguindo um timbre um pouco diferente. E, novamente, aqui está um cara que fez muita música pop, e ainda assim essa música pop tinha linhas de baixo muito agressivas, muito criativas e muito melódicas.”
Les Claypool
O baixista do Primus entrou na vida de Lee de forma inesperada, pouco antes de uma turnê conjunta entre as duas bandas:
“Eu não sabia muito sobre o Primus até pouco antes de eles começarem a turnê conosco. Alguém me mandou os discos deles, nós os ouvimos e perguntamos se eles topariam fazer uma turnê com a gente. Eu adorei o jeito excêntrico deles. Foi só quando fizemos a turnê juntos que eu realmente conheci o jeito dele tocar e vi o quão criativo e aventureiro ele era. Muito, muito, muito diferente de tudo que eu já tinha visto. Não existe ninguém como o Les Claypool.”
Segundo Lee, a admiração era mútua, já que Claypool também era fã declarado do Rush:
“E ele era um grande fã do Rush, então ele sempre falava sobre as músicas do Rush e perguntava: ‘Como você tocou isso?’ e ‘Como você tocou aquilo?’. E eu estava igualmente interessado em como ele tocava e como ele conseguia aquele estilo rítmico. Ele realmente me influenciou como músico a tentar expandir os limites das minhas habilidades rítmicas. Eu diria que a turnê que fiz com o Primus foi transformadora para mim.”
Jeff Berlin
Por fim, Lee destacou Jeff Berlin, baixista que conheceu através de trabalhos solo do baterista do Yes, Bill Bruford:
“Bem, eu era fã do Yes — isso é fato. E o [baterista original do Yes] Bill Bruford começou a fazer alguns trabalhos solo. Em alguns de seus discos solo, ele tinha um baixista chamado Jeff Berlin. Eu não sabia quem era esse cara, mas o jeito dele tocar era incrível.”
Ele relembrou ainda o impacto de vê-lo ao vivo, em um pequeno clube no Reino Unido, ao lado do baterista Neil Peart:
“E por acaso estávamos no Reino Unido, e eles estavam fazendo um show em um clube. Acho que eu e o Neil fomos assistir ao show. E por mais que eu adorasse o Jeff Berlin nos discos, quando os vi ao vivo, ele simplesmente me impressionou. Ele era um músico de rock, um músico de jazz, com uma extensão incrível. Ele usava todos os dedos e conseguia tocar como um guitarrista espanhol em um violão flamenco.”
Lee encerrou destacando a amizade construída ao longo dos anos com Berlin, e ainda citou outro nome que, para ele, merece reconhecimento semelhante:
“Felizmente, nos tornamos amigos e continuamos amigos ao longo dos anos. […] Ele é um baixista muito discreto, mas incrivelmente talentoso e influente, eu acho. Outros baixistas sabem quem é Jeff e o quão bom ele é. Não é um nome muito conhecido, mas não deixa de ser um grande músico. Como Percy Jones, do Brand X, que eu também colocaria na mesma categoria que Jeff. […] Percy Jones era um baixista fenomenal. É quase como se você esperasse que os baixistas de jazz fossem ótimos, mas nem todos são memoráveis. Então, esses dois caras certamente foram.”
O Rush de volta ao Brasil
O Rush retorna ao Brasil no próximo ano, para shows em diversas capitais do país. O trio se apresenta em duas noites em São Paulo, além do Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e Curitiba. Os ingressos estão sendo vendidos no site da Eventim, com realização da 30e.
Essas apresentações marcam as comemorações dos 50 anos do Rush, com a turnê “Fifty Something” e também, os primeiros shows em mais de 10 anos e os primeiros desde a morte de Neil Peart. A turnê é a estreia de Anika Nilles como atual baterista.
