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“Neil Peart: No One’s Disciple” enaltece o deus e apresenta o humano

Começar a digitar qualquer coisa em torno de Neil Peart e dizer que ele é um dos, se não o maior baterista que este planeta já viu, já se tornou uma redundância e algo completamente desnecessário.

Ao lado de Geddy Lee e Alex Lifeson, o Rush se tornou um dos trios de maior impacto no rock e juntos criaram verdadeiras obras transcendentais em meio a conceitos, musicalidade monstruosa e uma carisma invejável e para pouquíssimos, tendo até hoje nenhuma banda alcançado algo do tipo.

Mas o deus da bateria todos já conheciam; era hora de humanizar o homem, mostrar outro lado, já que Neil, em vida, foi uma pessoa super reservada e não sabíamos como, de fato, era compor, como era o Neil, pessoa, em seu habitat natural. Em “Neil Peart: No One’s Disciple“, é isso que iremos assistir, ainda que uma minúscula parte do que foi a vida de um gênio que transitou entre nós; o filme mostra um lado mais pessoal do baterista, como ele próprio diz em determinada parte: “no palco eu sou o profissional, mas fora dele, eu sou só uma pessoa comum”.

Talvez não tão comum, mas vemos um pouco de como eram reuniões e jams com amigos próximos em um local em sua casa que ele batizou de “a caverna”, onde se soltava tocando não as complexas melodias do Rush, mas só deixando a música fluir ao lado de pessoas queridas como Danny Carey, baterista do Tool, Chad Smith do Red Hot Chili Peppers, Gavin Harrison do Porcupine Tree e Stewart Copeland, baterista do The Police.

Esses mesmos quatro nomes também surgem ao longo do filme interpretando composições de Neil, e mesmo sendo nomes do alto calibre das baquetas, vemos as dificuldades que eles tem de reproduzir cada detalhezinho que Peart escrevia em suas linhas, e mesmo para alguém de um patamar tão alto como Danny, talvez o nome mais prolífero de sua geração, vemos estampado em seu rosto o nervosismo e concentração que algo desse porte exige de quem se arrisca na empreitada.

A ideia de humanização do filme funciona como uma longa conversa de churrasco de final de semana entre Lee, Lifeson e amigos de Neil, relembrando histórias e o nome gigante que ele era, e isso flui muito bem, fazendo as quase duas horas do documentário passarem voando e deixando o espectador vidrado na tela para escutar a próxima história ou ver quem vai interpretar qual música na próxima sessão.

Nesse aspecto, a direção de Scot McFadyen e Sam Dunn (a dupla de Rush: Beyond the Lighted Stage, de 2010), acerta em cheio, colocando quem assiste ao filme como parte daquele universo e podendo se sentir um pouquinho mais próximo de Neil, entender mais de sua mente tão ativa e cheia de universos próprios, que se refletiam em sua arte e como o homem calado, um deus que exercia sobre seus súditos, num mar de pessoas replicando suas viradas em “air drums” e causando inveja por isso em outros (o trecho em que Copeland fala que queria algo parecido para ele é hilário), e ver do seu lado humano, humilde, que mesmo em seu auge de criatividade e tendo uma experiência e conhecimento universal, teve humildade de abaixar a cabeça e procurar novas formas de tocar como um mero principiante. Isso o engrandece de uma forma sem precedentes.

Um presente aos fãs do baterista, uma celebração do humano, Neil Peart se torna cada dia mais eterno e uma verdadeira escola lendária não só para o rock, mas para a música mundial, mostrando que deuses também podem ser humanos e aqui, entendemos um pouquinho disso e de alguma forma, nos aproximamos mais de quem foi, é, e sempre será Neil Peart, o deus e homem do Rush.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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