Down se consolidou em “III – Over the Under” como um das maiores potências do stoner
O Down nunca pareceu interessado em permanecer confortavelmente instalado na própria fórmula. Em “III – Over the Under”, lançado originalmente em 2007 e de volta as prateleiras ,pela Shinigami Records em parceria com a Nuclear Blast, essa disposição para explorar novos caminhos se manifesta em um trabalho que preserva a identidade da banda, mas amplia sua abordagem sonora. O resultado é um álbum encorpado, sombrio e marcado por uma maturidade que transforma o peso em algo muito mais elaborado do que uma sucessão de riffs arrastados e grooves intensos.
Com integrantes que construíram suas trajetórias em nomes fundamentais como Pantera, Corrosion of Conformity e Crowbar, o Down carrega uma bagagem musical considerável. Entretanto, o mérito do grupo está justamente em não depender apenas do histórico de seus músicos. Ao longo de “III – Over the Under”, a banda demonstra uma compreensão impressionante de como combinar agressividade, melodia e dinâmica, construindo composições que funcionam tanto pela força individual quanto pela coesão do conjunto.
Em comparação com os trabalhos anteriores, o álbum apresenta uma abordagem mais voltada ao metal, reduzindo parte daquela atmosfera predominantemente sulista que caracterizava sua sonoridade. As raízes do southern rock continuam presentes, assim como o balanço característico das guitarras, mas agora aparecem em meio a uma estrutura mais pesada e sombria. É como se o grupo tivesse preservado a essência de sua música enquanto aumentava consideravelmente a intensidade.
Phil Anselmo também se mostra fundamental para essa evolução. Sua interpretação não depende exclusivamente da agressividade vocal que marcou parte de sua trajetória no Pantera. Aqui, ele explora nuances melódicas e uma expressividade que contribui diretamente para a identidade das composições. Essa escolha fica particularmente evidente em “On March the Saints”, uma das grandes faixas do disco e um destaque imediato pela combinação entre groove, peso e um refrão marcante. A música demonstra como o Down consegue soar devastador sem precisar recorrer constantemente à brutalidade.
Outro elemento decisivo está na cozinha formada por Rex Brown e Pepper Keenan, cuja interação sustenta boa parte da personalidade do álbum. Baixo e bateria trabalham em perfeita sintonia, criando uma base robusta para as guitarras e permitindo que as músicas encontrem seu próprio ritmo. O resultado é um disco que sabe quando acelerar, quando arrastar o andamento e quando deixar o groove assumir o protagonismo.
Essa inteligência nos arranjos é justamente o que diferencia “III – Over the Under” de um trabalho que poderia facilmente se apoiar apenas no peso de seus integrantes. Existe intenção por trás de cada escolha, e a banda demonstra segurança ao explorar atmosferas mais densas sem abrir mão de sua identidade sulista.
Mais do que uma simples continuação dos dois primeiros álbuns, “III – Over the Under” representa um passo importante na consolidação do Down. É um trabalho que combina experiência, personalidade e composições muito bem construídas, reafirmando a capacidade do grupo de transformar influências conhecidas em uma sonoridade própria. Para quem aprecia metal pesado, riffs marcantes e músicas que encontram força tanto na agressividade quanto na melodia, trata-se de um álbum que merece ser ouvido com atenção.
