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A crítica de Regis Tadeu ao Metallica no Sphere: “banda é coadjuvante”

O Metallica fez a sua aguardada estreia no The Sphere em Las Vegas, e para sua temporada no domo, a banda preparou um verdadeiro espetáculo visual.

Durante o show, diversas projeções impressionantes são reproduzidas nos telões do local, dando mais vida à música da banda. Mas os efeitos parecem não ter agradado a todos os fãs, que disseram que a música em si se perdeu no meio de tanta tecnologia.

Essa também foi a opinião do crítico musical Regis Tadeu, que falou sobre os aspectos e conceitos do show e sobre como a banda acabou virando coadjuvante no meio de tudo aquilo. Ele diz, conforme transcrito pelo Confere Rock:

Prepare-se para perder os olhos de vez em meio a uma orgia de pixels, lasers e telões. Porque o Metallica, assim como fez o U2 e várias outras bandas e artistas, resolveu vestir o macacão de funcionário do entretenimento corporativo e aportou em Las Vegas para iniciar sua residência na cidade, batizada de Life Burns Faster, no pomposo e faraônico Sphere. Com essa atitude, com esse passo, o Metallica tornou-se a primeira banda de heavy metal a pisar naquele ovo cibernético. E, obviamente, os fãs xiitas, baba-ovos, aqueles que aplaudem qualquer coisa que tenha o logotipo da banda, estão em estado de graça, em êxtase, tendo orgasmos.

Ele então continua e faz a sua crítica ao novo show:

Mas quem tem um mínimo de discernimento e respeito pela história da música, ainda mais da música pesada, vai olhar para aquilo, para aquele circo, com a seriedade e o ranço crítico que ele merece, que é o que estou fazendo aqui neste vídeo. Primeiro de tudo, basta assistir aos vídeos dessa residência que estão rolando pela internet para sacar, cara, que, no planeta Metallica, o som é de primeira, mas a banda é de miniatura. Obviamente, não vou ser leviano e negar a realidade. Tecnicamente, o impacto visual e acústico dessa empreitada é realmente de cair o queixo. — Diz Regis Tadeu. Enclausurados ali em um espaço controlado, com uma tela monstruosa de 16K e absurdos 4.864 m², a experiência transforma o recinto em um verdadeiro planeta metálico, como eu falei. Os elementos visuais ganham proporções bíblicas, titânicas. Veja, por exemplo, as icônicas cruzes da capa de Master of Puppets ganhando vida e se avolumando por cima das cabeças atônitas da plateia. É algo que realmente mexe com o imaginário do fã. Aí você soma isso a uma qualidade de som impecável, cristalina, em que cada palhetada de James Hetfield e cada bumbo de Lars Ulrich ecoam com uma nitidez realmente impressionante.

Na sequência, Regis Tadeu aprofunda sua crítica e fala sobre a “desconexão” com a música:

A conexão com o público está irremediavelmente quebrada e diluída. Por quê, cara? Porque há um triunfo do turista corporativo sobre o fã de verdade nessas plateias. Para começar, quem lota os shows hoje em dia não é aquele headbanger suado que junta as moedinhas para comprar um vinil importado do Metallica, e sim um público corporativo, o turista de cassino e o playboy que vai a Las Vegas para postar Stories no Instagram dizendo: “Ah, eu vi o Metallica”. O cara não sabe absolutamente nada. E a escala épica e aquela grandiosidade tecnológica foram inteiramente sequestradas por essa lógica de espetáculo de Las Vegas. A ponto da performance física da banda e a própria presença dos músicos no palco terem se tornado detalhes minúsculos, quase irrelevantes, porque os caras foram engolidos por aquela megalomania das animações e dos efeitos especiais. E é aqui que mora a minha maior lamentação, cara. Por quê? Porque as plateias modernas, as plateias atuais, estão infinitamente mais interessadas em consumir experiências imersivas do que em assistir, de fato, a uma banda tocando.

Adiante, Regis fala que isso não é algo específico do Metallica, mas que tem virado algo comum na indústria dos shows:

Essa praga comportamental não é privilégio exclusivo do Metallica, já que tem sido observada em turnês de artistas e bandas famosos dos mais variados estilos ao redor do planeta. As pessoas pagam caro para ir a um show não para olhar para o palco e ver os caras tocando, mas para ficar olhando para uma tela gigante que ocupa todo o campo de visão da plateia e filmar tudo nos celulares, com imagens tremidas e som de merda. E o resultado trágico disso são músicos e bandas sendo rebaixados à condição humilhante de coadjuvantes de seus próprios shows, de seus próprios espetáculos. Diante de animações colossais em 16K, projetadas no teto e nas laterais, que engolem o espectador em uma orgia visual hipnotizante, os integrantes do Metallica estão pequenininhos lá embaixo. Parecem meros pontos de luz perdidos no rodapé do cenário. E a disputa pela atenção de quem está na plateia é covarde. Por quê, cara? Porque você olha para o palco e vê James Hetfield suando a camisa. Mas, depois, acaba desviando o olhar para cima, para o lado, e vê uns monstros digitais gigantescos engolindo a arena, cara. É inevitável que o espectador se pegue pensando: para onde eu olho aqui, no meio de tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo?

Regis Tadeu então fala sobre como em sua visão, em algum momento os artistas deixarão de ser algo importante e vital em um show:

E isso dá margem a uma reflexão assustadora, sobre a qual venho alertando há muito tempo. Vai chegar o momento em que os próprios artistas, as próprias bandas, serão completamente dispensáveis nesse tipo de show. Se a atração principal é a tela, são os gráficos, as imagens, a pirotecnia ou as imagens em alta definição, qual é a diferença prática entre ter quatro caras tocando ali embaixo e um punhado de avatares holográficos, como o ABBA Voyage tentou fazer, uma banda cover ou até mesmo um DJ acionando um playback caprichado? Praticamente nenhuma. Então, quando uma casa de shows como o Sphere deixa de funcionar como um mero local, como um simples pano de fundo tradicional, e se transforma em uma atração à parte, a ponto de manchetes e críticas apontarem que a experiência visual supera a presença física do grupo, fica claro que alguma coisa mudou.

Ele então finaliza sua reflexão:

Então, o Metallica está lá neste mês tocando bem, como sempre, resgatando raridades em seu repertório. Mas a banda acaba sendo engolida pelo monstro de 16K que ajudou a alimentar. E tudo isso é um triste fim para a arte de simplesmente subir em um palco e fazer música. Pois bem, minha amiga, minha amiga, essa é a minha opinião a respeito dessa residência do Metallica em Las Vegas. Eu sei que, neste exato momento, você está puto da vida com o que falei. Ou não? Não sei.

Marcio Machado

Formado em História pela Universidade Estadual de Minas Gerais. Fundador e editor do Confere Só, que começou como um perfil do instagram em 2020, para em 2022 se expandir para um site. Ouvinte de rock/metal desde os 15 anos, nunca foi suficiente só ouvir aquela música, mas era preciso debater sobre, destrinchar a obra, daí surgiu a vontade de escrever que foi crescendo e chegando a lugares como o Whiplash, Headbangers Brasil, Headbangers News, 80 Minutos, Gaveta de Bagunças e outros, até ter sua própria casa!

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