NewsNotícias

A crítica de James Hetfield a artistas que usam shows para defender pautas políticas

James Hetfield, vocalista e guitarrista do Metallica, criticou artistas que transformam apresentações ao vivo em plataformas para discursos políticos. A declaração aconteceu durante o show da banda na Sphere, em Las Vegas, no último sábado, quando o músico agradeceu aos fãs que viajaram para acompanhar o grupo e afirmou que o objetivo do Metallica é proporcionar um momento de conexão por meio da música.

Em um vídeo compartilhado no YouTube, Hetfield destacou o esforço do público para comparecer ao espetáculo e agradeceu pelo apoio dos fãs.

“A menos que vocês morem em Las Vegas, vieram de longe para passar um tempo com o Metallica. Somos gratos por isso — pelas viagens, pelo dinheiro que gastam e pelo tempo que dedicaram. Obrigado por virem celebrar conosco.”

Na sequência, o músico fez uma crítica direta a artistas que, segundo ele, aproveitam os palcos para tentar influenciar o público com suas opiniões.

“Só preciso dizer uma coisa: o Metallica não está aqui, como alguns outros artistas, para influenciar vocês com suas besteiras, certo?”

A declaração foi recebida com aplausos e gritos da plateia. Hetfield completou dizendo que a intenção da banda é oferecer uma pausa dos problemas externos.

“Estamos aqui… sem besteiras. Estamos aqui para esquecer toda essa merda que acontece lá fora, certo? A agenda do Metallica é amor, energia e música pesada, baby!”

Embora não tenha citado nomes, a fala acontece em meio a debates recentes sobre manifestações políticas durante shows. Um dos casos mencionados pela imprensa americana envolve o rapper Macklemore, que deixou a programação de abertura da turnê Loop Tour, de Ed Sheeran, após fazer declarações em apoio à Palestina e apresentar a música de protesto “Hind’s Hall”.

Macklemore, Ed Sheeran e a discussão sobre política nos palcos

Macklemore foi retirado das apresentações restantes previstas na turnê de Sheeran depois de manifestações pró-Palestina, incluindo a execução de “Hind’s Hall” durante um show no MetLife Stadium, em Nova Jersey.

Na ocasião, Macklemore afirmou que Robert Kraft, proprietário do New England Patriots e do Gillette Stadium, teria informado a Sheeran que o rapper não poderia se apresentar no estádio. Kraft confirmou que se opunha à participação do artista, citando suas ações recentes e o que descreveu como um histórico mais amplo de retórica e imagens antissemitas.

Após a saída de Macklemore, os demais artistas de abertura e músicos de apoio da turnê, incluindo Finneas, Lukas Graham, Aaron Rowe e Beoga, também desistiram de participar, em solidariedade ao rapper.

Sheeran, por sua vez, declarou que não foi responsável pela decisão, atribuindo-a aos promotores e aos locais dos shows. Em uma apresentação na Filadélfia, o cantor afirmou estar consternado com o conflito entre Israel e Palestina e classificou a situação em Gaza como catastrófica e injustificável. Ele também condenou os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023.

O cantor já havia defendido a decisão de manter seus shows afastados de debates políticos. Segundo ele, o público inclui crianças e pessoas de diferentes origens, que não esperam encontrar um fórum político durante uma apresentação musical.

Macklemore anunciou posteriormente que doaria US$ 1 milhão, valor que recebeu por abrir os shows de Sheeran, a organizações que prestam assistência humanitária aos palestinos. O rapper também anunciou uma série de três apresentações intitulada Free Palestine Tour, prevista para o fim de outubro.

Outros artistas também se manifestaram politicamente durante apresentações recentes. Entre eles estão Bruce Springsteen, Tom Morello, do Rage Against the Machine, Billie Joe Armstrong, do Green Day, Kacey Musgraves e o cantor country Zach Bryan, que usou uma camiseta com a frase “Free Palestine” durante shows com ingressos esgotados no Gillette Stadium.

James Hetfield já defendia distância entre música e política

A posição expressa por Hetfield em Las Vegas não é novidade. Em entrevista à BBC em 2016, o músico já havia explicado por que o Metallica evita abordar temas políticos e religiosos de maneira que possa aprofundar divisões entre os fãs.

“Há muita polarização acontecendo nos Estados Unidos, e vejo isso também em outros lugares. Mas parece que você precisa se tornar cada vez mais extremista para contrabalançar o outro extremo. Precisamos encontrar algum equilíbrio no meio disso tudo.

Nós ficamos longe da política e da religião. Isso parece apenas polarizar ainda mais as pessoas. Todos temos nossas próprias crenças, mas, no fim das contas, estamos tentando nos conectar com as pessoas, e parece que as opiniões políticas não conseguem fazer isso tão bem quanto a música.”

Em outra entrevista, concedida em 2017 ao jornal chileno La Tercera, Hetfield também se recusou a revelar sua opinião sobre Donald Trump, que ocupava a presidência dos Estados Unidos naquele período.

“Acho que todo mundo tem uma opinião sobre Donald Trump. A minha fica comigo.

Sou cantor e guitarrista de uma banda de rock. Odeio política. Não quero falar sobre política. Isso separa as pessoas, e quero uni-las com a música. Prefiro ficar de fora de tudo isso, porque polariza as pessoas. Se eu disser ‘amo Trump’ ou ‘odeio Trump’, alguém pode dizer que não gosta mais da minha música. Isso é muito bobo.”

A discussão também já apareceu dentro do próprio Metallica. Em entrevista à revista Vulture, em 2016, o baterista Lars Ulrich, que já expressou posições políticas liberais e oposição a Trump, afirmou que nunca havia conversado deliberadamente com Hetfield sobre suas opiniões políticas, apesar das décadas de convivência.

“Juro a você que converso com James Hetfield sobre a maioria das coisas deste planeta, mas não acho que alguma vez tenha tido deliberadamente uma conversa política com ele.

Passamos 35 anos juntos e, obviamente, já estivemos na mesma sala quando uma conversa tomou o rumo da política. Mas James e eu sentados em uma sala discutindo nossas opiniões específicas sobre algo como saúde acessível? Isso nunca aconteceu.”

Metallica segue com residência na Sphere

O Metallica está realizando a residência Life Burns Faster na Sphere, em Las Vegas. A série prevê 24 apresentações, começou em 1º de outubro de 2026 e tem encerramento programado para 13 de março de 2027.

A declaração de Hetfield reforça uma posição que o vocalista mantém há anos: para ele, o papel do Metallica é conectar pessoas por meio da música, evitando transformar os shows em espaços de confronto político.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *