Scott Ian diz não ser da “esquerda”, mas se considera um “centrista”
O Anthrax abordou a violência armada nos Estados Unidos em “It’s For The Kids”, primeiro single de “Cursum Perficio“, seu mais recente álbum de estúdio. A música, escrita sobre a frequência de tiroteios em escolas, provocou críticas de pessoas que passaram a classificar a banda como alinhada à esquerda.
Em entrevista ao Los Angeles Times, o guitarrista Scott Ian rejeitou essa interpretação. Ele afirmou que não se considera liberal e explicou que sua posição política não impede que defenda medidas sensatas para proteger crianças.
“Não sou liberal. Sou centrista. Gosto de praticar tiro ao prato e gosto de ir a um estande de tiro para atirar em alvos. Mas acredito no bom senso. E, independentemente de suas convicções políticas, acho que todos podem concordar que ninguém quer ver uma criança de oito anos levar um tiro no rosto, algo que acontece com frequência excessiva.”
A declaração foi publicada em uma entrevista conduzida por Jon Wiederhorn, jornalista que também foi coautor da autobiografia de Ian, I’m The Man: The Story Of That Guy From Anthrax, lançada em 2014.
Charlie Benante critica a situação dos Estados Unidos
O baterista Charlie Benante, responsável pela composição da maior parte das músicas do Anthrax, também comentou a insatisfação que motivou a criação da faixa. Ele ressaltou que amar o país não significa ignorar seus problemas.
“Eu amo este país. Mas isso não significa que eu não tenha alguns problemas com ele. A maneira como fazemos as coisas neste país está simplesmente errada, e isso me deixa frustrado a ponto de eu pensar: ‘Que se dane. Vou apenas abaixar a cabeça e escrever uma música’.”
Para os músicos, a composição funciona como uma forma de expressar a frustração diante de situações que consideram persistentes e da falta de respostas para questões que afetam a população.
Scott Ian diz que a paternidade mudou sua visão de mundo
Em maio, Ian já havia explicado a inspiração por trás da letra durante uma entrevista com Allison Hagendorf. Na ocasião, o guitarrista relacionou a música à raiva provocada pela insegurança das crianças e afirmou que a paternidade ampliou suas preocupações.
“É assim que lido com a raiva. Ao longo dos anos, aprendi que a raiva tem suas raízes no medo, e certamente ter um filho mudou a minha perspectiva. Se isso não mudar sua visão de mundo, se não mudar a maneira como você se sente em relação às coisas, há algo errado com você. E, sim, de certa forma, há mais medo na minha vida porque tenho um filho, e este mundo em que vivemos já demonstrou não ser um lugar seguro para crianças em lugar nenhum, não apenas aqui nos Estados Unidos. Tenho muito medo disso, o que, naturalmente, acaba se transformando em raiva, porque ninguém faz nada. Ninguém faz nada.”
Na sequência, Ian direcionou suas críticas à administração dos Estados Unidos e à maneira como o governo lida com a proteção de crianças, tanto dentro quanto fora do país.
“Falando especificamente do meu ponto de vista como cidadão dos Estados Unidos que paga impostos, posso dizer com segurança que a administração no poder não faz nada para proteger as crianças deste país e prejudica crianças de outros países ao redor do mundo. E, se você discorda disso, está errado. Não é uma opinião; é um fato. E a letra desta música expressa meus sentimentos. Estou despejando minha raiva para que ela não me consuma.”
O guitarrista deixou claro que a composição não surgiu de uma tentativa de estabelecer um posicionamento partidário para a banda. Segundo ele, a letra representa sua reação pessoal a acontecimentos que considera inaceitáveis.
Música é uma forma de extravasar a raiva
Ian também explicou que usa a composição como ferramenta para lidar com suas emoções desde o início da carreira. A prática, segundo ele, tem um efeito catártico e terapêutico, permitindo transformar a indignação em música.
“Sempre foi uma ferramenta que uso desde criança. Desde que escrevi minhas primeiras letras para um disco do Anthrax, em 1985, isso tem sido uma maneira de extravasar. É muito catártico e terapêutico para mim. E as pessoas dizem: ‘Com o que você tem tanto motivo para ficar bravo?’. Eu respondo: ‘Olhe pela janela, cara’. Sim, estou em uma banda. Amo pra caralho o que faço. Posso tocar guitarra. Isso me faz sorrir da mesma maneira que acontecia quando eu tinha nove anos. Mas sou um ser humano, com emoções e pensamentos humanos normais, e talvez seja inteligente demais para o meu próprio bem.”
A fala reforça a visão de Ian sobre a música como espaço para expressar sentimentos que vão além da experiência pessoal. Em “It’s For The Kids”, essa abordagem se volta à violência contra crianças e à frustração com a falta de mudanças.
Cursum Perficio alcançou o Top 5 de vendas nos Estados Unidos
O Anthrax lançou “Cursum Perficio” em 18 de setembro, com distribuição da Megaforce nos Estados Unidos e da Nuclear Blast na Europa. A expressão latina que dá nome ao álbum pode ser traduzida como “minha jornada chegou ao fim”, “minha jornada terminou” ou “concluo minha jornada”.
O disco também teve um bom desempenho comercial em sua semana de estreia. Segundo dados da Luminate, o trabalho estreou em quarto lugar na parada Top Album Sales, da Billboard, com 22 mil unidades equivalentes de álbum nos Estados Unidos.
Desse total, 21 mil corresponderam a vendas de cópias físicas e digitais, incluindo 8 mil unidades em vinil. O resultado colocou o álbum na sétima posição da parada Vinyl Albums e no topo da Top Hard Rock Albums.
Foto: André Tedim
